10 de novembro de 2011

O amor e o UFC Rio

Publiquei primeiro no MMA Brasil.

O grande dia foi 27 de agosto de 2011, um sábado, dia do UFC Rio. Um card estelar: os três maiores lutadores brasileiros da história do MMA entrariam no Octógono™. O melhor artista marcial do planeta defenderia seu cinturão de campeão peso médio, Anderson Silva. O meio-pesado mais letal do esporte recomeçaria sua jornada rumo ao topo, Maurício Shogun. O legendário peso pesado Rodrigo Minotauro lutaria em casa pela primeira vez. O UFCretornaria ao Brasil, útero do esporte. O evento, na íntegra, seria transmitido a cabo, e a tevê aberta exibiria o card principal. À medida que o evento se aproximava, não se falava de outra coisa. Clubes de futebol entraram na dança, patrocinando lutadores. A dita “grande mídia”, a leiga, deu atenção ao evento, mesmo que alguns veículos o tenham feito de forma comedida e outros de maneira, no mínimo, atrapalhada (era como ver jornalistas especializados em economia marciana cobrindo um carnaval fora de época no Butão). O UFC Rio era o grande evento do ano. Mas para mim não foi. Quer dizer, também foi.

O grande dia foi 27 de agosto de 2011, um sábado, dia do casamento do meu cunhado. Casamento do qual fui padrinho.

Quando o mundo soube que no dia do UFC Rio eu estaria de terno e gravata, abençoando, felicitando e testemunhando a cerimônia do amor indissolúvel de um casal apaixonado, comecei a ouvir coisas como: “Qualé, Guilherme! Dá um balão nesse cunhado, cara! UFC RIO!” Por alguma razão, não adiantava contra-argumentar, dizendo que o que importa é a celebração do amor e da felicidade. As pessoas continuavam enfáticas: “UFC Rio, porra!”

Família é família. Gosto dos meus cunhados, tanto dos armários irmãos da minha esposa quanto do marginal que dorme com a minha irmã. Estava decidido. No dia 27 de agosto, evitaria o bullying pró-UFC Rio: desligaria o celular para não receber as mensagens que tanta gente ameaçou me mandar, contando os resultados das lutas e tentando me espezinhar por não assistir ao evento (o cunhado marginal foi o primeiro a fazer isso). Aquele sábado era o dia da celebração do amor – e nada pode ser mais importante que isso. Ponto.

A cerimônia foi linda. A igreja escolhida, como é frequente aqui em Brasília, tinha uma arquitetura muito interessante, e uma pinacoteca um tanto pitoresca. O padre, que me surpreendeu, pois raramente dou atenção ao que padres dizem, celebrou de forma moderna e leve, fez um discurso pé no chão e também romântico, bem bonito. O noivo aparentava estar calmo, a noiva estava belíssima, a mais bonita que já vi.

Depois da cerimônia, a recepção. Um salão de festas enorme e muito bem decorado, de bom gosto. Uma mesa “protagonista” muito bem posta e elegante me esperava, um dos privilégios de ser família e padrinho. Garçons por todos os lados, servindo todos os tipos de hors d’oeuvresque você puder imaginar. Bebidas de todos os tipos sendo distribuídas em todas as direções. O serviço todo muito simpático, solícito e diligente. A música, embora não lembre qual era, cumpria a função de trilha sonora para momentos felizes – e as crianças correndo e dançando eram os elementos cenográficos que confirmavam a felicidade do momento. Mas a noite estava um pouco fria, tive de pegar um casaco para minha filha. O casaco estava no carro. Do paradeiro do carro, só sabiam os manobristas. É aqui, leitor, por conta desta necessidade, que o UFC Rio passa a existir.

Eles haviam sumido, os manobristas. “Estão vendo televisão”, disse a hostess. Pensei um pouco sobre o que fazer com esta informação. “Como é que é?”, perguntei. A hostess explicou tudo de novo. O carro estava demorando a aparecer porque os manobristas estavam assistindo à tevê e não sabiam com quem estava minha chave. Ela se desculpou pela demora, me ofereceu uma cadeira e disse que ia ela mesma lá onde eles estavam. “Eles têm uma tevê?”, perguntei. Nem lembro o que ela respondeu porque eu mesmo fui “lá onde eles estavam” pegar a chave.

Agasalhei a criança e disse à minha esposa: “Os manobristas têm uma televisão!”. Roubei uma garrafa de espumante do buffet e saí correndo pelo estacionamento, pondo à prova toda a elasticidade e resistência da lã super 120 de que era feito o terno. Me juntei aos manobristas para assistir ao histórico evento numa televisão de catorze polegadas e a cinco metros de distância.

A primeira luta a que assistiria seria a do Minotauro. Todos nós conhecemos Minotauro. Ter visto a luta dele com aquela galera foi ótimo, porque eles não eram, digamos, “do meio”. Eram todos neófitos no assunto – o que fez deles os torcedores mais alegres e espontâneos que já vi (o mais entendido deles disse: “Demian Maia, aqui do BOPE de Brasília, vai lutar hoje ainda”). Eles só queriam assistir às lutas, entre uma requisição de carro e outra, embora um deles tenha dito: “Tomara que ninguém peça carro agora!”. A iniciativa da tevê aberta de promover o MMA apresentou mais ídolos aos brasileiros. Ídolos que dão a cara à tapa, literalmente. E ninguém dá a cara à tapa “melhor” que Minotauro. Meus parceiros neófitos não sabiam disso, ainda bem. Se soubessem que qualquer luta do Minotauro é capaz de causar infartos em massa, teriam o feito o mesmo que eu: espocado o espumante e entornado três taças seguidas.

Minotauro é o único lutador do mundo do qual é impossível apostar na derrota. Você pode ou apostar na vitória dele, ou se abster de apostar qualquer coisa. Mas nunca se aposta na vitória de um oponente dele. Pois lá estava Brendan Schaub, o único lutador da noite a querer o título de vilão. Ele ia lutar contra nosso maior ídolo peso-pesado, tendo pedido por esta luta – tanto o adversário quanto o lugar. Mais jovem, mais forte, mais rápido, mais comprido, mais alto, mais pesado, mais saudável. Ainda assim, com tudo em desfavor de Minotauro, é impossível abrir a boca pra dizer que ele vai perder. Haja taça de espumante!

Quando a luta começou, não havia bebida que desacelerasse meu batimento cardíaco nem que afrouxasse aquele aperto no peito, tão familiar aos fãs do Big Nog. Ainda tentando me adaptar à angústia de assistir àquela luta, me surpreendi ao ver que Minotauro, o velho, o lento, o operado, o inativo, era quem fazia a luta acontecer, quem ia pra frente. (Mais espumante.) Aí ele foi atingido e dobrou os joelhões algumas vezes, para o nosso desespero – e mesmo assim a gente sabia que nada estava decidido, que, quanto se trata de Minotauro, por mais perdida que esteja a luta, tudo pode acontecer. E aconteceu! E até agora todos nós ainda ficamos arrepiados ao lembrar que Minotauro reverteu todas as expectativas quando tudo já parecia ter um destino certo. (Mais espumante.) Talvez Minotauro seja o mais brasileiro dos nossos lutadores. O cara não desiste nunca, nenhuma luta dele é fácil, ele não se queixa nem se explica (explicou-se ao vencer Schaub, sobre os problemas físicos por que tem passado, mas nunca os usou como desculpa quanto às derrotas para Frank Mir e Cain Velasquez). Minotauro é um herói tão brasileiro que exemplifica uma mentalidade da qual aos poucos, acredito, estamos nos desvencilhando: a de que é preciso fazer sucesso lá fora para ser reconhecido aqui dentro. No UFC Rio, Minotauro lutou em casa pela primeira vez.

Voltei correndo para o salão de festas, desta vez pondo à prova a integridade dos meus ossos, visto que sofria de déficit psicomotor de equilíbrio. Tirei foto com os noivos, que perguntaram da luta. “MINOTAURO POR NOCAUTE!”, respondi.

A luta de Maurício Shogun não me preocupava. Juro. Na verdade, a única luta que me preocupava era a do Minotauro. Quando retornei à tenda dos meus mais novos amigos de infância, taquicardia, sudorese, tremores, não tive nada disso. Era só sentar e relaxar. Shogun, nocaute técnico.

Gostei daquele Shogun. Tenho minhas dúvidas quanto à volta do “Shogun do Pride”, mas gostei da apresentação dele no UFC Rio. O estilo que fez Shogun famoso é fundamentado numa coisa que tem um tempo de vida relativamente curto: juventude. Desde a primeira luta de sua carreira até o segundo combate contra Alistair Overeem, o que fez dele o lendário Shogun Rua foram o ímpeto, a disposição, a agressividade, o fôlego – a selvageria. Marcas da juventude. O rapaz foi campeão do Pride aos 23 anos, pisando na cabeça de quase todo mundo, literalmente. Agora, prestes a completar 30 anos (um garoto para vida, um não-garoto para o esporte) e depois de algumas cirurgias no joelho, fico meio receoso quanto ao futuro dele na categoria. Mesmo assim, gostei dele contra o Forrest Griffin. Uma característica própria do Shogun é ter um instinto assassino certeiro. Ele sentiu o aroma de sangue e Forrest, zonzo, mal teve tempo de respirar – nocaute. Outra coisa que podemos constatar a partir desta luta é que ele treinou de verdade e não subestimou o adversário, coisas que o fizeram perder o cinturão.

A garrafa de espumante já estava vazia, e eu meio que noutra dimensão, quando soou o gongo da última luta da noite. Se até agora a vitória do Minotauro me arrepia, a do Anderson me deixa sem palavras. Ele deu um round de presente ao adversário. Ele ia lutar contra o melhor lutador japonês da atualidade, um ótimo peso médio, forte e resistente, e se deu ao luxo de se aquecer por um round. Ele, já no segundo, derrubou Yushin Okami com um jab. Um jab. E deixou o desafiante se levantar. Ele deixou o desafiante se levantar. E o derrubou novamente, e o nocauteou. Ele fez tudo isso. Fez o que quis. Não é preciso dizer nada.

Me despedi dos meus amigos, que me consideram o padrinho mais gente boa que eles já conheceram.

O salão de festas estava em ebulição. Alheios ao que eu tinha acabado de ver na tevê, todos festejavam o amor. Dançavam, comiam, bebiam, conversavam, riam. Entrei na onda. O melhor de todos os casamentos.

Nenhum comentário: