1 de setembro de 2010

A casa de Robinson


Sven Fennema © (http://www.boundlessmind.net/)


Aos olhos do pai, o filho pródigo será sempre o mais amado, sempre perdoado por sua prodigalidade, por sua vida errante. Este filho que traz tanto sofrimento à casa talvez mereça mais amor que os demais por ser tão estranho à própria família ― ele é o próximo de que fala aquele mandamento, o outro tão diferente de mim a quem devo amar como a mim mesmo. É mais que amor paternal, é o amor para com o gênero humano. Para o pai, ao contrário dos irmãos obedientes e perpetuadores da tradição familiar, seja ela qual for, o filho pródigo é a ruptura com toda a cultura em que ele foi gerado, com todo o trabalho realizado pelos pais pela prosperidade familiar. Ele é niilista, é destruidor. O filho pródigo, além de alienígena, é muito perigoso.


Ele volta para casa. Por vontade própria. É como um estranho batendo à porta. O próximo. Perigoso.


É aí, na chegada do errante, que começa o romance Em casa (Nova Fronteira, 2010, 352 págs., tradução de Adriana Lisboa), de Marilynne Robinson.


O nome deste errante é Jack Boughton. Um dos oito filhos do reverendo Robert Boughton, um septuagenário já aposentado, viúvo, que nunca saiu de sua cidade, Gilead, no interior do estado de Iowa, e que então mora com a filha caçula, Glory, uma mulher de trinta e tantos. Estes três personagens alimentarão as tensões de que é feita esta narrativa.


Jack passara vinte anos sem retornar à casa paterna. Nem a morte de sua a mãe o trouxe a Gilead. Vinte anos consumidos à semelhança daquele filho pródigo da parábola de Lucas. A inquietação que ele trouxe à família, contudo, não é somente por conta de sua partida e de seus destinos desconhecidos. Desde pequeno, Jack já ostentava um diabo interior insaciável, que fez fama em toda a cidade. Ladrão, alcoólatra, vagabundo, desempregado; motorista imprudente, pai irresponsável. Ele sempre foi o perigo.


Sua juventude pouco amistosa, seu espírito indômito e mesmo sua idade criaram a distância inconciliável entre ele e os irmãos mais novos, principalmente Glory. Ela, saída havia pouco de um relacionamento aviltante (extorsionário, casado), volta para casa para se recuperar e para cuidar do pai enfermo. Seu voo para fora de Gilead foi desastroso e traumatizante e isso contribui para sentir uma certa admiração ressentida da liberdade autocrática de Jack.


Um homem estigmatizado por todo o desperdício de vida que já cometeu, sofrendo o peso da imutabilidade do passado e buscando sua redenção. Uma mulher devota, tristonha, sem nenhum tipo de alternativa senão a casa em que sempre viveu com o patriarca, homem tão dedicado a Deus a ponto de lhe ser impessoal. E ele, o pai, reverendo Boughton, presbiteriano, vivendo próximo à morte e ainda incapaz de perdoar seu filho errabundo e inconsequente. Ao verão de 1956, estas três pessoas estarão juntas, sob o teto da casa que conhecem tão bem, a casa que testemunhou toda a vida dos Boughton e que, mesmo vazia, é carregada daquele ar opressivo e inescapável dos valores cristãos intrínsecos àquela família.


O romance é belo do início ao fim. Uma prosa simples e fluida, intimista, para falar de pessoas espiritualmente ricas, mas em desentendimento com o mandamento supremo da cristandade, amar ao próximo, e seu corolário imediato, perdoá-lo.


Marilynne Robinson é cristã, protestante, congregacionista. Nasceu em 1947, em Sandpoint, cidadezinha no interior de Idaho, Estados Unidos. Mora em Iowa City, Iowa, onde é professora de criação literária na universidade do estado. Em casa é seu terceiro romance, o segundo publicado no Brasil, ambos pela Nova Fronteira. O primeiro, Gilead, é narrado pelo reverendo John Ames, um congregacionista, vizinho e melhor amigo do reverendo Boughton. (O nome de Jack, na verdade, é John Ames Boughton, em tributo ao amigo e companheiro espiritual.) Há protestantismo em todo lugar, tanto na cultura da própria autora quanto nos personagens de sua criação, nos dilemas por eles vividos e, em relação ao Em casa, na maneira como são narrados ― uma releitura da parábola do filho pródigo.


Embora haja religião envolvida no romance, o grande mérito dele é transcender o aspecto meramente religioso e desenvolver um drama de valor espiritual. O reverendo Boughton tem um filho com talentos especiais para desgraça e o amor de pai, natural, vive em falso equilíbrio com o amor professado, obrigatório. Ignorante sobre a fronteira que divide o reverendo do pai, Robert Boughton vê a morte se aproximar e não sabe como perdoar aquele filho multívago que o visita, não mais uma criança, mas um homem adulto, mais próximo da velhice que da juventude. Um homem que desenvolveu uma aguda inteligência, leitor ávido que adquiriu uma erudição peculiar para desmascarar hipocrisias. O que o reverendo Boughton tem diante de si é um antagonista espiritual. Um traidor, diria, acredito, Nilton Bonder.


Se o pai na parábola de Lucas perdoa seu filho perdulário, e o veste com a melhor roupa, e o calça com sandálias novas, e lhe sacrifica um novilho cevado para lhe oferecer uma festa, porque seu filho "estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado", se na Bíblia o pai é só amor e perdão, na casa de Robinson este pai é dúvida. E mais.

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Publiquei primeiro aqui.

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