1 de novembro de 2010

Partido dos Trabalhadores, tricampeão brasileiro

No dia 1 de janeiro de 2003, quando o migrante nordestino recebia a faixa presidencial do sociólogo da Sorbonne, a Folha de São Paulo estampava a seguinte manchete: “Lula tome posse hoje; 76% esperam bom desempenho”.

A petista Dilma Rousseff é a primeira mulher a presidir a República Federativa do Brasil. Finalmente podemos ler (e escrever) esta sentença, aliviados pelo fim de mais uma eleição no nosso recente período democrático, eleição que foi a mais retrógrada e mais tecnológica, a mais emocionante e a mais vulgar, a mais aguerrida e a mais rancorosa que conhecemos. Nós escolhemos a mulher que, assim como nossos dois últimos presidentes, lutou (ela, literalmente) para termos esse direito. É História sendo feita, mais uma vitória inconteste da democracia, cuja primeira batalha vencida fora, contra preconceitos, fazer um torneiro mecânico nordestino trabalhar no Palácio do Planalto para tirar milhões de brasileiros da miséria.

Esta eleição não seria tão visceral se resolvida no primeiro turno. A segunda rodada foi fundamental. Fundamental como catarse, como provocadora de ressaca político-eleitoral. A partir de hoje, 1 de novembro, todos os que participaram dela terão muito trabalho a fazer quando, solitários, pensarem em tudo o que sentiram, fizeram e, ouso acrescentar, pensaram desde que a corrida presidencial fora iniciada. O anônimo tuiteiro, o militante no mundo real, os candidatos (perdedores e vencedores), os jornalistas (petistas e tucanos), os marqueteiros e coordenadores de campanha. Todos precisam repensar a vida. (Perdão, leitor, eu tinha de escrever um parágrafo utópico.) Este processo eleitoral foi uma temporada no inferno para todos nós.

Saímos deste inferno com o fim da disputa, e com seu resultado. A vencedora representa a continuidade dos avanços do país conquistados na Era Lula. Conquistas estas alicerçadas em algumas do presidente Fernando Henrique Cardoso, principalmente as da área econômica. A interdependência dos sucessos de uma e outra era presidencial é um balaio de gato de onde se pode extrair exegeses altamente polarizáveis, mesmo que os números expressivos (as coisas que fizeram a diferença para maioria da população) sejam vistos com mais frequência nas estatísticas do Luiz Inácio. No dia 1 de janeiro de 2003, quando o migrante nordestino recebia a faixa presidencial do sociólogo da Sorbonne, a Folha de São Paulo estampava a seguinte manchete: “Lula tome posse hoje; 76% esperam bom desempenho”. Lula conseguiu. Alcançou a marca inédita de 83% de aprovação e, agora, ele precisa se acostumar a virar passado – o que lhe será difícil, porque o Brasil presente, que ele criou, é o que a maioria quer.

Foi a este Brasil que os candidatos se agarraram. Era só a ele que eles precisavam se agarrar, na verdade. A ponto de não terem planos de governo: Dilma Rousseff só apresentou algo semelhante a poucos dias do segundo turno; José Serra, nunca. Eles não precisavam. Um país sem dívida, incólume à crise econômica que ainda assola cachorros grandes, jorrando petróleo por todos os poros, multiplicando empregos, combatendo o desmatamento amazônico e o trabalho escravo com índices favoráveis – enfim, para fins práticos, isto é, vencer a eleição, ninguém precisava apresentar planos de governo. Qualquer plano antagônico ao que o governo faz hoje seria mal-vindo. Isso é tão verdadeiro que fez a campanha do candidato José Serra tentar associar a imagem do seu candidato à do presidente petista. Era impossível vencer a eleição presidencial de 2010 dançando ao som de outra música que não a do lulismo. Impossível para o PSDB manter o discurso privatizante. Era impossível aos tucanos serem tucanos.

É neste ponto, na inamovibilidade do poder lulista, que a campanha da oposição foi derrotada. Como faria o PSDB para propor um futuro melhor para população se a convidasse a trilhar um caminho diferente do que ela tem feito há oito anos? Eles não eram o partido escolhido, o PT era, o PT lulo-rousseffista sabia o caminho. Assim a candidata petista decolava nas pesquisas, alimentando em todos a ilusão da vitória fácil ainda no primeiro turno.

A vitória imediata não veio, por dois fatores combinados. Denúncias envolvendo terceiros ligados à petista causaram em eleitores (de esquerda, na maioria) a simpatia por Marina Silva, que teve a expressiva marca de vinte milhões de votos, forçando o segundo turno. A função da surpresa verde nesta eleição foi causar a polarização entre azuis e vermelhos. Os verdes lucraram com isso: são reservas éticas para os próximos pleitos, em oposição ao espírito carniceiro dos “times” finalistas. Só a isso se resumem os verdes, hoje, por terem se declarado independentes.

Veio o segundo turno. Com ele, mais denúncias. Desta vez envolvendo terceiros ligados ao candidato tucano (um assunto que já havia circulado pela mídia meses antes). Aí a oposição perdeu seus trunfos. A simetria anulava o jogo de acusações, agora recíprocas; o PSDB perdia seu momentum. Tudo voltou ponto zero. Novamente, o comitê de campanha tucano iniciou sua contagem regressiva para derrota inevitável.

Até agora só citei tópicos políticos. Outros fatores colaboraram para que esta eleição fosse tão peçonhenta.

A falta de propostas tornou a disputa uma guerra pelo poder, simplesmente. Não havia embate de planos para o Brasil. Os elementos do binômio governo-oposição aparentavam querer a mesma coisa: a continuidade. Como criar contraste a partir disso, sobretudo quando escândalos de corrupção foram promovidos por ambos os lados, “é uma pergunta muito importante”. Nesse espaço vazio caíram o Pai, o Filho e o Espírito Santo. A Trindade indissolúvel atacou em várias frentes e por meio dos mais variados agentes. A algaravia foi tamanha que até o Papa teve de falar alguma coisa. Os evangélicos não deixaram por menos. A celeuma foi tão estúpida que a TFP se manifestou. A TFP!

Nem vou mencionar a ansiedade que Copa do Mundo e Olimpíadas causam nos corações gananciosos do mercado. Estes eventos futuros contribuíram absurdamente para corrida pelo poder ter sido tão ferrenha.

Os candidatos não estavam preparados para este tipo de eleição. A eleição Big Brother: o poder dos militantes de escavar e/ou produzir informações sobre os candidatos, para o bem e para o mal, em forma de vídeos, textos, gráficos e afins e as veicular numa velocidade incontrolável internet afora. Ninguém sabia como operar neste universo de redes sociais, nem os marqueteiros. O torcedor furioso (eleitor) faz mais do que soprar vuvuzelas. Por fim, além dos candidatos, a própria imprensa estava despreparada. A edição de vídeo e áudio, hoje em dia, está ao alcance de qualquer um. Ficou mais fácil saber quando há chifre em cabeça de cavalo.

Poucas coisas diferenciam os partidos finalistas. Essa similaridade vem das metanoias petistas. O PT passou por transformações ao longo dos anos, sendo a mais sintomática, uma das primeiras, a coligação com o PL e a escolha de José Alencar como vice de Lula para o pleito de 2002. A adoção da política econômica herdada de FHC foi outra. Agora é a hora das metanoias tucanas. Já é a terceira eleição presidencial que perdem. Seus rostos novos não são exatamente novos. Esse já foi o partido de Franco Montoro e Mário Covas, Pedro Malan e FHC. Hoje... bem, hoje o elenco é diferente.

Só há uma coisa que permanece inconfundível entre azuis e vermelhos. Esta única coisa fez toda a diferença. O PT fez mais. Mais e para mais gente. No fim das contas, para o cidadão, não importa a paternidade de programas socias. Importa é que funcionem. O tal cidadão comum está disposto a vencer preconceitos. Tão disposto que elegeu o Lula e agora a Dilma. Não importa quem e como é o presidente. Se trilingue ou se tem sotaque nordestino. Importa que tenha atitude. Como Lula. Que tem tanta atitude que fez nascer no brasileiro uma nova preocupação: a de que o presidente goste de ser brasileiro, tenha orgulho disso e queira transformar e enriquecer o país, em todos os sentidos. Apesar de todo o desgaste destas eleições, avançamos. Pela terceira vez, o brasileiro vota no time que joga para todos.

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