10 de novembro de 2011

O curioso caso de Jonathan Fitch

Publiquei primeiro no MMA Brasil.

Alguns atletas não vendem. São extremamente profissionais, mas não vendem pay-per-view, que é o que o americano compra para ver as lutas do UFC em casa. O sucesso profissional dos lutadores, veja você, não está só nas habilidades marciais que demonstram dentro do Octógono™. Está, também, no quão atraentes eles são junto ao público. Pelo visto, e pelo menos no UFC, a carreira de um atleta está ligada a uma característica extra-ringue com a qual, por mais que se tente incorporá-la, é preciso nascer: carisma.

Pois este é o “problema” de Jon Fitch.

Veja o caso de Georges St-Pierre, o GSP. Se há alguém próximo da unanimidade, é GSP. Eu, particularmente, não conheço ninguém que não simpatize com ele, nem que torça contra ele. Mesmo contra Thiago Alves, aqui no Brasil, entre torcedores de sala de estar, GSP só ganhou ou reticências ou apoio. Todos o adoram. Quando tenho de apresentar o esporte a algum neófito, o primeiro item no meu catálogo-mostruário que ofereço ao desavisado é GSP, o franco-canadense bem-vestido e educado. O lutador discreto e de sorriso fácil (com dentição completa). Uma amiga, cujo único interesse no esporte foi me visitar, no dia do UFC 113, para comemorar meu aniversário, me perguntou “Quem é esse tal de St-Pierre de quem [os comentaristas] ficam falando?” (o evento foi em Montreal, no Canadá). Eu respondi: “Quando ele aparecer aí você vai saber”. Minutos depois, ele apareceu sorrindo e vestindo terno risco-de-giz. “É esse, né?”, ela me perguntou. Carisma.

Mas pense bem. O estilo de lutar do GSP não difere muito do de Jon Fitch. Nem do de Josh Koscheck. Embora GSP tenha a vantagem da trocação, o que a gente costuma ver nas lutas dele são quedas mais ground n’ pound. Foi assim contra Thiago Alves, Dan Hardy, Matt Serra (segundo encontro) e, embora um pouco diferente, BJ Penn. Jon Fitch não nocauteia ninguém. Mas nocautes e nocautes técnicos não têm sido uma frequência na vida de GSP, ultimamente. É muito estranho. Contudo, GSP vende pay-per-view e é querido por todos, está ali entre os três melhores peso-por-peso do planeta e eu mesmo não perco uma luta dele, por mais que ele bata como uma moça.

“Bater como uma moça” também é especialidade de Jon Fitch, mas, poxa vida, as pessoas não colaboram com a causa dele. Lembre que, antes de Anderson Silva, o recorde de vitórias consecutivas era de Fitch (marca compartilhada com Royce Gracie). Oito seguidas. Este recorde só não foi quebrado por Fitch porque lhe apareceu na frente o campeão GSP. E só para provar que Fitch é amaldiçoado, ele ficou mais famoso pela derrota para GSP (UFC 87) do que pelas vitórias consecutivas anteriores. Concordo que foi uma derrota bonita. GSP o castigou bem castigado. Foram cinco rounds de pancadaria (aplicada por GSP, sofrida por Fitch). Fitch foi um guerreiro. Mas, enfim, uma derrota.

Desde então Fitch só tem vencido. No entanto, mais uma vez, a tão sonhada disputa de cinturão lhe é negada pelos matchmakers. Para primeira disputa, foram necessárias oito vitórias. Para segunda, ainda não sabemos, mesmo ele, antes do empate com BJ Penn, tendo vencido cinco combates. Eu preferia ter visto a ele no lugar de Koscheck em dezembro do ano passado, no UFC 124. Fitch merecia a disputa desde a vitória contra Ben Saunders. Depois de Saunders ele enfrentou Thiago Alves, vencendo. Não era suficiente para uma disputa de título?

Para Fitch as coisas funcionam de outro jeito, pessoal. Porque, por mais gabaritado que ele estivesse (e estava) para se candidatar a desafiante, o nocaute de BJ Penn sobre Matt Hughes (UFC 123) atrapalhou tudo. Quando eu soube que o vencedor de BJ Penn vs Jon Fitch, e não o próprio Fitch, disputaria o cinturão defendido ou conquistado no UFC 129, comecei a olhar a situação de Fitch de modo diferente (o que me levou a escrever esta coluna).

Acho justo que haja uma revanche entre ele e BJ Penn, assim como achei justo o empate no primeiro encontro entre ambos (UFC 127). Mas, enquanto escrevo esta coluna, os matchmakersdo UFC estão à procura de outro adversário para BJ, porque Fitch está machucado. O sonho do cinturão fica cada vez mais distante de Fitch. Talvez a revanche contra GSP nunca ocorra. Esta é uma das coisas mais impressionantes no currículo dele: Fitch estreou no UFC em abril de 2006 e de lá para cá só sofreu uma única derrota, que foi para o campeão da categoria. Se este currículo não for prova de profissionalismo, nada mais será.

Reconheço que carisma não é a praia de Fitch. Mas isto não é privilégio só dele. (Alguém aí falou, só para citar campeões, Anderson Silva e Frank Edgar?) Reconheço também que o jogo de Fitch não costuma ser dos mais excitantes. Mas eu acho que isso pode ser repensado. É diversão assistir ao UFC, mas a minha diversão é a profissão daqueles atletas. Fitch é um dos mais profissionais do UFC: só ganha, sempre faz o peso, nunca se envolve em polêmicas e bate-bocas estéreis.

Eu sou a favor que os atletas se vejam como artistas, no sentido de artistas marciais. O que Demian Maia fez a Chael Sonnen, o que Anderson Silva fez a Forrest Griffin, o que Lyoto Machida fez a Thiago Silva – eles fizeram arte, entende? Mas a cobrança de que eles sejamshowmen e de que o esporte seja, obrigatoriamente, um espetáculo pode ser prejudicial. Fitch tem sentido isso na pele.

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