15 de janeiro de 2011

Frankie Edgar: desafiante (parte 1 de 2)


O previsto era que BJ Penn pusesse um ponto final na categoria dos pesos-leves, na edição 112 do UFC, de abril de 2010, em Abu Dhabi, vencendo sem grandes dificuldades o então desafiante, o elétrico Frankie Edgar. BJ, desde seu retorno aos leves em 2007, vinha demonstrando superioridade sobre desafiantes, pelo menos virtualmente, mais perigosos que Edgar. BJ era o favorito indiscutível. Como campeão, ele faria uma luta que, no linguajar desalmado e pouco esportivo do mercado, seria um treino de luxo, uma luta-demonstração para os árabes da Flash Entertainment, novos sócios da Zuffa (detentora do UFC), que montaram o evento no deserto, a primeira edição ao ar livre, realizada no Ferrari World, onde também acontece o grande prêmio de Fórmula 1. Aquele evento foi batizado de UFC 112: Invincible.

“Invencível” era como BJ era tratado por nós, fãs e comentaristas do esporte. A seqüência de vitórias que o campeão levou para o deserto era quase uma miragem, com o perdão da metáfora. BJ havia vencido os adversários anteriores categoricamente. Nenhum confronto foi para decisão dos juízes. A primeira vítima, Jens Pullver, antigo campeão dos leves. A segunda, Joe Stevenson, pelo título. Um mata-leão para cada, e Stevenson, acotovelado, abrilhantou o espetáculo com uma caudalosa hemorragia. O terceiro a cair foi Sean Sherk, via nocaute técnico. O quarto, Kenny Florian, um exímio jiu-jitsoka, foi finalizado com um mata-leão. E o quinto, Diego Sanchez, um striker agressivo, foi trucidado por cinco assaltos, até o nocaute técnico ser declarado, por conta de um belo corte na testa, advindo de uma canelada. Nem a derrota acachapante que BJ sofreu de Georges St-Pierre, uma tentativa frustrada de reobter o cinturão dos meio-médios, tirou o brilho que vinha demonstrando em sua divisão de origem.

Àquela época, primeiro semestre de 2010, BJ não tinha mais adversários. Os então minimamente qualificados como desafiantes eram Frankie Edgar e o invicto Gray Maynard. Estar invicto, hoje em dia, neste esporte, dentro do UFC, é prova de profissionalismo (ainda hoje, 15 de janeiro de 2011, ele permanece invicto). Mas Maynard causa pouco entusiasmo nos fãs. Abu Dhabi e BJ Penn precisavam de outro tipo de desafiante, e Frankie Edgar, que desde sua estreia no UFC tem impressionado, quase que exclusivamente, pelo entusiasmo que provoca em quem assiste às suas lutas, era a escolha certa.

Sua estreia foi contra Tyson Griffin, em 2007, e por ela recebeu o prêmio* de luta da noite pela sua performance aguerrida. O último minuto de luta, quando Griffin havia encaixado uma kneebar justíssima, foi angustiante. Edgar saiu mancando do Octógono por ter resistido o máximo que pode, ou, talvez, mais do que podia. É emblemática a imagem de Edgar sofrendo a chave-de-joelho, olhando o cronômetro no telão, contando somente com a passagem do tempo para vencer a luta enquanto socava, inutilmente, as coxas do Griffin. A decisão foi unânime a seu favor; a luta, no entanto, esteve longe de ser um passeio. É uma peculiaridade de suas lutas. As apresentações dele, da estreia à disputa em Abu Dhabi, tiveram em comum sua perfomance heróica frente a adversários difíceis.

Até agora, o único nocaute, ainda que técnico, aplicado por Edgar no UFC foi em Mark Bocek, recentemente autoproclamado “melhor [praticante de] jiu-jitsu” entre os leves. O combate durou um só assalto, mas o nocaute veio bem depois de Edgar sofrer um knock-down aplicado por Bocek, que, naquela luta, sofreria a primeira derrota de sua carreira. Em seguida, Edgar lutou contra o escolado Spencer Fisher, talvez sua vitória menos problemática, que o qualificou para enfrentar seu karma, Gray Maynard. Edgar perdeu a luta. Mas se recuperou nas três seguintes. Venceu Hermes França, mais uma vez recebendo o bônus de luta da noite. A decisão unânime a seu favor esconde o fato de que ele foi ameaçado um punhado de vezes pelo jiu-jitsu de França. A mesma ameaça constante, embora de maneira diversa, aconteceu na luta seguinte, contra Sean Sherk, a quem Edgar venceu também por decisão unânime: havia o risco de ser nocauteado a cada vez que Sherk lançava um cruzado. A estratégia invariável de Sherk, embora apresentasse perigo, foi sobrepujada pela velocidade de Edgar.

Entretanto, mais perigoso que Sherk e França foi Matt Veach. Edgar passou por um primeiro assalto dificílimo contra Veach, àquela época invicto depois de onze lutas. Um mata-leão deu a vitória a Edgar, no segundo assalto, quando Veach já demonstrava cansaço pelas estripulias de greco-romana do assalto anterior, que, fossem somadas a um ground n’ pound mais efetivo, poderiam ter lhe dado a vitória. Tendo recebido o prêmio de luta da noite pela terceira vez, Edgar se qualificou como desafiante ao cinturão de BJ Penn.

As vitórias que o fizeram chegar a esee ponto têm isso em comum: ele não era favorito em nenhuma daquelas lutas (exceto por Veach) e, na maioria delas, ele venceu passando por sufoco. Essas qualidades, contudo, foram tão determinantes para ele ser o desafiante ideal para BJ, um dos melhores na história do esporte, quanto o fato pouco honroso de ele ser um dos últimos que restaram na categoria. Em Abu Dhabi, Edgar era duplamente azarão: o campeão seria favorito contra quem quer que fosse, principalmente em relação a Edgar, a “sobra” da divisão.

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Imagem via Flickr.

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