10 de novembro de 2011

Silva vs Belfort

Publiquei primeiro no MMA Brasil.


Um chute frontal, comum a várias artes marciais e simples como um jab, mostrou quem é o melhor artista marcial do planeta na atualidade. Apontar o melhor da história do esporte, que passou por tantas transformações e que mal chegou à adolescência, é precipitado. Mas não há dúvida de que a coroa, hoje, pertence a Anderson Silva.

O ponto final, ou, se preferir, o ponto de exclamação sobre o melhor da atualidade foi digitado na marca de 3 minutos e 25 segundos do primeiro de cinco assaltos programados para o evento principal do UFC 126: Silva vs Belfort, quando Vitor Belfort, o “Fenômeno”, avariado por um singelo, potente e cirúrgico chute frontal, foi “terminado” por mais um par de socos – fazendo o árbitro Mário Yamasaki interromper o combate.

São dados que não podem ser ignorados: recordes de defesa de título e de vitórias seguidas sobre lutadores que estavam na lista dos dez melhores na divisão a que Anderson Silva pertence (ou onde manda). Além dos números, a maioria dessas vitórias veio de forma decisiva: nocautes, nocautes técnicos e finalizações. Depois do que aconteceu na madrugada de sábado, 5 de fevereiro, para domingo, no UFC 126, em Las Vegas, mesmo quem não nutre simpatias pelo “Aranha” (e são muitos os que, com razão, não o toleram) reconhece a superioridade dele no mundo das lutas.

O desafiante, Vitor Belfort, é uma lenda. Isso deve ser repetido. “Ele já era campeão quando eu comecei no esporte”, disse Anderson Silva no pós-luta. Belfort passou por altos e baixos, digo, por altos estratosféricos e baixos tectônicos. Enquanto Silva se compara a Muhammad Ali, Belfort foi comparado a Mike Tyson. Belfort, assim como todos que competiram naquela época em que o lutador fazia duas ou três lutas por noite, é um pioneiro do esporte. A vitória contundente do “Aranha” sobre Belfort tem muito significado. Esta vitória deu polimento à coroa do rei. Brilho que o próprio Anderson Silva, às vezes, faz questão de poluir, ora dentro, ora fora do Octógono™.

Quando o árbitro Yamasaki (particularmente, o melhor de todos) deu início à luta, por mais de um minuto não houve ação. Isso é de se esperar do “Aranha”, mas não do “Fenômeno”, não daquele “Fenômeno” clássico, cujas lutas instantâneas servem de material para vários editores de vídeo internet afora: nocautes rápidos e brutais, socos velozes e adversários aniquilados. Belfort se transformou noutro atleta, um lutador mais econômico, mais centrado. A estabilidade de sua vida pessoal contou bastante para esta transformação. Sempre conta. Mas é a maneira como Belfort vê o esporte que mudou. Ele já era outro atleta em 2007, quando nocauteou (TKO) Ivan Serati em sua estreia no extinto Cage Rage, em Londres. Desde então ele tem tido a mesma performance. Depois de Serati, veio James Zikic, a quem venceu por decisão unânime e obteve o título dos meio-pesados daquela organização. Uma vitória por decisão unânime, para alguém como Vitor Belfort, pode parecer uma atraso, mas, na verdade, é uma evolução. A gente pode ver ele se comportando com calma por 15 minutos, sem cair na frustração que, no passado, o caracterizava, quando nada havia se resolvido no primeiro assalto.

Ele lutou pela primeira vez como peso médio contra Terry Martin, no também extinto Affliction, em 2008. O nocaute veio no segundo assalto. Duas boas notícias na mesma oração: Belfort, mais leve, manteve o poder de nocaute e apagou o oponente na segunda sessão da luta. Mais um nocaute, na mesma organização, sobre Matt Lindland, e outro, sobre Rich Franklin, já no UFC, pavimentaram o caminho de Belfort rumo ao cinturão do “Aranha”. Ambos os nocautes foram no primeiro assalto. Belfort teve uma evolução gradual e segura na maneira como conduzir a luta. O “psicológico fraco” que atribuem a ele pertence a outra época.

Além da evolução mental e esportiva, outro fator importante para Vitor Belfort ter sido alçado à condição de desafiante de Anderson Silva foi a lógica do mercado. É muito sintomático que o “Fenômeno” tenha sido “convocado” pelos próprios Fertittas para disputar o cinturão, disputa que deveria acontecer no nefasto UFC 112: Invincible, em Abu Dhabi. O UFC havia acabado de ganhar um sócio, a árabe Flash Entertainment. Seria o primeiro evento no Oriente Médio, a ser realizado no parque temático da Ferrari, onde acontece uma das etapas da Fórmula 1. Um dos melhores lutadores do mundo precisava de um oponente de fato. Silva versus Belfort seria a luta do século, a batalha das Arábias, a guerra do petróleo, ou qualquer outro epíteto que deixe você em constrangimento.

Não foi bem assim, nós sabemos. O desempenho de Anderson Silva contra Demian Maia, o substituto de um Belfort contundido, naquele 10 de abril de 2010, foi vergonhoso. Mas esperado: foi uma versão circense do que ele havia feito contra Patrick Coté e Thales Leites. Silva era reincidente. O comportamento do “Aranha” não era lucrativo e desvalorizava o próprio cinturão. O pouco carisma dele lá fora é evidente em todas as lutas que faz: o público sempre grita o nome do oponente, seja quem for. Por fim, Anderson não sabe se comunicar em inglês, o que para o público americano, os compradores de pay-per-view, é um crime. Difícil ter mais lucro com um lutador que gere tanta antipatia. Há lutadores que também têm pouco carisma e não sabem se comunicar, mas não causam tanta indisposição do público, pelo contrário. Exemplos disso são Maurício Shogun e José Aldo, ambos campeões, este colega de Black House; aquele, ex-colega de Chute Boxe.

Vitor Belfort é a antítese de tudo isso. Humilde, articulado, carismático (ou, pelo menos, reconhecido), famoso nos meios não-esportivos muito antes do UFC crescer em popularidade e, além de tudo, casado com uma mulher três vezes capa da Playboy. Os Fertittas precisavam deste garoto propaganda.

Contudo, depois de Mário Yamasaki ter dado início à luta, depois dos lutadores se estudarem por minutos, depois de o “Fenômeno” demonstrar, mesmo que por pouquíssimo tempo, estar à altura do “Aranha”, depois de dez mil pessoas gritarem por Vitor Belfort, o melhor do mundo, num piscar de olhos, encerrou a luta de maneira simples e, por isso mesmo, genial. Chute frontal no queixo. Socos para encerrar a conta.

Anderson Silva, o “Aranha”, tem 35 anos. Idade que não parece ter afetado nem sua força, nem sua velocidade. É um lutador que vence os adversários de forma exemplar, quando quer vencer. É um recordista, está fazendo história. Ele pode ser tanto um artista marcial brilhante, quanto o mais vergonhoso dos atletas. É frustrante não poder imaginar como ele vai se comportar na próxima luta, mas é preciso reconhecer que ele é espetacular.

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