5 de novembro de 2012

Reflexões sobre o UFC 153 - Parte I

Publiquei primeiro no MMA Brasil.

Anderson Silva teve sua performance mais Anderson Silva no UFC 153. Um desempenho tecnicamente impecável, um desfile indiferente ao adversário, sobre a linha sensível que separa o desrespeito esportivo da arte atlética. Foi incrível.
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Todo o evento, também conhecido como UFC Rio 3, foi íncrivel. Talvez tenha sido a melhor edição nacional do UFC, não só pelas lutas emocionantes como também pelas implicações que cada luta do card principal teve em suas respectivas categorias. A luta que abriu a metade principal do evento, Demian Maia versus Rick Story, alterou a organização do pelotão principal dos meio-médios. Maia foi um desafiante na categoria de cima, os médios, mesmo que de forma acidental e desastrosa (falarei um pouco sobre isso na segunda parte desta coluna), e sua carreira estava no soro desde o nocaute sofrido para Nate Marquardt. Aquele nocaute aconteceu em agosto de 2009; àquela época Marquardt era o segundo melhor peso médio do planeta. Mas agora Maia ressuscitou, noutra categoria, estrangulando Rick Story. “Estrangular” não é o termo que nós, cronistas esportivos, costumamos usar, mas serve perfeitamente neste caso. Maia levou Story, um wrestler, ao chão, e o dominou completamente, para estrangulá-lo numa espécie de esgana-galo que entortou o pescoço de Story e fez o nariz do americano espirrar sangue. Um Demian Maia vintage, como não víamos desde o triângulo que aplicou em Chael Sonnen.
A segunda luta do card principal serviu para mostrar que Phil Davis ainda pertence ao Top 10 dos meio-pesados, mesmo que seu adversário, Wagner Caldeirão, ainda estivesse muito verde para ele. O coração de Caldeirão não foi suficiente para todos os músculos de Davis, que o controlou no chão com a autoridade do seu pedigree de wrestler tetracampeão norte-americano. No segundo round, Davis submeteu Caldeirão com uma anaconda, a mesma finalização que usou contra outra estrela dos meio-pesados, o sueco Alexander Gustafsson. Outro feito interessante de Davis, não à toa conhecido por Mister Wonderful, foi ter conquistado a simpatia do público presente na HSBC Arena. Os cariocas gostaram do shortinho rosa dele.
Jon Fitch versus Erick Silva foi a terceira luta da noite, que em breve terá uma coluna exclusiva. Por isso vamos pular para a quarta luta do card principal, entre os meio-pesadosGlover Teixeira e Fabio Maldonado.
Os meio-pesados são uma categoria que parece viver o drama que os meio-médios viviam há pouco tempo, um drama que o MMA Brasil já havia abordado. Se, há algo próximo a dois anos, o problema dos meio-médios eraGeorges St-Pierre, porque estava muito à frente de oponentes muito bons e nivelados entre si, o mesmo, ou coisa semelhante, podemos dizer dos meio-pesados. Jon Jones tem trucidado a todos em seu peso, mas como este peso se comportaria sem a presença dele? Gustafsson, Davis, Maurício ShogunLyoto MachidaRashad Evans, Chael Sonnen (este ainda a conferir), Dan Henderson, Te Huna (talvez) e, agora, Glover Teixeira. Teixeira e Fabio Maldonado fizeram um luta sem perdedores no último sábado. Teixeira massacrou Maldonado com a mesma superioridade que atropelou Kyle Kingsbury em sua estreia no UFC, aguardada desde 2007. O único problema na frente de Teixeira foi, veja você, o mesmo Maldonado, um homem inquebrável, incansável, insuperável. Teixeira não está longe de uma disputa de cinturão. Maldonado não está no mesmo nível dos meio-pesados que citei, mas, ao mesmo tempo, é como se ele estivesse muito além. Difícil de explicar.
Depois de Teixeira versus Maldonado, com toda aquela sensação confusa de não torcer para ninguém e para os dois ao mesmo tempo, chegou a luta que testaria todos os corações brasileiros, Rodrigo Minotauro versus Dave Herman. A torcida nacional já estava decidida, mas o problema da ambiguidade, não. A gente sempre acha (perdão, Big Nog) que Minotauro vai perder, mas é preciso estar morto e enterrado (ou nem isso, vai saber) para não torcer, gritar, perder o juízo, socar a parede e ingerir todo tipo de calmante possível durante uma luta dele. Na verdade, eu não sei como seria possível não gostar do Minotauro. Ele tem aquele carisma à Quasímodo, o gigante indestrutível de bom coração. Além do mais, ele é sempre um exemplo motivacional, cuja vida, dentro e fora dos ringues, serve de inspiração. Ainda bem que Minotauro conseguiu submeter Herman e matar a saudade de finalizar um adversário (saudade esta que lhe custou um úmero quebrado em sua última luta, porque Frank Mir, mesmo estando a dois socos e um cascudo de sofrer um nocaute técnico, conseguiu reverter uma derrota iminente e pespegar seu jiu-jítsu em Big Nog). Mas o que eu mais gostei na luta foi ver como ele permanece destemido, e nada mais empolgante que um lutador destemido, ou imprudente. Outra vez Minotauro encarava um oponente mais jovem, mais rápido, mais forte, mais alto, o mesmo cenário do UFC Rio I, quando enfrentou e nocauteou Brendan Schaub, e o homem, que parecia fora de forma e dispunha de um braço todo remendado, mais uma vez foi pra cima, avançou, atacou, ditou o ritmo da luta, sofreu quedas mas conseguiu knock-downs e levou todo mundo à euforia quando imobilizou Herman no segundo round.
Eu adoro Minotauro. O homem tem lutado corajosamente desde sempre, sempre avançando, aceitando porrada, revidando, caindo e se reerguendo uma vez atrás da outra. Eu não me recordo de tê-lo visto “amarrando” um combate, “administrando” um resultado, “acusando” um golpe. Minotauro tem a raça do predador autoindulgente. Ele não sabe chutar, nem alto nem baixo. Ele não sabe quedar direito, a não ser quando puxa para guarda. Ele sabe boxear, mas a defesa de boxe dele não é um primor. Ele é craque no jiu-jítsu, mas insiste em usá-lo muito depois de sofrer algum castigo  – o que também mostra que ele não é um estrategista ponderado. Além de tudo, ainda há os problemas de saúde ortopédica que não o deixam em paz. No fim das contas, ele é bem limitado. Mesmo assim, Nogueira é inacreditavelmente maravilhoso. Muito antes de o esporte ser socialmente aceitável por aqui e muito antes de existir a campanha conscientizadora (e bem-vinda) “Eu sou brasileiro e não desisto nunca”, Minotauro já era a personificação deste lema. Um herói nacional de verdade, de carisma genuíno e de coração invulnerável.

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