28 de abril de 2011

Hitch 22


"Na medida em que [o homem de cultura] defende e alimenta valores morais, ninguém pode acusá-lo de ser escravo das paixões partidárias. Porém, ao mesmo tempo, na medida em que adquire consciência bem clara de que estes valores não podem ser desconsiderados por nenhuma república, sua obra de artista e de poeta, de filósofo e de crítico, torna-se eficaz na sociedade da qual é cidadão" (grifo meu, adiante você verá por quê).

Isto é Norberto Bobbio, em Os Intelectuais e o Poder, uma coletânea de artigos publicados ao longo de quarenta anos de atividade reflexiva (Unesp, 1996, 187 págs., tradução de Marco Aurélio Nogueira). Eu me recordo pouco deste livro, que foi tão querido há quase uma década e que só recentemente voltou a ocupar um lugar em minhas estantes.

Todos os debates mentais que travei comigo mesmo a cada artigo lido esbarravam, quando exteriorizados, no ímpeto juvenil (atraente, mas ignorante) de meus colegas e no pouco charme dos intelectuais de carne e osso, os que eu conhecia ao menos de ouvir falar, de artigos em jornais (impressos) e de seminários e afins em ambiente acadêmico. Eram muito mais interessantes as reflexões de Bobbio, Croce e Benda sobre a atividade intelectual, e a categoria, não classe, dos intelectuais, do que a atividade em si dos intelectuais, digamos, à minha volta.

Sinceramente, ainda procuro pelo intelectual. Pundits partidários, polemistas de controvérsias descartáveis, revoltados a favor e parasitas do eu falei estão aí nas revistas semanais e nos telejornais mais próximos de você. Mas intelectual, aquele não-restrito à academia, aquele comprometido com a razão e com a cultura no tempo presente, aquele a quem poderíamos chamar de "público" (pense em Susan Sontag), eu não o vejo. Vou chamar este intelectual de republicano.

Temos muitos e bons jornalistas que, sendo generoso, até poderiam ser republicanos, não fossem tão partidários. (Vejo, ainda bem, muitos proto-intelectuais na internet.) Partidários não desta ou daquela bandeira, mas de qualquer bandeira que represente uma instituição e não, como seria republicano, ideias e valores.

Pensando nisso, e sentindo falta deste intelectual republicano, é que me dispus a ler Hitch-22, as memórias de Christopher Hitchens publicadas recentemente (Nova Fronteira, 2010, 591 págs., tradução de Alexandre Martins).



Hitchens sempre foi nome popular orbitando ao meu redor. A gente o acompanha na Vanity Fair e noutras publicações e a gente sabe das constantes, hm, polêmicas que o envolvem. É um nome que não costuma provocar reações uniformes. Não é um articulista com quem se concorde ou de quem se discorde com um certo padrão de freqüência (e nunca unânime, como convém a qualquer pessoa minimamente inteligente). Acho que ele ficaria feliz em ler o período anterior, porque eu só me dei conta da obviedade do papel do contestador ao ponderar se leria ou não suas memórias. Essa constatação óbvia faz dele um intelectual republicano, ainda por cima globalizado. (Gostaria de saber o que Bobbio acharia disso, intelectual republicano globalizado.)

Para um homem como Hitchens, apaixonado por livros, é importante dizer que ler Hitch 22, mesmo o traduzido, foi um prazer digno de qualquer viciado em leitura. Um livro digressivo, humorado, afiado, rico. Se Hitchens consegue ser tão sedutor escrevendo praticamente sobre qualquer coisa, escrevendo sobre si é um deleite inigualável, que por vezes me fez reduzir o ritmo de leitura para retardar a chegada da última página.

Em quase 600 páginas, Hitchens narra sua educação intelectual. Do esquerdismo britânico da juventude ao republicanismo norte-americano de agora. Esta transição, se você tiver pouca familiaridade com ele, é sempre lembrada ao criticá-lo. Assim como suas posições sobre a guerra no Afeganistão e suas palavras um pouco espinhosas sobre figuras ilustres, tais como Madre Teresa. Arengas à parte, ler o que motiva Hitchens a viver e a ter tomado certas posições políticas no decorrer da vida foi muito esclarecedor. Sobretudo para mim, tão acostumado a caminhar na via esquerda do passeio político.

Para além de espectros políticos, o que se lê na vida de Hitchens é um homem comprometido com a razão, com a liberdade e com a ironia. Esta última particularmente importante para um homem que não crê em deus (ele só escreve em minúsculas), porque revela o quão instigante é a vida de quem se entrega ao enriquecimento da cultura como uma missão exclusivamente terrena. Esta tem sido sua missão aqui, cada vez mais próxima do fim, pois tem enfrentado um câncer inconveniente.

"A defesa da ciência e da razão é o grande imperativo da nossa época, e me sinto enormemente honrado de ser reunido, na opinião pública, a grandes professores e acadêmicos como Richard Dawkins, Daniel Dennet e Sam Harris. Ser um descrente não é simplesmente ter a 'mente aberta'. É, em vez disso, uma admissão decisiva de incerteza dialeticamente relacionada ao repúdio do princípio totalitário, tanto na mente quanto na política".

(Dia 13 de abril será aniversário de Christopher Hitchens, um intelectual republicano.)

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Publiquei primeiro aqui.

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