25 de julho de 2011

Amy


“Sabe quem morreu?”, Clarice, minha esposa, me perguntou, sábado, antes de se sentar ao meu lado, no sofá da sala, com poucas expectativas no rosto, como se a morte recente não fosse uma surpresa. Fechei o Henry James que lia e dei meu primeiro chute: “Mel Gibson”.

“Não. É bem óbvio”, ela disse, esperando que eu correspondesse à colher de chá que ela, nesta ocasião, servia aos meus dons divinatórios. Eu, tentando esconder que, para não a decepcionar, pensei, na velocidade da luz, em mil nomes que gostaria óbvios (além de Mel Gibson), acabei soltando, hesitante e sem fé, o nome de Amy Winehouse.

“É, ela mesma. Acharam ela morta em casa. Ainda não sabem a causa [da morte]”, ela disse. Eu lia a novela A morte do leão quando Clarice me interrompeu.

Era uma morte provável, a julgar pelas últimas aparições dela na mídia. Uma consumidora voraz de muitos, vários tipos de produtos pouco saudáveis. O efeito deste consumo era explícito. A Amy do videoclipe de Fuck Me Pumps, de 2004, era muito diferente de qualquer Amy dos últimos doze meses – meses que, para ela, não é desumano assumir, foram mais uma contagem regressiva para o fim do que para o renascimento. Ninguém que tenha vivido intimamente com substâncias tão tóxicas sairia indene. Recuperar-se integralmente destes vícios é um processo de radicalização contínuo e a longo prazo: todos os dias, sem exceção, até o fim da vida, sob a vigilância de um autocontrole impecável, é feita a escolha de jamais, nunca incorrer em hábitos passados. Pelos registros dela a que assistíamos Internet afora, aquela alma já havia partido há tempos. Infelizmente, ela não nos permitiu pensar diferente; ela nos deu a certeza de que morreria cedo.
Agora Amy é morta. Nas 48 horas seguintes ao anúncio de sua morte, ela dividiu o noticiário internacional com os atentados na Noruega e o nacional com a final da Copa América. Canais abertos e fechados, estrangeiros e domésticos, veicularam shows da cantora e preparam especiais sobre a vida e a obra dela, com depoimentos, antigos e recentes, de amigos, fãs, artistas, conhecedores de música e jornalistas. Preparam, também, (alguns até já exibiram) programas sobre os malditos mortos aos 27 anos de idade, grupo no qual Amy foi enquadrada; mas estes programas são açúcares televisivos para alimentar idiotas malnutridos.

Amy Winehouse morreu. Há quem diga que a desgraçada vida que ela teve obscureceu a obra que ela deixou. Há também quem fale que aquela vida foi o que criou seu legado musical. Há os felizes, que desconhecem a morta, o que ela fez e o que pensam dela. Há, no entanto, quem goste de música. É a música que interessa. A música dela. A melhor voz deste novo século. A cantora e compositora mais talentosa entre suas contemporâneas. Apenas dois álbuns, mas dois álbuns que valem muito. Uma pena termos sido privados de um talento como o dela.

2 comentários:

Alexandre Matos disse...

Mais um excelente texto do amigo.

Eu não sou fã particular deste estilo (apesar de não me incomodar). Mas é impossível não se render ao talento da Amy Winehouse. A mulher cantava (e compunha) pra cacete mesmo.

O que ela fez da vida é (ou era) um problema dela e dos entes e amigos próximos. Eu não tenho nada a ver com isso. Não vou transformá-la em santa, como muitos têm a mania de fazer quando um famoso morre, tampouco vou chutar a obra dela, curta mas expressiva.

guilherme disse...

Sua música é uma herança maior do que qualquer polêmica para esse mundo...

Ao menos na minha visão pessoal de mundo.