1 de dezembro de 2011

p. 31

Paul jogava continuamente pela janela os tesouros do seu espírito como sua fortuna, mas enquanto sua fortuna rapidamente foi definitivamente jogada pela janela e completamente esgotada, os tesouros do seu espírito eram realmente inesgotáveis: ele os jogava continuamente pela janela e (ao mesmo tempo) eles só faziam crescer e se multiplicar, quanto mais ele jogava os tesouros do seu espírito pela janela (de sua mente), mais eles aumentavam, o que caracteriza pessoas desse tipo, que são primeiro um pouco loucas e que terminam sendo chamadas de completamente alienadas, é que elas jogam cada vez mais, sem descanso, os tesouros de seus espíritos pela janela (de suas mentes) e que, simultaneamente, em suas mentes, os tesouros se multiplicam tão depressa quanto elas os jogam pela janela (de suas mentes). Elas jogam cada vez mais os tesouros pela janela (de suas mentes) e - ao mesmo tempo - em suas mentes há cada vez mais e, naturalmente, cada vez mais ameaçadores e finalmente, jogando assim os tesouros de seus espíritos pela janela (de suas mentes), elas não podem manter a cadência, e suas mentes não podem mais conter todos os tesouros que não param de se multiplicar em suas mentes, e que se acumulam nessas mentes, e essas mentes terminam por explodir. Foi simplesmente assim que a mente de Paul explodiu, porque ele não pôde mais, naquele ritmo, jogar pela janela (de sua mente) todos os tesouros do seu espírito. Foi assim também que a mente de Nietzsche explodiu. Afinal de contas foi assim que todas essas mentes loucas e filosóficas acabaram por explodir: porque não podiam jogar bastante depressa pela janela os tesouros dos seus espíritos.

O sobrinho de Wittgenstein - uma amizade, de Thomas Bernhard (tradução de Ana Maria Scherer). Rocco, Rio de Janeiro, 1992.

Nenhum comentário: