8 de outubro de 2010

Hebreus e monstros, parte I

O Senhor lhe ordenou que voltasse ao Egito para libertar Seu povo da tirania do faraó. A ordem foi tão inesperada quanto a própria aparição do Senhor, manifesto numa incandescência não inflamável, que envolvia uma sarça sem consumi-la. Moisés, depois de ouvir perplexo a voz do Senhor, calçou as sandálias (fora ordenado que as retirasse, pisava em solo sagrado) e voltou para casa, suponho que ainda sentindo no espírito as reverberações das palavras EU serei contigo que emanava do mato candente, e contou à sua esposa, Zípora, num misto de entusiasmo e estupefação, o encontro inesperado que tivera enquanto cuidava do rebanho. Narrou o encontro, lhe disse a missão de que estava irresistivelmente incumbido. Ela, convencida por ele dos propósitos de Deus, disse que o acompanharia. E foram ao encontro do faraó, montados sobre o mesmo camelo.

Um desígnio imposto pelo Senhor já é, por si, uma coisa difícil de suportar. No caso de Moisés, era muito mais. Quando saiu de Midiã com o propósito de libertar os hebreus, ele imaginava que o faraó a quem teria de dar a notícia ("Olha, desculpa, mas vou levar todos os escravos hebreus comigo para a Terra Prometida. Sabe como é, foi Ele quem mandou.") fosse seu próprio pai, o homem que o criou, marido da mulher, sua mãe, que o tirou do rio Nilo, ainda bebê, de dentro de um cesto de junco, calafetado com betume e piche.

Moisés e Zípora são recebidos no palácio. A corte toda fica surpresa ao ver, depois de anos desaparecido, Moisés, outrora um príncipe desordeiro, vestido como um dueiro midianita. Surpreso também o próprio príncipe-pastor: o agora faraó é seu irmão Ramessés, que o recebe com ternos abraços. Este encontro traz felicidade imediata ao novo faraó. Ele sempre adorou o irmão baderneiro. Moisés sumira no deserto logo depois de matar, acidentalmente (ao contrário do que está em Êxodo 2.22), um capataz egípcio. O reaparecimento de Moisés quando o então faraó é Ramessés não poderia ser mais conveniente: o soberano poderia perdoar todo e qualquer crime, de quem quer que fosse. O que efetivamente fez, perdoou o crime do irmão.

Os planos de Deus e o destino dos israelitas, contudo, seriam obstáculos grandes demais, maiores que o amor fraterno que havia entre o jovem faraó e o enviado especial do Senhor.


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A história de Moisés e de como ele liderou a fuga dos hebreus do Egito está no Êxodo, segundo livro do Pentateuco, no Velho Testamento. A narrativa acima tem algumas licenças, mas não são minhas. São dos roteiristas do filme O Príncipe do Egito, animação de estreia da Dreamworks, e filme predileto da minha filha, hoje com três anos e oito meses. O curioso é que não somos cristãos nem judeus (nem mesmo batizados), sequer ensinamos a ela o Pai Nosso, nem qualquer coisa similar. Mas sempre que assistimos a este filme juntos, o que aconteceu praticamente todos os dias das férias, vejo os olhinhos dela brilharem quando Moisés firma o bordão na areia e as águas do Mar Vermelho se abrem "qual um muro à sua direita e à sua esquerda" (Êxodo 14.22).

Ela já foi adicta a outros filmes. O Mágico de Oz, Branca de Neve, A Princesa e o Sapo (este, pela trilha jazzística, muito adequado ao gosto musical da criança), Wall-E e, insolitamente, O Cavaleiro das Trevas. Mas com "a história do Moisés" é diferente, é mais intenso. Eu tenho de contar a história a ela na hora de dormir da mesma maneira como é narrada no filme, ela exige. Cada vez que lhe conto, fico impressionado com o fascínio que a jornada do Moisés tem para ela. É o herói da menina. Um herói sem espada nem escudo, sem cavalo branco nem armadura reluzente; herói de chinelos e barba, carregando um cajado, estimulado por uma força absoluta e que em primeiro lugar busca o diálogo. Um herói muito próximo da ingenuidade.

Mas O Príncipe do Egito não é um filme exatamente ingênuo. É um tanto cruel, na verdade. Essa é sua maior virtude. A maneira como a décima praga do Egito é encenada é exemplo disso. A décima praga é a morte dos primogênitos, "desde o primogênito de Faraó, que se assenta no seu trono, até ao primogênito da serva que está junto à mó, e todo o primogênito dos animais" (Êxodo 11.5). No filme, o filho do faraó é atingido pela praga. Quem lhe trouxe a morte, no contexto do filme, foi seu próprio tio Moisés. Você pode achar que é muito para uma criança lidar. Porém, mesmo eu, que sou contra catequizações religiosas, percebo que a riqueza espiritual e a técnica narrativa do filme suavizam o infanticídio divino (há mais cenas de infanticídio na fita, inclusive). Além do mais, dramaticamente, todas as desgraças que caem sobre o faraó o tornam um dos personagens mais trágicos que já vi no cinema "infantil", porque ele não é vilão, um vilão puro e simples, daquele tipo de antagonista cuja única função é criar obstáculos na vida do mocinho, como a Malévola, da Bela Adormecida; nem mesmo daquele outro tipo similar, que até tem motivos, mas que são mesquinhos, como a madrasta da Branca de Neve. Embora o filme seja de Moisés, o faraó Ramessés é reconhecido em suas razões. Herdeiro do trono, pressões e responsabilidades de mil anos sobre si, ama um irmão que está encarregado lhe destruir o império, tem de lutar contra uma força incomensurável. Seu filho morre, seu reino desmorona, seu irmão o trai, o deus dos hebreus o derrota. Trágico.

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A maneira como os conflitos infantis são tratados no cinema mudou. Evoluiu. O cinema evoluiu, inclusive esteticamente.

(Não faço coro com os pessimistas, o cinema está cada vez melhor. Sempre que algum cinéfilo lhe disser que não há mais filmes como antigamente, seja lá quando tenha sido este "antigamente", diga que poucos filmes nascem clássicos: a importância de um filme na história do cinema e na vida do espectador, por suas características básicas (a história contada e como foi narrada), se cristaliza com o tempo. Blade Runner foi um fracasso quando lançado. Iron Giant, já que falo de cinema infantil, ainda espera por ser redescoberto e virar cult.)

Há filmes classificados como "infantis" cujos conflitos, personagens, cenários e tramas são para todas as idades. Ratatouille. Filmes que não subestimam as crianças. O mais importante: filmes que não matam a própria riqueza estética porque tem de passar um ensinamento. Up ― Altas Aventuras. Apenas contam uma história.

Se há um filme perfeito, que respeita o espectador, criança ou adulto, que conta uma história cativante e que, preenchendo todos os requisitos da jornada arquetípica, narra como um pequeno herói adquire confiança, compreensão e maturidade, sem deixar de ser criança!, este filme é Onde vivem os monstros.

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Publiquei primeiro no Digestivo Cultural.

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