27 de setembro de 2010

Dorothy Gale, domesticada

Escrever sobre cinema infantil é ter de mencionar O Mágico de Oz. Ainda hoje, quem o assiste, adora. É clássico. Baseado no livro de L. Frank Baum, The Wonderful Wizard of Oz. O filme predileto dos professores de roteiro cinematográfico, sobretudo dos roteiristas de inspirações arquetípicas, que têm como bíblia A Jornada do Escritor, de Christopher Vogler ― uma versão for dummies d'O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell.

Era um filme infanto-juvenil de 1939, roteirizado por Noel Langley, Florence Ryerson e Edgar Allan Woolf, dirigido por Victor Fleming, estrelado por Judy Garland, sua performance mais famosa; mas a inexorável mudança da cultura com o passar do tempo o faz, hoje, ser uma película infantil. Claro, estabelecer faixas etárias segue critérios ascendentes e não retroativos, traduzindo os palavrões: qualquer pessoa viva, independente da idade, pode assistir o Fantasia de Walt Disney, mas ninguém minimamente são permitiria que uma criança se aboletasse à frente da tevê para assistir Réquiem para um sonho.

O Mágico de Oz, filme infantil. Veja quanta diferença no tratamento dos conflitos no cinema para crianças. Oz é catequizante: tenta passar uma mensagem edificante (adestradora), ao contrário dos filmes ditos "infantis" que vemos hoje, como os produzidos pela Pixar e, nalguns casos, Dreamworks. Estes preferem contar uma história. Ao fim da sessão de cinema, sem o peso moral do ensinamento, a criança sentirá a história do seu jeito, com sua própria graça.

Que melhor maneira de fazer uma criança assumir um comportamento nobre senão pela inspiração?

N'O Mágico de Oz, a maior parte da história se passa em Oz. A terra distante é o subconsciente de Dorothy Gale, a protagonista, e para onde ela é levada depois de um desmaio causado por um tornado. Ele varre a fazenda onde ela mora, no Kansas, com o casal de tios Emily e Henry. Tanto no mundo mágico quanto na fazenda os adultos são cavilosamente superiores a ela: fingem entender mais da vida do que realmente entendem e sempre que podem brincam com a inteligência da garota.

Dorothy tenta fugir de casa para evitar que a senhorita Gulch não leve seu cachorrinho Totó para a morte nas mãos do xerife (Gulch implica com a menina, dizendo que o bicho a mordeu). No meio do caminho, ela encontra o professor Marvel, um espertalhão, ainda que de coração mole, que durante a jornada intrapsíquica dela é transfigurado no Mágico de Oz. Em ambas as dimensões, um enganador. A Dorothy só percebe isso num nível subconsciente, claro, ele é uma representação literal do trickster.

O Mágico de Oz é tido como uma alegoria para a conquista da autoconfiança. Bem, a menina é meio que um brinquedo tanto para o professor Marvel/Mágico de Oz quanto para Glinda, a Bruxa do Norte, sua aliada na terra distante; ela mata a Bruxa Malvada do Leste de forma involuntária e também por engano vence ― e mata ― a Bruxa Malvada do Oeste e tudo o que ela quer é voltar para casa. Autoconfiança?



(William Wallace Denslow © )

O filme termina com uma lição de moral. O Mágico de Oz engana Dorothy ― não foi a única vez durante toda a história ― e vai embora para o Kansas sozinho num balão que ele não sabe pilotar. Glinda aparece para socorrê-la. Fala que ela poderia ter voltado para casa a qualquer hora, coisa em que Dorothy não acredita, mas precisava ter aprendido isso sozinha. A garota reconhece que tudo o que ela precisava era sentir o próprio coração, mas continua sem saber como voltar para casa. Glinda a ensina. Diz a ela que feche os olhos, bata os calcanhares três vezes e repita uma prece ― e aí ela volta para casa, acorda do desmaio. Acordada, todos os adultos a tratam com condescendência. Seu tio chega a dizer, risonho, ao professor Marvel, que achava que a pobrezinha os deixaria. Ela tenta explicar a grande aventura, mas desconsideram a garota entre risinhos. Há semelhanças com o início do filme, quando todos a ignoram: ela tenta falar que a senhorita Gulch (em Oz, a Bruxa Malvada do Oeste) quer capturar o Totó, mas os tios não dão atenção, porque estão trabalhando. Ela fala o mesmo para Hunk (o Espantalho), que diz, em tom ríspido, que ela não tem cérebro, ao que ela responde dizendo que tem, sim, cérebro, e ele retruca, mais ríspido, perguntando por que ela não o usa. E depois sua tia Emily lhe diz que procure um lugar onde ela não arrume nenhuma confusão. É para este ambiente que Dorothy retorna, e o filme termina com a prece que Glinda lhe ensinou: "Não há melhor lugar que o nosso lar".

Apesar de tudo, não há melhor lugar que nossa casa. É a lição de moral. Explícita. Repetitiva. Qual uma imposição de adultos.

Dorothy tenta se integrar ao ambiente doméstico, à fazenda, ao Kansas. Ao mesmo tempo em que sonha com algum lugar além do arco-íris. A história é encerrada com um ensinamento. Os avanços que a jovem heroína consegue durante sua jornada interior são ou feito por outros (o Leão, o Espantalho e o Homem-de-Lata a libertam do cativeiro da Bruxa do Oeste); ou frutos do acaso (vencer a bruxa enquanto pretendia apagar o fogo ateado ao Espantalho); ou recebidos de graça (o reconhecimento dos Munchkins por tê-los libertado do jugo da Bruxa Malvada do Leste: lembre-se, o ciclone fez a casa dela cair sobre a bruxa). O amadurecimento dela é pouco, a única frustração com a qual ela lida ao deixar Oz, e mesmo assim indiretamente, é se separar dos recém-amigos. Ela é uma garota com medo que só quer voltar para casa. O Mágico de Oz, uma jornada da obediência, é catequizante.

Dorothy está aliviada porque voltou para casa, está longe de perigos. Dorothy Gale, domesticada.

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Publiquei primeiro no Digestivo Cultural.

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