5 de novembro de 2012

Reflexões sobre o UFC 153 - Parte II


Anderson Silva se ofereceu para desfilar no UFC Rio 3. Ele só queria aparecer e se exibir para salvar um evento amaldiçoado por contusões. Um gesto solidário a seus patrões. O adversário de Anderson, Stephan Bonnar, pelo contrário, foi convidado para uma luta. Anderson, contudo, estava muito ocupado consigo mesmo no Octógono™ montado na HSBC Arena, na Barra da Tijuca, e não pode dar o tipo de atenção que Bonnar queria. Bonnar se machucou bastante por causa disso.
Machucar-se pode ser uma das características mais marcantes de Stephan Bonnar, porque ele costuma se machucar em combate, mas, como um bom brasileiro de propaganda, ele não desiste nunca. Até aquele 13 de outubro de 2012, Bonnar nunca havia sido finalizado, por submissão ou nocaute, e ele lutou com alguns bons no passado. Rashad Evans não conseguiu adormecê-lo, nem o prodígio Jon Jones, com todos os seus catorze cotovelos. Mesmo assim, nestes e noutros combates, ele se machucou bastante. No papel, seu único e deliberadamente ignorado nocaute técnico foi para Lyoto Machida, no distante Jungle Fight 1, em 2003. Bonnar foi cortado no rosto, ainda no primeiro round, por Lyoto, um corte sobre o músculo maxilar, que fez sua bochecha jorrar sangue, embora o homem por trás dela estivesse inteiro e pouco se importasse. Eu questiono se a decisão médica de interromper a luta e conferir um nocaute técnico a Machida foi pertinente. Não só eu. Mas enfim, o que eu quero dizer são duas coisas: 1) que Bonnar era uma parede espessa de concreto, coberta por um reboco frágil – rachava fácil, mas era impossível de ser demolida; e 2) tristemente, esta era a única coisa que ele poderia oferecer a Anderson Silva. Ele nada tinha a oferecer contra Anderson.
Silva versus Bonnar foi um combate interessante por motivos extraoctogonais. Stephan Bonnar é corresponsável por ter feito o UFC ser o que é hoje. O outro responsável é Forrest Griffin. Eles foram os finalistas da temporada inaugural do The Ultimate Fighter e fizeram uma luta histórica. Uma luta à qual o adjetivo histórica faz todo sentido, porque não só foi uma luta incrível, com muita ação, sangue e desespero, como também porque alterou a realidade imediata do esporte. Enquanto a luta acontecia, os índices de audiência cresciam. A pancadaria televisiva entre Bonnar e Griffin atraiu mais telespectadores em tempo real, e a partir deste dia, 9 de abril de 2005, o UFC, que então estava na pior, não parou mais de crescer. Aquela luta é histórica.
De forma estranha mas, ainda assim, lógica, é possível dizer que não haveria Anderson Silva, ou pelo menos ele não seria popular, se não houvesse existido Bonnar versus Griffin. Porque em 9 de abril de 2005, Anderson vinha de sua última derrota legítima para Ruy Chonan, no Pride Shockwave de dezembro de 2004, e se preparava para defender seu cinturão de campeão dos médios do extinto e escroto Cage Rage, contra Jorge Rivera, no dia trinta daquele abril. Ou seja, embora Anderson estivesse concluindo seu estágio de dez mil horas para ser gênio, ele estava numa zona fantasma: o Pride em pouco tempo começaria a ruir, o Cage Rage jamais cresceria e o UFC enfrentava problemas financeiras graves (dos quais, grosso modo, a luta Bonnar versus Griffin o livrou). Anderson era um lutador derrotado num período em que os grandes eventos de MMA sofriam um contínuo knock-down. Bonnar versus Griffin foi o combate que colocou a popularização do UFC e, por consequência, do esporte em movimento. Sem isso, Anderson não teria um palco tão grandioso.
Pois bem, Bonnar se encontrou com Anderson dentro do Octógono™,  já num universo totalmente diferente daquele em que ambos viviam em abril de 2005. Bonnar tentou, à maneira dele, lutar contra Anderson. Fez o que se espera que façam contra Anderson, como bem ensinou o adorável caricato Chael Sonnen: pressão, pressão, pressão. Encurtar distâncias, eliminar espaços, restringir movimentos (de Anderson), pressão. Não deu certo, você viu.  Bonnar, que é suicida e todos nós o adoramos por isso, tentou trocar com Anderson. Seria melhor se ele quisesse correr atrás de Usain Bolt. Ele até tentou um chute rodado contra Anderson, que estava encostado na grade, por vontade própria, mas o chute foi… Foi legal, e Anderson pode observá-lo com muita precisão, já que estava cinco segundos adiantado e quatro metros afastado. Então Bonnar tentou quedar Anderson, também não deu certo. Partiram (“partiram”) novamente para trocação, Anderson permitiu. Não funcionou. A não ser profissionalismo e um bom bronzeado carioca, nada que Bonnar exibiu na jaula funcionou. Nem sua lendária resistência a castigos: sofreu o primeiro nocaute técnico legítimo da carreira por uma joelhada que Anderson lhe aplicou no plexo solar. Uma única joelhada.
Anderson Silva é um atleta espetacular, embora seja, digamos, um ídolo fabricado. Nem um bom moço convincente (Georges St-PierreRodrigo Minotauro, Chris Lytle), nem um bad boyassumido (Tito Ortiz, o antigo Wanderlei Silva, Charles Bennett).  Depois de alguns fiascos, como o UFC 97, quando ele defendeu o cinturão contra Thales Leites, e o UFC 112, quando ele não soube desfilar contra Demian Maia, estava na cara que ele precisava de um assessoramento sério. As posteriores desculpas que Anderson e equipe deram para o desempenho do campeão em ambas aquelas ocasiões não convenceram ninguém com um mínimo de juízo. O esporte está crescendo muito rápido e se popularizando demais, quaisquer tolerâncias, por parte da Zuffa, com faltas de profissionalismo podem sujar a imagem da empresa no presente e abrir precedentes perigosos para o futuro, sobretudo se estas faltas vêm de um dos campeões da organização. Patrocínios mainstream e exibições na tevê aberta exigem outro tipo de comportamento, um jeito mais GSP de ser, que é como quem Anderson tem se comportado ultimamente, desde que a 9ine entrou na onda. Os brasileiros têm conhecido e gostado deste novo ídolo. (Mas Anderson escorregou recentemente. Disse que não finalizou Thales Leites por ser amigo dele, o que a equipe de Thales, por meio do seu líder, André Pederneiras, contradisse, dizendo que nunca foram amigos e que isso é conversa.)
Eu não importo muito com o status de ídolo fabricado do Aranha, porque dentro do Octógono™, quando ele entra para lutar, eu vejo o melhor do planeta, um gênio do esporte. O que Roland Barthes disse do estilo do toureiro serve para a maneira como Anderson Silva luta: estilo “é fazer de um ato difícil um gesto gracioso, é introduzir ritmo na fatalidade. É ser corajoso sem desordem, é dar ao que é necessário a aparência de liberdade.” Esta última luta contra Bonnar foi o seu desempenho mais Anderson Silva, mais “aracnídeo”. Um pouco mais daquilo seria antidesportivo, um pouco menos seria estranho. Não foi um desempenho tão plástico como foi contra Forrest Griffin, no UFC 101, nem tão resoluto como foi contra Yushin Okami, no UFC Rio 1. Foi um combate meio feio, pela pobreza de golpes, meio histriônico, pela maneira como Anderson brincou com Bonnar. Mesmo assim, ou por isso mesmo, foi incrível.

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