17 de novembro de 2011

UFC on Fox, UFC na Globo

Publiquei primeiro no MMA Brasil.

Queixo de titânio, mãos de chumbo, pulmões de ferro. Muitas metáforas são dedicadas a Cain Velasquez. Para tanta estilística, talvez não existam metais suficientes na tabela periódica. Velasquez é um milagre da metalurgia. Atropelou todos os oponentes que lhe ofereceram. Ele fez Brock Lesnar parecer uma boneca de pano e infligiu o primeiro nocaute legítimo da carreira de Rodrigo Minotauro (provas das mãos de chumbo). Foi impiedoso no castigo que aplicou em Ben Rothwell. Em sua única luta que demorou quinze minutos, foi incansável na surra que assentou em Cheick Kongo, mesmo tendo sofrido uns knock-downs durante o percurso (provas do queixo de titânio e dos pulmões de ferro). Velasquez entrou no UFC com apenas duas lutas profissionais. Apenas duas lutas profissionais. Até colidir com Junior Cigano, foi vencedor em 100% dos combates, 89% deles por nocaute/nocaute técnico. Já acontecia de seu nome, nas listas dos melhores peso-por-peso da atualidade, aparecer perigosamente próximo aos de Anderson Silva, Georges St-Pierre e José Aldo.

Cain Velasquez mostrou queixo de titânio contra Cheick Kongo no UFC 99

Velasquez era o favorito nas apostas para o UFC on Fox 1, evento que aconteceu no dia 12 de novembro, em Anaheim, Califórnia. Seu favoritismo, embora não exorbitante, era claro e se baseava em tudo aquilo que você leu no primeiro parágrafo (mas apostei em Cigano desde o início). Pela sua trajetória e pela maneira como conseguiu o título, espancando Lesnar, Velasquez parecia inaugurar uma nova era entre os pesados. Um reinado longevo, como o de GSP ou o do Spider, era a expectativa nutrida em relação ao campeão mexico-americano. Uma expectativa que diminuiu muito pouco nestes meses de inatividade, tempo que precisou para se recuperar de uma cirurgia no ombro. Enfim, era uma expectativa justificada. O cara bate forte, aguenta pancada, troca bem; foi um wrestler extraordinário, tem o preparo físico de guepardo e o coração de um leão. No horizonte, o único senão em seu arsenal era um grappling (jiu-jitsu, para ser exato) não-lapidado, como se viu no combate contra Kongo.

Este é o homem que Junior Cigano destronou. Cigano precisou de um pouco mais de um minuto e um cruzado de direita. Supreendente. O desafiante começou sua jornada no UFC também de forma surpreendente.

Alguns lutadores tiveram, digamos, a sorte de estrear no UFC numa luta que, em teoria, mais parecia um exercício de sadismo de Joe Silva e companhia. O primeiro adversário de Paulo Thiago dentro do Octógono™ foi Josh Koscheck. Era de se perguntar o que o Caveira havia feito para merecer isso. O bom é que Paulo Thiago nocauteou Koscheck. Brock Lesnar começou sua carreira no UFC encarando um ex-campeão e exímio grappler, Frank Mir, para mim o melhor jiu-jitsu dos pesos-pesados. Era a segunda luta profissional de Lesnar. Que ele perdeu (para o jiu-jitsu de Mir), mas deu trabalho e mostrou a que vinha. Cigano também faz parte desse grupo de gente feliz. Sua primeira luta como empregado da Zuffa foi contra o então número 5 no ranking dos pesos-pesados, Fabricio Werdum. Cigano, em 2008, lutou no DEMO Fight e, meses depois, foi enfrentar Werdum no UFC, vencendo e ganhando o bônus de nocaute da noite. Meça as proporções.

Junior Cigano apresentou seu cartão de visitas contra Fabricio Werdum, no UFC 90

Werdum foi à lona. Cigano apresentaria a lona a outros oponentes. Uma sequência de nocautes/nocautes técnicos que não precisa de adjetivos: Stefan Struve, Mirko Cro Cop, Gilbert Yvel, Gabriel Gonzaga. Exceto por Cro Cop, que pediu para sair no terceiro round, os demais infelizes perderam a consciência no primeiro round. Depois de Gonzaga, dois espancamentos garantiram as duas únicas vitórias por decisão em sua carreira até agora: Roy Nelson e Shane Carwin. Cigano fez o que pode para apagá-los, acredite, mas Nelson e Carwin não nasceram para ser nocauteados. É bem provável que sigam suas carreiras e se aposentem sem jamais sofrerem um nocaute. (Curiosamente, o único nocaute sofrido por Nelson foi aplicado pelo queixo de vidro mor, Andrei Arlovski.) O que há de interessante nestas duas vitórias de Cigano é que o vimos diversificando um pouco seu jogo, aplicando quedas e dando chutes altos.

A vitória sobre Carwin, em particular, tem um componente que faz a diferença quando o que se pretende é ser campeão. Confiança. Claro, Cigano desde o início demonstrou confiança, mas o argumento aqui vai mais além. Ele tinha garantida a disputa de cinturão contra Velasquez, mas preferiu não esperar o então campeão se recuperar para lutar pela sua coroa. Mesmo tendo otitle shot garantido, ele topou ser técnico no TUF 13 e enfrentar Brock Lesnar ao fim da temporada para se manter ativo. Lesnar se machucou, foi substituído por Carwin, outra pedrada. Lesnar ou Carwin, Cigano botou o title shot pra jogo só porque não queria ficar parado. E venceu. Húbris.

Cigano ter vencido Velasquez de forma fulminante não é tão assustador. Assustador mesmo é ele ter imposto a luta dele a todos os oponentes, inclusive a Velasquez, em que pese o erro estratégico de querer trocar com o melhor boxeador do UFC. Desde Werdum que Cigano tem vencido em pé. Não lembro de uma queda bem sucedida (para o oponente) que Cigano tenha sofrido.

A primeira defesa de cinturão do novo campeão, que será contra o vencedor de Brock Lesnar vs Alistair Overeem, pode por à prova a capacidade dele de impor a luta que quer lutar. Se oscript sofrer alterações, como ele vai se comportar de costas pro chão com Brock Lesnar pesando sobre ele? Como ele vai reagir à trocação de Alistair Overeem, um monstro nokickboxing? Overeem ou Lesnar, numa luta de cinco rounds, como Cigano vai lidar com um oponente atleticamente poderoso? Perguntas incômodas, mas aposto no húbris de JDS.

Cigano disputou o cinturão num momento que podemos elencar, pela cronologia, como o quarto mais importante da história do esporte. O primeiro, a criação do UFC, obviamente. A formalização de uma prática brasileira sob um nome expressivo e dentro de um ringue icônico. O segundo momento, a compra do UFC pelos irmãos Fertitta. O terceiro, a histórica batalha entre Forrest Griffin e Stephan Bonnar na final do TUF 1 (impossível se cansar de assistir a esta luta), com certeza o evento intrarringue mais significativo para a expansão do esporte e da marca UFC. O que nos leva ao quarto momento: o MMA conquistando o mainstream. É como se as porradas entre Bonnar e Griffin, em abril de 2005, tivessem causado os tremores que se transformaram nesta tsunami que chega agora à praia do mainstream, com o evento UFC on Fox. É uma tsunami tão gigante que devastou terras mais ao sul da Califórnia. A Rede Globo, que há bem pouco tempo demonstrava um tímido interesseem exibir MMA, fez milhões de brasileiros vibrar com o cruzado de Cigano, narrado por Galvão Bueno, seguido pelo indefectível “Brasil-sil-sil”.

Não dá pra ser mais mainstream que isso: “narração de Galvão Bueno”. Estas aspas já valem mais que trocentos parágrafos sobre a expansão do UFC, a popularização do esporte, o crescimento do mercado de lutas, etc. Sobre Galvão, é preciso dizer que, mesmo ele tendo feito tudo o que se esperava dele, mesmo ele tendo agido como Galvão Bueno (“Os gladiadores do terceiro milênio!”), ele fez um bom trabalho. Até porque o match o favoreceu: Cigano é um boxeador, Galvão está familiarizado com isso e o combate foi rápido.

Agora, temos um novo herói nacional, Junior Cigano, apresentado por Galvão Bueno à população. É como se finalmente o Brasil dos lutadores fosse redescoberto. Ídolos para uma nova mentalidade, distinta daquela vira-lata antiquada. Ídolos finalmente reconhecidos, depois de tanto preconceito sofrido. Ídolos do esforço continuado e da disciplina, artistas marciais idolatrados em todo o globo, expoentes do esporte que mais cresce em todo o planeta.

Um comentário:

Anônimo disse...

Foda...