13 de fevereiro de 2011

Navegar

Eu li um texto muito curioso no blog do Augusto Nunes, escrito por Celso Arnaldo Araújo. É sobre os hábitos de leitura da presidenta Dilma Rousseff. O texto comenta um perfil que Fernando Rodrigues, da Folha, fez da presidenta eleita, publicado no dia 26 de dezembro de 2010. O post no blog do Augusto Nunes é do dia 5 de fevereiro de 2011.

O tom do texto é o da Veja. Não é sobre a perspectiva da revista que vou comentar. Mas sobre uma incongruência básica, que, não tivesse ocorrido, traria mais credibilidade ao texto.

No sexto parágrafo de Celso Arnaldo Araújo, entre parênteses, o autor diz que a então candidata Dilma Rousseff, "numa entrevista célebre antes da eleição, surrupiou o célebre 'navegar é preciso', atribuindo-o a Ulysses Guimarães", e não a Fernando Pessoa, a quem tradicionalmente se atribui aquelas palavrinhas famosas, cantadas por aqui por Caetano Veloso, no fado "Argonautas". Celso Arnaldo Araújo também tem como certo que Pessoa é o autor da oração.

Veja bem. O papel que Ulysses Guimarães desempenhou na popularização daquela frase está datado: 22 de setembro de 1973. Ulysses era o cabeça da oposição à ditatura e, durante a convenção do MDB na Câmara dos Deputados, orientado pela TV Nacional, Ulysses olhou para câmera, numa transmissão ao vivo via Embratel, para soltar o grito de guerra contra o processo esdrúxulo e fantasioso de votação que escolheria o sucessor do general Emílio Garrastazu Médici na Presidência da República: "Navegar é preciso, viver não é preciso".

A questão é que a fonte direta de Ulysses Guimarães foi Caetano Veloso. Àquela época, o fado "Argonautas" era um sucesso nas rádios, e "Navegar é preciso, viver não é preciso" é o seu refrão, cantado por Caetano com sotaque lusitano. Ulysses conhecia aqueles versos de fontes clássicas, mas a memória lhe falhou e ele aceitou o popular tropicalista, àquela época exilado.

Já para Caetano Veloso, a fonte pode mesmo ter sido Fernando Pessoa. Está escrito numa pequena anotação do poeta português, publicada 25 anos depois de sua morte, em 1960, intitulada "Palavras de pórtico":

“Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: ‘Navegar é preciso, viver não é preciso’. Quero para mim o espírito dessa frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar.”

Não, a frase não é de Fernando Pessoa, e ele também não sabia a quem atribuir (acontece com todo mundo).

Mas navegar é preciso e navegando por algumas referências chegamos ao grego Plutarco, o famoso biógrafo da antiguidade, cujo método era escrever biografias duplas, confrontando, no mesmo livro, dois biografados, um grego e (geralmente) outro romano. Plutarco nasceu em Queroneia, na Beócia, e viveu algo em torno de 40 a 119 d.C. Adquiriu cidadania romana, passou a se chamar Lucius Mestrius Plutarcus. Era um homem de dois mundos, talvez por isso fosse tão apropriado a ele escrever biografias no formato comparativo.

As biografias que Plutarco escreveu são as conhecidas Vidas paralelas. Um volume é de Alcebíades e Coriolano. Outro é de Demóstenes e Cícero. Há o famoso de Alexandre Magno e Júlio César. Há vários outros. Um deles é de Agesilau, espartano, e Pompeu, o general romano.

Como conta Plutarco, Pompeu estava na África, coletando, provavelmente, milho. Tendo abastecido os navios, ordenou aos capitães que zarpassem. Mas eles, com medo da tempestade que se aproximava, se negaram a levantar âncora. Então Pompeu foi à proa do seu navio e bradou, em latim, para que todos ouvissem:

“Navigare necesse, vivere non necesse”

A frota de Pompeu chegou em Roma a salvo, e este episódio foi tão marcante na vida dos subordinados ao general romano que aquela frase, proferida com pompa em desafio à natureza, ecoou pela História até chegar à pena de Fernando Pessoa, ao canto de Caetano Veloso, ao dedo em riste de Ulysses Guimarães e à boca de Dilma Rousseff.

Tanto a presidenta quanto o jornalista não sabiam a quem atribuir a frase, e mesmo assim um quis corrigir o outro.

A perspectiva da revista Veja sobre determinados assuntos e pessoas não costuma me interessar. A finalidade do texto do Celso Arnaldo Araújo, em particular, também não. Mas eu acredito que, seja jornalista, seja troleiro, a ética do bom leitor deve prevalecer, pelo bem dos leitores e da palavra empenhada.



Nota:
Traduções, em inglês, da biografia de Pompeu por Plutarco estão disponíveis neste link, da Universidade de Chicago, e neste outro, do Projeto Gutenberg.

7 comentários:

denise disse...

muitíssimo legal! como adoro aprender as coisas, e ter onde aprender. esse post está uma sublimidade!

elvira disse...

Adorei o texto, muito bom mesmo. Mas esse "presidenta", me desculpe, não dá.

Guilherme Montana disse...

"Presidenta" foi escolhido pela linguagem oficial do Planalto, Elvira.

E muito obrigado pela visita de ambas. Beijos, bom fim de semana!

Anônimo disse...

Prezado Montana em seu interessante artigo Navegar, comento como colaboração: quem proferriu a frase "navigare necesse...." foi o general romano Pompeu e não Plutarco que relatou o evento. Reveja sua frase e confira se não há uma ambiguidade.
Parabéns pelo seu blog.
Maria josé

Guilherme Montana disse...

Maria José, você é um anjo. Isso é o que acontece com quem não tem revisores por perto rs Obrigado pela correção. Fico contente com sua leitura. Beijinho!

antonio brito disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
antonio brito disse...

Guilherme, Interessante esta sua afirmativa:
"Está escrito numa pequena anotação do poeta português, publicada 25 anos depois de sua morte, em 1960, intitulada "Palavras de pórtico":
1. A primeira edição da Aguillar de 1960 não tem esta "palavras". Nas reimpressões posteriores também (tenho a edição de 1960).
2. Nos cadernos de Mensagem, também não consta este "pórtico".
(veja : http://purl.pt/13965 ).

Depois o texto não se parece em nada com tudo o que Fernando Pessoa escreveu.
"navegadores antigos". - Em Nada Pessoa era vago. sempre preciso nas suas referências. Certamente era uma frase famosa como você mostrou estava em Plutarco e em Petrarca, Pessoa não iria atribuí-la a "antigos navegadores".
A parte final que você postou mais parece de um bajulador editor do que de Pessoa.
É comum ele modificar coisas dos antigos, por exemplo Bellum sine belli, é de Cícero, bellum sine tumultum, isto é uma ironia, como boa parte de Pessoa.
Porém o pior está por vir, vou ficar só em um detalhe,

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir
para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

Todos sabiam que Pessoa era dado ao misticismo. Porém ele nunca professou isto em poema ou escrito algum publicado. Depois Pessoa como jamais acreditaria que existe uma "nossa raça" O Portugueses eram formados por vários povos, mistura de várias culturas, Lisboa sempre foi uma terra de estrangeiros e aventureiros ( Oliveira Martins), jamais uma raça.
-- Colocar a essencia anímica do meu corpo para engrandecer a pátria.
Mensagem é uma descontrução desta Portugal "pátria grande", por que o poeta iria morrer por ela.
Sinceramente, ainda está para descobrir quem colocou este "pórtico" em Mensagem, que não existia a princípio, em um texto que mais parece um anti-pessoa. Depois que um canta, outros registram na Internet, aquilo que a princípio não existia vira um aborto ambulante.