26 de novembro de 2010

170 libras

Georges St. Pierre, o atleta mais carismático das artes marciais mistas e um dos melhores do planeta, ao segundo round de sua quinta defesa de cinturão, no UFC 124, 11 de dezembro de 2010, é atingido por um cruzado de direita no queixo, desferido pelo desafiante, o anti-GSP Josh Koscheck, que leva o campeão do mundo a nocaute.

Isto não é um exercício de futurologia. Foi um sonho que tive há alguns dias. Contrariando todas as expectativas, inclusive as minhas de torcedor confesso de GSP, Koscheck leva o cinturão para casa, lançando ao fundo do poço da tristeza milhões de fãs mundo afora – viu o quão sem graça Morfeu pode ser?

Para mim, GSP vai fazer o de sempre, que é: controle. Controlar distância, aplicar quedas, bater como uma moça. O que sair deste roteiro, a favor de GSP, será uma finalização. GSP vence, seja por decisão unânime, seja por jiu-jitsu.

Eu sou torcedor e só como tal assisto às lutas de GSP. A do UFC 124 será uma vitória a mais para comemorar. Morfeu, no entanto, conseguiu me fazer ver a categoria dos meio-médios de um ângulo um pouco diferente.

Veja bem, tentando ser menos torcedor, a gente pode dizer, tranquilamente, que a categoria das 170 libras, hoje, é a mais entediante do UFC. Até ontem, esse posto era dividido com a das 185 libras, peso médio, onde reina Anderson Silva. Os médios, se não mais estão entediantes, pelo menos vivem um hiato, por causa disso: pela primeira vez no UFC, o soberano dos médios vai enfrentar alguém que se lhe assemelhe em nível, Vítor Belfort, e ambos vêm de vitória e ambos se recuperam de contusões graves – a coisa está bem nivelada para o cinturão dos médios. Não promete ser uma categoria monótona, pelo menos até a próxima luta.

A dança que os cinturões dos pesados e meio-pesados têm feito deixa claro que, entre os grandões, quem não é King-Kong, é Moby Dick. São todos potenciais campeões, sobretudo nos meio-pesados, cinturão mais rodado que (complete a analogia como achar melhor).

Já o momento que vive a categoria dos leves é o mais peculiar. Frankie Edgar é um cordeirinho cercado por lobos canibais cada vez mais famintos. Charles Oliveira, George Sotiropoulos, Evan Dunham, Nate Diaz; os promissores Joe Lauzon, Dennis Siver, Rafael dos Anjos; os futuros Ben Henderson, Donald Cerrone, Anthony Pettis; e, como sonha Dana White, o possível José Aldo. Torci pelo Edgar nas duas vezes em que lutou contra BJ Penn. Os estilos dele e do BJ não casavam. Era o momento do Edgar. Mas o mundo ao redor dele mudou um bocado. Edgar já não pode sair sozinho à noite, sobretudo se estiver usando um cinturão de ouro. O bairro dele está perigoso demais.

Eu não posso dizer o mesmo do bairro do GSP. Ele venceu todos os relevantes de uma categoria que promove a desafiantes lutadores como Dan Hardy. Hardy foi disputar o cinturão tendo quatro vitórias no UFC. Bonito. Mas veja: das quatro, uma por nocaute; as outras três, decisões, das quais duas foram divididas. Hardy é um ótimo trocador, mas apenas isso. Uma vitória óbvia para GSP. E Hardy não é o único neste perfil a pleitear a vaga de desafiante. Tivesse Paul Daley fulminado Koscheck com seu único golpe, o tal gancho de esquerda, GSP faria a mesmíssima luta duas vezes seguidas.

Josh Koscheck, o desafiante do momento, não é um estranho a GSP. Já lutaram antes, no longínquo UFC 74. Foi uma luta interessante. Se o UFC criasse uma espécie de manual audiovisual de MMA, o capítulo wrestling seria perfeitamente ilustrado com aquela luta. Um wrestling enxadrístico demonstrado por ambos, fantástico. GSP venceu, claro. (Para o mesmo capítulo fictício, lembro também do primeiro round de Randy Couture versus Mike Van Arsdale, no UFC 54.)

Depois do primeiro encontro entre GSP e Koscheck, aquele venceu o lendário Matt Hughes, a zebra algoz Matt Serra, o recordista Jon Fitch, o prodígio BJ Penn, (mais os limitados Thiago Alves e Dan Hardy); enquanto este enfrentava o resumido Dustin Hazelett, o esforçado Cris Lytle, Thiago Alves (que o venceu unanimemente), o sem-graça Yoshiyuki Yoshida, o estreante Paulo Thiago (que o nocauteou), o decrépito Frank Trigg, o promissor Anthony Johnson (cujos olhos encontraram os dedos de Koscheck mais de uma vez e de forma desleal) e o “Senhor Gancho de Esquerda”, Paul Daley.

Esse tanto de nome que citei era só para você comparar o nível dos adversários de um com os do outro. Compare. Impressionante, não é? Você pode até argumentar que a discrepância é porque GSP, o campeão, lutava defendendo seu título e que o que Koscheck pretendia era chegar ao patamar de desafiante. É um argumento correto. Mas GSP passou tão bem por cima dos meio-médios que acabou defendendo o título contra Alves e Hardy. Acabaram as opções. Prova disso é Koscheck ser o novo desafiante.

O que é impressionante é imaginar GSP lutando contra os demais meio-médios cotados como desafiantes. GSP é um tubarão, nadando com focas desavisadas e predadores domesticados. Um governo assim, tão sem oposição, só o de José Aldo entre os penas.

Jake Shields chegou ao UFC prometendo ser a grande oposição. Até o vermos contra Martin Kampmann. Shields venceu, mas não garantiu o posto de desafiante. Tudo na mesma.

Havia outros representantes da esperança. Esperança de que GSP lutasse com alguém que representasse perigo. John Hathaway era um nome desses. Permaneceu invicto por 14 lutas, a décima-quarta sendo contra Diego Sanchez. Contudo, a uma luta de ser classificado como desafiante, foi superado por Mike Pyle, que é o tipo de cara para quem ninguém deve perder se quiser ser campeão. No máximo, Pyle vai ser gatekeeper.

Já Diego Sanchez, outrora um nome importante, está numa espécie de limbo, para onde Thiago Alves também foi mandado e de onde Paulo Thiago terá de sair o mais rápido possível, e onde Martin Kampmann, possivelmente, morará por um tempo, tendo por vizinhos o gente boa Cris Lytle e o fanfarrão Matt Serra, para citar alguns com emprego garantido na Zuffa.

Quem está perto do topo da categoria de GSP são os velhos nomes de sempre. Eu e milhares de cidadãos de Illinois acreditávamos que se Hughes passasse por Penn, teria lugar garantido como desafiante. No mínimo, pelas lutas que vinha fazendo, Hughes podia ser considerado relevante entre os meio-médios. Okay, a luta contra Renzo Gracie foi um presente que ele ganhou de Dana White. Hughes poderia ter acabado a luta antes se não tivesse respeitado tanto o Gracie Jiu-Jitsu. Mas a vitória sobre Ricardo Almeida provou que Hughes estava bem vivo. Então começaram as especulações. Eu mesmo compraria algumas ações da Hughes Co., mas não falaria para ninguém.

Ainda bem que não comprei, porque houve um crash chamado BJ Penn que frustrou minhas expectativas. O mesmo BJ Penn contra quem GSP lutou duas vezes, uma delas valendo cinturão, na qual Penn apanhou mais que... Apanhou muito. Agora, BJ volta a ser importante como meio-médio, depois da vitória sobre Hughes, um nocaute crudelíssimo. BJ lutará contra Jon Fitch, o eterno desafiante. É um confronto interessante, muito interessante. Quero muito ver. Mas – Cristo! – GSP tratorizou a ambos.

Hughes, Penn, Fitch, Koscheck. Os nomes derrotados de sempre. Shields, Kampmann, Pyle. Não os vejo, hoje, ameaçando o reinado de GSP.

Sobrou quem? Sobraram dois nomes. Um deles é pura fanfarra minha. É Dennis Hallman. Sério, eu queria ver GSP versus Hallman. O bom-mocismo de GSP precisa da indiferença de alguém como Hallman. Pena que este confronto só seja possível na minha imaginação – e quando o visualizo, Hallman está fantasiado de Robin Phoenix.

O outro nome é Carlos Condit. Neste eu aposto. Mas não agora, claro.

6 comentários:

Kadu Rampazzo disse...

Acho difícil alguém tirar a cinta do GSP com os atuais atletas da categoria e isso pode daixar tudo bem chato e desestimulante inclusive para ele próprio. E será que vai rolar a tão esperada luta entre Anderson Silva e GSP? Espero que sim. Se o Anderson ganhar do vitor e GPS ganhar do Josh é o único caminho interessante.

Guilherme Montana disse...

Também acho, Rampazzo. GSP versus Silva seria magnífico. O problema é que a pedra no meio do caminho de Silva é Belfort. Não aposto meu dinheirinho nesta luta.

Como a dupla Matos/Prates falou no último It's Time, o futuro contender virá de Fitch versus Penn. Esta é uma luta que vale a pena (embora saibamos que GSP permanecerá no trono).

Alexandre Matos disse...

Véio, se o Kos ganhar do GSP, vou aí em Brasília te dar um cascudo hahahaha

Essa sua discussão é interessante. Se o GSP sobe de categoria, ele embola os médios com o Anderson e o Vitor e ainda deixaria os meio-médios extremamente competitiva, com um monte de gente capaz de fazer boas lutas. Ia nivelar um pouco por baixo a 170, mas esportivamente seria muito bom.

Eu já tava querendo escrever um artigo sobre isso, vou usar seu gancho e colocar um link pra cá.

ps: Irada a lembrança de Couture x Van Arsdale. Era a nata da luta olímpica na época, só Hall da Fama do wrestling americano. Eles treinavam juntos numa espécie de Black House do Wrestling nos EUA, junto com o Matt Lindland e outros do mesmo naipe.

Alexandre Matos disse...

Gui, um monte de lutas valem a pena na 170, se você tirar o GSP do cenário. Tem muita gente boa de todos os estilos. Dá um saque:

- Wrestling: Fitch, Koscheck, Hughes, Jake Ellenberger
- JJ: Cachorrão, Paulo Thiago
- Strikers: Pitbull, Anthony Johnson, Dan Hardy, Martin Kampmann
- All-around: Jake Shields, BJ Penn, Diego Sanches, John Hathaway, Carlos Condit

O cinturão certamente não pararia nas mãos de ninguém neste cenário.

Guilherme Montana disse...

Matos, seus dois comentários certeiros me fizeram chegar a uma conclusão funesta: o único problema dos meio-médios é GSP. Matem-no Hhahahaha

Kadu Rampazzo disse...

Brother, uma coisa que sempre fica martelando na minha cabeça é que o Anderson é 10cm mais alto que o GSP e 4cm mais alto que o Shogun.
o GSP é o garoto de ouro do UFC (ótimo lutador e ótimo como personalidade) e o Dana não entragaria o lindo rostinho canadense dele pro Spider machucar.
O mais natural seria o Anderson subir de peso, mas primeiro ele disse que não lutaria com o Lyoto e agora que é pequeno pra categoria. Por conta dessas atitudes e desse mememe que Anderson faz dentro do octógono, por mais tempo que ele fique como campeão, sempre vai existir quem duvide da capacidade dele. Vou torcer pro Belfort e vai ser animal ele ter baixado o peso pra fazer frente ao Anderson.