29 de maio de 2012

O Triste Fim de Francisco Santos Miranda


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Eu havia imaginado várias formas do desafiante Frank Mir vencer o campeão Junior Ciganono UFC 146, evento do último sábado, 26 de maio de 2012. Caso Mir vencesse, seria a terceira vez que o cinturão dos pesos pesados ornaria sua cintura. Uma maneira do desafiante levar a melhor seria se seu staff traficasse uma peixeira entre os rounds, para que ele a usasse rapida e cirurgicamente, de forma a não ser flagrado nos replays, na goela do campeão (claro, se ele conseguisse encurtar a distância sem sofrer danos irreversíveis). Outra hipótese seria o uso surpresa de uma AK-47. Eu tenho minhas dúvidas quanto à maneira como Mir faria o walk-incom o lendário fuzil, e minhas dúvidas quanto à eficácia do plano só aumentam quando penso na velocidade das mãos de Junior Cigano. Cigano defenderia cada disparo com um soco, e nocautearia o meliante em seguida. Mir teria de disparar ao soar do gongo, de surpresa mesmo, e, se acertasse, um abraço, Cigano.
Frank Mir entra na arena antes de sua luta contra Junior Cigano no UFC 146
Talvez a única hipótese que desse certo fosse a busca incessante e ininterrupta pela queda.Single-legdouble-leg, carrinho, qualquer coisa. Por que Chico Miranda, depois de um single-legmalsucedido, não insistiu em arrastar o campeão para o chão, onde ele, Mir, é o melhor da categoria? Se eu tivesse alguma habilidade telepática galvão-buênica, diria que Chico Miranda, ao soar do gongo inicial, pensou algo deste tipo: “What the fuck?!”
Parecia que Mir não sabia o que fazer desde o início. Ao contrário de Cigano, que sempre soube o que faria, e fez o que havia prometido: nocaute no segundo round.
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Chico Miranda tem as melhores características que esperamos num artista marcial. Ele é familiarizado com mais de uma arte: wrestling, karatê e jiu-jitsu. Entre os pesos pesados, ele é ograppler mais bem sucedido. Sempre o achei superior a Rodrigo Minotauro neste quesito, por uma óbvia lógica: Mir, vencendo por meio do jiu-jitsu, sempre o fez no início das lutas, de forma precisa – nunca precisou apanhar como nosso Big Nog. É, também entre os pesados, recordista de vitórias e de submissões no UFC. É um exemplo de superação: sofreu um acidente de moto no qual destruiu fêmur e ligamentos do joelho. Os médicos chegaram a afirmar que sua carreira havia terminado. “Senhor Mir, o senhor não poderá lutar mais. Nunca mais.” Mesmo assim, ele voltou, lutou, lutou feio, levou umas surras, não esmoreceu, continuou lutando e reconquistou o cinturão dos pesados, mesmo que interinamente, contra o então vencível mas invulnerável Rodrigo Minotauro.
Mesmo que você não simpatize com Frank Mir, mesmo que você, como eu, não considere legítimo aquele nocaute sobre Big Nog (afinal, Minotauro saiu do hospital direto para o Octógono™), mesmo que Mir, que é um atleta articulado e comunicativo, tenha falado umas bobagens pouco esportivas sobre Brock Lesnar, enfim, mesmo que você não vá com a cara dele, não há como negar que seu discurso pós-vitória sobre Minotauro foi um dos mais bonitos que os fãs do esporte já ouviram. Um dos mais bonitos e, pra mim, o mais inspirador. Naquela noite, Chico Miranda havia superado um traumático acidente automobilístico e vencido um oponente que ele mesmo cognominou de “meu monstro mitológico”. Mir havia finalmente achado a saída do labirinto da depressão onde estava perdido ao vencer Minotauro (a senhora Mir pulando histérica na arquibancada também foi bonito de ver) e, entre lágrimas e soluços, ouvindo o pai dele, o Chico sênior, dizer “Bota tudo pra fora, filho!”, ele discursou:
“Eu enfrentei muitos demônios depois do meu acidente, para poder voltar e enfrentar o melhor peso pesado que já lutou no UFC. E obter uma vitória depois de tudo por que passei apenas mostra, cara… Todos vocês, reparem nas suas vidas! Sempre dizem o que vocês não podem fazer. Eu sou uma prova de que vocês podem realizar [quaisquer] coisas. Nem eu achava que poderia vencer Nogueira. Qual é! [...] Nogueira é um lutador fenomenal. Honestamente, se me perguntassem qual seria a estratégia, eu não teria ideia. [...] Se fosse uma luta curta, eu tenho certeza que sairia perdedor. “Minotauro” é o nome perfeito pra ele. Eu enfrentei meu monstro mitológico. Eu nunca estive tão amedrontado na vida como estive enquanto andava até o ringue hoje à noite.”
Aquilo foi lindo, cara. Lindo.
Porém, e é uma pena escrever isso, Chico Miranda tem um defeito, do qual ele mesmo tem consciência, que pode ser o pior defeito de um lutador. Ele tem medo de porrada.
Não é uma coincidência que todas as derrotas sofridas por Frank Mir tenham sido por nocaute/nocaute técnico. Como isso é possível? A questão não é ter um queixo de vidro, comoAndrei Arlovski, como exemplo, mas um medo congênito de sofrer pancadas. Foi heroica a vitória dele sobre Brock Lesnar porque, pela primeira vez, ele não “arregou” depois de sangrar. Era a segunda luta profissional de Lesnar, ele não tinha a experiência necessária (nem nunca teria durante toda a sua curta carreira), e Mir soube capitalizar essa brecha. O aspecto significativo daquela luta não foi ver Lesnar, um novato, dando trabalho danado a um ex-campeão, mas ver Chico superar a adversidade de ter sofrido um espancamento.
A segunda vez em que Mir mostrou essa resiliência foi contra Minotauro, no UFC 140, uma edição chocante até para quem acompanha o esporte de perto. Naquele evento, Rogério Minotouro massacrou Tito Ortiz, nocauteando o “People’s Champ” com golpes no corpo – parecia que um humano enfurecido castigava seu animal de estimação por ter feito xixi no lugar errado. Jon Jones guilhotinou Lyoto Machida, em pé, até o sono profundo, e saiu andando, indiferente, sem nem ver o brasileiro desabando no chão como um saco de batatas. Frank Mir imobilizou Rodrigo Minotauro com uma kimura, um golpe cujo desenlace foi um úmero quebrado.
Chico Miranda, o primeiro a nocautear e finalizar Rodrigo Minotauro. Contudo, para ambas as ocasiões, há argumentos que atenuam o mérito de Frank Mir. Para o nocaute, Minotauro estava hospitalizado antes da luta, uma semana numa cama de hospital, da qual saiu para enfrentar Mir seis dias depois. Para a finalização, Minotauro errou. Minotauro havia acertado Mir e o levou aknockdown. Minotauro estava, como todos nós convencionamos dizer, a dois socos de um nocaute técnico sobre um oponente zonzo quando resolveu finalizar um faixa-preta de Ricardo Pires. A partir deste ponto, foram segundos intermináveis de uma reviravolta imprevista e improvável, que culminaram em ossos quebrados e muita tristeza.
A verdade é que Francisco Santos Miranda III é o melhor jiu-jitsu dos pesos pesados.
Quando Chico Miranda foi promovido a desafiante de cinturão, a certeza de que Cigano seria o vencedor foi íntima de todos os brasileiros e da maioria dos fãs mundo afora. Eu mesmo não achava possível que ele vencesse o campeão, senão pelas hipóteses elencadas no primeiro parágrafo. Seria necessário apenas que uma mãozada de Cigano conectasse para o fim da luta começar. Parece um menosprezo às habilidades do Chico, mas, no fundo, não é. Mesmo que Cigano tenha incógnitas em seu jogo (como é que Cigano se comporta de costas pro chão? Ninguém sabe.), para desvendá-las seria necessário encurtar a distância e encostar nele – e isso, amigos do MMA Brasil, é uma tarefa complicada. A luta começa em pé e o campeão é um bípede esperto. A probabilidade de vitória do desafiante era mínima.
O que resta a Frank Mir, um peso pesado de 33 anos? Ele é um Top 10 perene, um eterno possível desafiante – ele está sempre ali na cabeça do pelotão. Assim como Jon Jones no UFC 145, Frank Mir foi patrocinado pelo seu próprio empregador no último sábado – ele é da casa, mesmo. Ele tem emprego e carreira seguros, mas talvez tenha chegado pra ele aquele momento complicado na carreira de um artista marcial misto, aquela hora de reconhecer que não faz mais parte da elite da elite, que a disputa do cinturão não é mais uma realidade. Aquele momento quando o lutador agora luta para administrar um legado (o que é ótimo) e não para ser o número um.
Talvez tenha chegado a hora de Chico Miranda se juntar a Fedor Emelianenko, Rodrigo Minotauro e outros.
Talvez ele me prove errado e seja campeão novamente.
Foto: Donald Miralle/Zuffa LLC

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