4 de junho de 2012

p. 116

A miséria de um jovem nunca é miserável. Qualquer jovem, por mais pobre que seja, com sua saúde, sua força, seus passos firmes, seus olhos brilhantes, com o sangue a ferver-lhe nas veias, os cabelos negros, as faces frescas, os lábios rosados, os dentes brancos, o hálito puro, fará sempre inveja a qualquer velho imperador. Além disso, cada manhã ele recomeça a trabalhar para ganhar o pão; e, enquanto suas mãos ganham o pão, sua espinha dorsal ganha altivez, seu cérebro ganha ideias. Terminado o trabalho, volta aos êxtases inefáveis, à contemplação, à alegria; ele vive com os pés nas aflições, nos obstáculos, na pedra dura, nos espinhos, às vezes até na lama; mas a cabeça está sempre cercada de luz. É decidido, sereno, calmo, tranquilo, atento, sério, contenta-se com pouca coisa, é benévolo e agradece a Deus por lhe ter dado essas duas riquezas que faltam a muitos ricos: o trabalho que o liberta e o pensamento que o dignifica. 

Os miseráveis, volume II, p. 116. Victor Hugo jogando a real,  falando o que importa.

(Tradução de Frederico Ozanam Pessoa de Barros.)

Nenhum comentário: