10 de novembro de 2011

Xamãs & Concurseiros


Uma vez, em 1998, quando eu havia terminado o segundo grau e não sabia o que fazer da vida (nem saberia pelos dez anos seguintes), uma tia me aconselhou a fazer concursos públicos. Como incentivo, ela me presenteou com uma palestra sobre como passar neles. Ela soube da tal palestra pelo jornal, não sei se na seção classificados. Um guru prometia transformar seus ouvintes em vencedores aprovados e economicamente estáveis, a despeito da função que o aprovado exerceria, porque vocação, ou sonho profissional, é um detalhe sórdido que às vezes se mete à frente da almejada estabilidade. Fui à palestra, que foi no Templo da Boa Vontade, aqui em Brasília. Um dia inteiro de conversa. Não lembro se oito ou seis horas. Algo assim. O evento era longo o suficiente para haver intervalo de almoço, que não estava incluído na fortuna que tias, pais, mães e alguns dos próprios concurseiros pagaram.

Pois bem, o palestrante havia passado num concurso público. Dataprev, INSS, TCU, um concurso assim. Esta, na verdade, era sua única credencial (que tem seu mérito, claro). Nada, nenhuma experiência como palestrante, instrutor, facilitador, nada. Eu, sentado numa desconfortável cadeira de plástico, dediquei horas àquele sujeito para ouvi-lo dizer, sem brilho algum e repetidamente, que só passa em concurso quem estuda. Quem estuda, estuda, estuda. Ele não contou piadas. Nem fábulas edificantes. Ele falou muito, mas à minha frente, e eu estava na fila dos perdigotos, eram só ele, seu cabelo arquitetado em gel, sua gravata de liquidação, seu relógio jurássico e um microfone, que transmitia às caixas de som uma voz cadenciada e anódina. Ele não usou o então onipresente retroprojetor, sobre o qual costumavam repousar transparências rabiscadas à mão com pincel atômico. O hoje estapafúrdio e constrangedor PowerPoint era uma realidade muito distante. Àquela época, acho que só o Steve Jobs usaria*.

O palestrante. Ele tampouco agraciou os presentes com histórias divertidas de primos distantes ou de antepassados batalhadores - narrativas que forçosamente teriam de ter uma mensagem edificante. Não, nada, ele não as contou. Fofoquinhas de cunho profissional-moralizante sobre colegas de trabalho? Nenhuma. Macetes de memorização e leitura dinâmica? Nem de longe. Indicações de livros e, se possível, breves análises bibliográficas? Inexistentes. Instruções sobre como montar mind maps? Esqueçam, não havia essa moda naquela época. Recomendação de alimentos bons para o cérebro e de snacks que combinam com a hora de estudos? Não, nada. (Embora ele tenha dito que "Tomar suco é bom", genericamente falando.) Breves explanações, só a título de vaidade promocional, sobre a diferença entre complementos nominais e adjuntos adnominais, ou sobre a diferença habeas corpus e habeas data, ou sobre a diferença entre atos normativos e atos enunciativos? Não, nenhum conteúdo da santa trindade das disciplinas concurseiras (língua portuguesa, direito constitucional e direito administrativo) foi contemplado, por mais rasteiro que fosse.

Enfim, o homem cobrou uma fortuna, umas duzentas - duzentas! - pessoas, um bando de inseguros, néscios, angustiados, compareceram e elogiaram o desempenho do palestrante insípido. Alguns saíram até comentando que "Poxa, faz todo sentido", ou "É, ele tá certo", ou "Ah, agora, sim, eu passo", ou "Podia ter demorado mais, né?" e por aí vai. O ilustre palestrante conseguiu segurar sua platéia por milênios, numa palestra sem graça e totalmente desinstrutiva, para repetir, tautologicamente, o que todos aqueles imbecis poderiam dizer, ou diziam, à frente do espelho: "Preciso estudar".

Ele conseguiu a proeza de não usar nenhum clichê de palestras motivacionais para concursos e, mesmo assim, fazer um trabalho insípido, apenas repetindo o mantra: "Estudem". Achei curiosa a postura de conselheiro do palestrante. Ele falava - mas não conversava com a plateia, não houve interação - como se fosse um padrinho que dava uma gentil bronca nos afilhados, como se os pais verdadeiros tivessem acabado de sair da sala, furiosos, e o afilhados, se sentindo culpados por alguma bobagem que tenham feito, estivessem para ser reconfortados pelo padrinho, o good cop. "Estudem", dizia o palestrante, sorrindo - e a combinação do sorriso sem vida com a gravata ordinária era perturbadora.

Hoje, me parece, os mestres concurseiros fazem tudo aquilo que o palestrante insosso deixou de fazer - e fazem mais. Cantam, dançam, improvisam. Contam histórias e piadas, fazem confissões e choram. Inventam macetes para aprender macetes. Criam acrósticos e anagramas para memorizar acrósticos, anagramas, macetes e metamacetes. Ensinam a arte da confecção de mapas mentais (para organizar melhor os decorados acrósticos, anagramas, macetes e metamacetes) e alguns oferecem a técnica da árvore hiperbólica. Os novos palestrantes sobem ao palco e quebram tábuas com golpes de caratê! Vale tudo para convencer uma pessoa de que ela pode passar num concurso público (relembrando, "aprendizado de conteúdo" ou "realização profissional" são fatores secundários).

Mesmo que a performance dos palestrantes tenha sido enhanced (eles adoram esses termos, você sabe), a impressão que tive em 1998, quando saí do Templo da Boa Vontade e, faminto e furioso, fui caçar uma pizzaria, é a mesma que tenho hoje. As pessoas pagam para ter a autoestima insuflada, em muitos casos sabendo que o cotidiano vai cuidar de murchá-la novamente. O serviço pelo qual pagam não é um desempenho pedagógico, mas uma atuação de baixo xamanismo.

No fim das contas, não é o clichê de que as pessoas pagam para se sentirem capazes que sobressai, mas o de que é fácil ganhar dinheiro. "Estudem."


* Brincadeirinha.

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