15 de janeiro de 2011

Frankie Edgar: campeão (parte 2 de 2)


O UFC 112 foi um evento nefasto e inesquecível. O primeiro evento no Oriente Médio, mercado onde o UFC tem tudo para ser muito popular, inclusive sócios importantes. A primeira edição ao ar livre, o que, naquele dia, trouxe um pouco do glamour que a profissionalização do esporte, inevitavelmente, elimina. A vitória de Matt Hughes sobre Renzo Gracie foi o primeiro nocaute de Hughes lutando em pé. Anderson Silva, campeão dos médios, quebrou o recorde de defesas de cinturão com um desempenho tão constrangedor que todo brasileiro fã de artes marciais mistas gostaria de esquecer. E BJ Penn, um dos melhores peso-por-peso do planeta, perdeu o cinturão dos leves para Frankie Edgar.

A conquista do cinturão, contudo, não consagrou Frankie Edgar. Ele havia acabado de derrotar uma lenda do esporte, mas quase ninguém estava disposto a engolir o novo campeão, senão os juízes, que decidiram unanimemente a seu favor. Então veio a revanche e ambos fizeram a mesmíssima luta. Edgar defendeu seu título repetindo a estratégia do primeiro combate. Edgar, nas duas ocasiões, conseguiu o que apenas St-Pierre conseguira: quedar BJ Penn (embora só GSP tenha conseguido mantê-lo no chão). Ele também ditou o ritmo da luta de maneira que BJ mal o enxergava, demonstrando ter refinado seu já acelerado jogo de pernas. Ele atacava BJ em blitzes e de imediato restabelecia a distância: dessa forma ele impunha ao adversário que lutasse sua luta e permanecia com o monopólio da agressividade, item importante na avaliação dos juízes. Até no boxe Edgar foi melhor, uma área historicamente forte no currículo de BJ.

Edgar levou a revanche, indiscutivelmente. Mas, assim como na primeira luta, em fóruns, blogs, sites, mesas de bar, salas de tevê e, inclusive, no Ponto Final do Canal Combate, o que se ouvia era que aquele BJ não era o BJ Penn que todos conheciam. Que seu desempenho foi aquém do esperado. Que ele parecia estar noutro lugar. Que ele, nas duas ocasiões, estava desmotivado. Que ele havia perdido o interesse em lutar naquela categoria. Ou seja, todas as opiniões sobre como BJ Penn se comportou desmereceram a conquista de Edgar, e este, que constantemente vence seus oponentes com muito sacrifício, foi desacreditado quando venceu de forma clara. A impressão é a de que Frankie Edgar ainda não era o campeão. E esta impressão, infelizmente para Edgar, foi reforçada há duas semanas, por conta do UFC 125: Resolution.

A última luta do Resolution, que aconteceu em Las Vegas, ao dia 1 de janeiro de 2011, foi a disputa do título dos pesos-leves entre Frankie Edgar e Gray Maynard, que iniciaram o, digamos, ano marcial com uma luta histórica.

Gray Maynard conquistou seu direito à disputa de cinturão ao vencer um habitual desafiante, o mezzo hipster, mezzo mauricinho, Kenny Florian, que era o favorito. Florian, como não era previsto, foi derrotado e cedeu a vez a Maynard, que vinha de duas vitórias por decisão parcial. Antes destas duas parciais, Maynard havia vencido quatro confrontos, todos por decisão unânime. Além do excessivo número de decisões, Maynard é um dos maiores expoentes da filosofia Jon Fitch: pôr o adversário de costas no chão e “administrar” a luta. Por mais profissional que Maynard seja, a faceta espetáculo do esporte o leva a ser cognominado de “enfadonho”. Cognome apropriado, pois estamos falando de artistas marciais. (Fernanda Prates e Alexandre Matos, do MMA Brasil, têm opiniões mais esportivas sobre a filosofia Fitch/Maynard.) Contribui à insipidez de Maynard ele não fazer justiça, pelo menos frente às câmeras, ao apelido que tem, The Bully. Ele não personifica nem o bad boy nem o provocador, tipos que ou causem antipatia ou atraiam atenção, a exemplo dos irmãos Diaz, do fanfarrão Chael Sonnen ou da versão vintage de Wanderlei Silva. (É curioso que, neste ponto, Edgar e Maynard sejam opostos e complementares: Edgar exala bom-mocismo, mas não tem carisma algum.)

De Gray Maynard esperava-se pouca coisa, incluindo uma segunda vitória sobre Frankie Edgar. Mas não se esperava que fizesse uma luta excitante. E de Frankie Edgar se esperava muita coisa, inclusive que vingasse sua, até agora, única derrota (não havia favoritismo claro nas apostas). E, ao contrário do desafiante, ninguém imaginaria o campeão numa luta monótona. Pois foi a partir destas expectativas que nasceu uma luta histórica, na qual, mais uma vez, Frankie Edgar superou adversidades, desta vez aparentemente insuperáveis, e Gray Maynard fez tudo o que se esperava dele.

Maynard, ao menos fisicamente, é superior a Edgar. Ele é mais volumoso, mais alto, mais forte, mais resistente, mais pesado. Edgar, que corta pouco peso para, no dia da pesagem, atingir os 70 quilos da categoria, poderia lutar entre os penas, 66 quilos, ou mesmo entre os galos, 61 quilos. Embora Maynard tenha só um nocaute no UFC, ele tem mãos mais pesadas que Edgar. Embora Edgar não tenha sofrido nenhum nocaute em sua carreira, Maynard já demonstrou ter um queixo mais resistente, que já passou pelas mãos de Dennis Siver, Roger Huerta, Nate Diaz e Kenny Florian. Tecnicamente, eles guardam muita semelhança: wrestlers de jiu-jitsu pouco relevante e boxe razoável, sendo os pés velozes uma vantagem para Edgar.

Contudo, o que Edgar tem enfrentado desde sempre são adversários maiores em físico – e superiores em fundamentos específicos, como França no jiu-jitsu e BJ no boxe, ao passo que Edgar tem, como diria Luciano Andrade, do Canal Combate, “um bom conjunto”.

A principal virtude de Frankie Edgar, no entanto, não é seu “bom conjunto”, nem seu gabaritado wrestling, nem, muito menos, sua faixa-roxa de jit-jitsu, que, ensinado por Ricardo Almeida, vem de linhagem nobre. Sua maior qualidade é ter a mente obstinada dos vencedores. Edgar tem feito sempre mais do que se imagina possível, tanto por seu físico quanto por sua técnica, como o Resolution deixou claro. Pela maneira como o primeiro assalto transcorreu, sua derrota era iminente; mas ele reagiu e, mesmo avariado pelo festival de knock-downs recebidos, seguiu até o fim do quinto assalto, para extrair, mais uma vez sofrivelmente e de uma maneira que este blog não consegue descrever, um empate salvador, que lhe garantiu a posse temporária do cinturão.

Há o risco de se chamar Frankie Edgar de “campeão natimorto”. Suas vitórias sobre BJ Penn foram desmerecidas. Seu confronto com Gray Maynard, seu rival e algoz, quase lhe toma o cinturão. Sua divisão, com a chegado ao UFC dos quadros do WEC e a ascensão de outros leves como Melvin Guillard, Charles Oliveira e Georges Sotiropoulos, está cada vez mais perigosa. E ainda há a revanche, possivelmente em maio, contra Maynard, a pedra no seu caminho. Nenhum vento sopra a seu favor. Mas esta é a história de Frankie Edgar. É possível que ele surpreenda, mais uma vez.

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Imagem via Flickr.

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