25 de outubro de 2010

Yes We Cain

A comunidade mexicana nos Estados Unidos festeja até agora. Os mexicanos nativos também. O consumo de “Corona com burritos” deve ter atingido níveis colossais. Nunca antes na história deste esporte houve um campeão que falasse espanhol.


Os mais experientes no mundo das artes marciais mistas previram a vitória de Cain Velásquez sobre Brock Lesnar. Eu não dei muita bola para as apostas dos veteranos, mas confesso que não fiz aposta alguma. A principal luta do UFC 121 (Anaheim, Califórnia), exibida aqui no Brasil na madrugada do dia 23 para 24 (sábado para domingo), foi a colisão entre os dois pesos-pesados mais poderosos no cartel do UFC. Os mais atléticos e velozes da categoria. E a luta, embora tenha sido curta, foi a melhor do evento. Explosiva e frenética.

Agora, que os ânimos já começam a baixar e a realidade a ganhar contornos, vem a pergunta: o que aconteceu sábado à noite?!

De forma oposta e assimétrica, Brock foi menos e Cain foi mais do que se esperava. Brock evoluía, Cain, idem. Traumatizado pelo evento conhecido como Mir Leg Lock, Brock crescia a partir de baixo, no combate de solo. Passou incólume pelo jiu jitsu de Frank Mir quando lutaram pela segunda vez, no UFC 100, e venceu o bombástico Shane Carwin por finalização, no UFC 116, com um katagatame. Inversamente, Cain evoluía de cima para baixo, no striking. A assimetria no aprendizado de ambos é que há a propensão natural de Velásquez para o kickboxing. A Lesnar não interessa aprender jit jitsu. O que ele quer é poder “se virar”, como seu instrutor, o brasileiro Rodrigo Comprido, já falou em entrevistas. O solo de Velásquez, quando de costas para o chão, continua um mistério. Acredito que permanecerá um mistério, para sempre, porque ele é bom demais em pé e em posição dominante no solo (por cima). Já Lesnar continuará seu aprendizado, em todas as áreas, com uma urgência que não existia antes. Ele era o campeão, gozava do relativo comodismo que o cinturão traz.

A chave dessa disputa de cinturão é a seguinte. Só havia um ponto de vantagem exclusiva para cada um. O poder de nocaute de Velásquez, o wrestling de Lesnar. Porque resistência cardiovascular e velocidade eles têm em comum. As equipes de ambos se dedicaram apenas àqueles exclusivismos na hora de desenhar a estratégia para o confronto. Daí Lesnar ter iniciado a luta como um touro bravo pra cima de Velásquez. Se ele conseguisse manter Velásquez de costas no chão e estabelecer controle, poderia repetir o número que desempenhou sobre Heath Herring em sua terceira luta profissional. Controle, pressão e marteladas pelo tempo que conseguisse – ou pelo tempo que Velásquez aguentasse. Não viesse o nocaute técnico, à maneira Fitch/Maynard ele manteria o cinturão consigo.

O head staff da American Kickboxing Academy, equipe de Cain Velásquez, havia deixado bem claro, nas semanas que antecederam à luta, o que faria quando chegasse a hora. Boxe, boxe, boxe. Uma ferida aberta no jogo de Lesnar, uma arma letal no de Velásquez. Eles sabiam que a possibilidade de finalizar Lesnar no chão era remotíssima. É preciso um faixa-preta como Frank Mir pra isso. Eles sabiam também que, embora Velásquez saiba wrestling, quedar Lesnar é virtualmente impossível. Claro, Lesnar foi quedado durante a luta, nós vimos, mas este desabamento foi causado por socos, que o atordoaram, e só depois complementado por um “desmoronamento”. Enfim, quedar Brock Lesnar como estratégia principal estava fora de questão. (Um parceiro deste blog realizou um experimento científico para comprovar que quedá-lo era impossível.)

Sem quedas, vieram os socos. Com eles, todos os problemas do mundo para Brock Lesnar. O então campeão parecia não saber decodificar os golpes do desafiante. Muito rápidos e cirúrgicos. Um striking afiadíssimo. O que Velásquez fez a Lesnar é uma versão aumentada do que José Aldo fez a Mike Brown na disputa do cinturão peso-pena do WEC: demonstração inconteste de superioridade. Poder, em sua forma mais crua. Brock Lesnar pareceu mais iniciante nesta luta do que no primeiro combate contra Frank Mir, no UFC 81. Cain Velásquez won by murder, um nocaute técnico insuperável na memória recente da categoria.

A derrota de Lesnar foi um choque para todos que assistiam a luta. Não importa que isso, dito agora, seja óbvio. O minuto final daquele confronto causou uma sensação que será difícil esquecer. Aquela massa albina cambaleante, aquele monstro, 130 quilos de músculos, completamente atordoado, sangrando como nunca antes sangrara. Foi como ver uma tourada. Lesnar era o touro ensangüentado pelas estocadas de Velásquez, um matador impiedoso, que sacrificou o animal de forma implacável, para o júbilo da torcida.

Cain Velásquez é o novo rei dos pesos-pesados. Este blog ainda não está totalmente recuperado da mudança no trono. Uma análise mais cuidadosa do assunto, quer dizer, uma análise do novo rei ficará para depois, quando a poeira baixar e o Rei Velásquez publicar seu primeiro édito, que poderá ou não ser a vitória sobre o já declarado desafiante, Junior Cigano.

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Nota: A mudança de endereço da coroa me fez pensar em duas questões de menor importância. Uma, a trilogia Brock Lesnar versus Frank Mir ficou mais próxima de seu final. Esta conclusão é virtualmente mais interessante que a próxima defesa de cinturão dos pesos-pesados. Na verdade, esta trilogia é a mais interessante no momento, mais interessante que Matt Hughes versus BJ Penn, inclusive por causa da animosidade que Mir sente por Lesnar. A outra é que os campeões do UFC são todos bons moços (exceto, talvez, por Anderson Silva, muito questionável). Isso pode fazer bem ao esporte, pode ajudar a conquistar novos admiradores. Porém, pode tirar o pouco do tesão dos compradores de pay-per-view, lá nos EUA, por não haver grandes lutas envolvendo baixarias verbais.

7 comentários:

Jock disse...

Confesso que não compreendo esse endeusamento do Lesnar pelos americanos. O cartel dele é medíocre, não?

Guilherme Montana disse...

O cara venceu Randy Couture e Frank Mir. E ressuscitou contra Shane Carwin. Um cara desse não pode ser medíocre. Cartel de 5 vitórias e 2 derrotas. Ganhou o título dos pesos-pesados na quarta luta profissional, título da maior organização de MMA do mundo. Os americanos deveriam "endeuzá-lo" mesmo, embora eu só o veja sendo vaiado nos eventos rs

Kadu Rampazzo disse...

Ainda vai demorar um pouco para a poeira baixar aqui em casa, viu?
É por isso que o MMA é tão fascinante.
Apesar de eu ser "Team Mir" assumido não imaginava ver o Lesnar perdendo daquela forma(sem nem estar em pé na anúncio oficial, detalhe).
Posso queimar a língua mais uma vez, mas não vejo o Cain como campeão por muito tempo. Talvez fosse o dia dele e um dia ruim pro Brock (prefiro acreditar nisso).
Pensando no Cigano, acho com boas defesas de queda ele pode levar no boxe.

Vinicius disse...

Nao entendo o publico americano,um publico todo dentro dos Estados Unidos torcendo por uma sujeito declaradamente mexicano contra um americano... eu brasileiro torcia pelo gigante... mas deve ser duro pra um cara dentro de seu pais ver todos torcendo por um cara de fora... fala sérioo... bora gigante detona esse mexicano igual fez com Mir na segunda vez

Diego Jock disse...

Ou seja: praticamente uma égua paraguaia... Vamos ver como estará Lesnar daqui a cinco anos.
A proposito, como o Velasquez conseguiu fazer aquele rasgo na cara do Lesnar??

Alexandre Matos disse...

Pois é, o bagulho foi doido mesmo. Por mais que eu já pensasse que o Cain venceria mesmo, do jeito que o negócio rolou, foi inesperado.

O Lesnar tá longe de ser farsa ou coisa do genero. E o cartel dele não quer dizer muito. Se olharmos, o cara fez 7 lutas, 4 delas valendo cinturão do UFC. Isso realmente não é pouca merda. Além disso, olha o nível dos caras que ele enfrentou. O Anderson, campeão tão citado como o melhor de todos, já venceu 12 oponentes no UFC, nenhum deles no nível de um Cain Velasquez. E, tirando o Sonnen, ninguém do nível do Shane, Mir ou Couture.

A vitória do Cain foi em cima de um cara bom demais, muito difícil de ser batido, por mais defeitos que o jogo do gigante tenha. Isso torna a conquista ainda mais especial.

Guilherme Montana disse...

Assino embaixo, Alexandre. Ótimos argumentos.