5 de novembro de 2012

Reflexões sobre o UFC 153 - Parte III

Publiquei primeiro no MMA Brasil.

Esses meios-médios são muito complicados. Pareceu por um tempo que eles haviam se acalmado, que as coisas por aquele peso estavam estáveis e monótonas, mas foi só um intervalo, um longo intervalo, que corresponde, “coincidentemente”, ao período em que Georges St-Pierre estava fora de ação e Jon Fitch estava numa maré de azar. Esta divisão nunca vai se resolver enquanto esses dois caras estiverem à solta, e é possível que nunca se resolva, porque o equilíbrio entre os competidores desta divisão, dentro do UFC, é maior do que nas outras. Talvez só os leves rivalizem com eles em termos de complicação.
Hoje, enquanto você lê este texto, estamos num momento muito curioso para os meios-médios. Há pouco tempo a bolsa de valores da divisão teve um dia muito agitado, no UFC 153, quando o valor de mercado de Fitch voltou a subir e a valorização de Erick Silva desacelerou; e daqui a pouco GSP e Carlos Condit vão novamente bagunçar as finanças da categoria.
Erick Silva ainda ocupa o lugar promissor que Glover Teixeira ocupa entre os meios-pesados e Chris Weidman entre os médios. Ele é a novidade das 170 libras e o primeiro brasileiro com chances neste peso. Competindo, temos Paulo Thiago e Thiago Alves, e Alves já chegou a disputar o cinturão de GSP, mas Erick tem mais a oferecer que esses dois. Erick é o pacote completo: é muito forte e grande, tem mãos pesadas, é habilidoso em pé e no chão, e tem, digamos, estilo. Guarda baixa, gingados e chutes extravagantes – ele até tentou um mae tobi geri em Fitch, mas não sei se foi à vera. Ele tem andado muito com aquele pessoal, Anderson Silva e Lyoto Machida. Além de tudo, Erick ainda tem aquela mistura de confiança e displicência típica dos lutadores talentosos em ascensão. O mercado estava muito certo em apostar nele.
O único problema de Erick era Jon Fitch. Às vezes eu acho que é mais fácil engolir a seco um ouriço-caixeiro do que enfrentar Jon Fitch. Claro, ele foi nocauteado (quem nunca?) por Johny Hendricks, e deve haver alguma desculpa bem brasileira para ele ter empatado com BJ Penn. BJ Penn conseguiu o milagre de quedá-lo duas vezes. Mas mesmo assim, Fitch é Fitch. Ele aguenta pancada, sabe bater, sabe quedar e é o melhor wrestler-jiujitsoka do esporte, melhor que Jake Shields (Demian Maia parece estar fazendo o caminho inverso, um jiujitsoka-wrestler). É uma comparação ousada, porque é entre um traço específico do jogo de Fitch e do de Shields. Ambos são wrestlers de origem e incorporaram o jiu-jitsu depois de conhecer o MMA, Shields sob Cesar Gracie, Fitch sob Dave Camarillo. Fitch fez melhor a transição, e é melhor em tudo que os demais meios-médios. Exceto, é claro, por GSP.
Fitch é motivo constante de debate, é o lutador mencionado quando a questão esporte versus espetáculo aparece. Esta questão reapareceu com força agora e tem sido mencionada por nossos leitores, tanto no fórum quanto nos comentários às nossas matérias, porque, duas categorias acima, o próximo desafiante dos meios-pesados é Chael Sonnen. Sonnen e o campeão Jon Jones serão os técnicos da décima sétima edição do Ultimate Fighter e lutarão, provavelmente, em abril de 2013. Sonnen, que eu adoro, só conseguiu esta oportunidade por qualidades extraoctogonais. Ótimo atleta, mas isto não foi o determinante em sua escolha como desafiante. O que determinou foi a retórica excêntrica dele. Escalar qualquer outro meio-pesado vindo de vitória seria esportivamente melhor, seria justo. Gustaffson, Shogun, Machida, Glover ou Dan Henderson, que já havia sido escalado para lutar contra Jones. Vitor Belfort lutou contra Jones e este casamento fez mais sentido, esportivamente, que Sonnen versus Jones. Mas precisamos reconhecer uma coisa: Sonnen, na tevê, instruindo um bando de brucutus e rivalizando com o afetadíssimo Jon Jones, deve ser uma joia televisiva imperdível, do quilate do seu reality show predileto, seja ele qual for. Então, é esporte ou espetáculo?
Como foi dito aqui no MMA Brasil, noutra ocasião, Jon Fitch é lutador que mais sente na pele este problema. Ele precisou de oito vitórias (oito) para disputar a cinta de GSP, no UFC 87, em 2008. Recebeu, pela primeira vez, o prêmio de luta da noite pela surra que levou de GSP, mas não foi à lona. Depois desta derrota, venceu cinco vezes (cinco) seguidas. Isso não é suficiente para disputar o cinturão novamente? Entre Dan Hardy e Jon Fitch, quem, pela ótica do esporte, mereceria a disputa ao título? Hardy ganhou o direito à disputa, tendo quatro vitórias pregressas, dentro do UFC, que o qualificassem, das quais apenas uma foi por nocaute técnico. Enquanto Fitch tinha cinco, todas por decisão unânime (Hardy tinha duas decisões divididas e uma unânime, aliás). O casamento de lutas, sobretudo as que valem cinturão, levam em conta os fatores espetáculo e negócio. Hardy era mais uma maneira de o UFC penetrar no Reino Unido que um desafiante perigoso. Thiago Alves era mais perigoso.
Fitch foi injustiçado. Contra ele pesava a sequência de vitórias desinteressantes. Mas veja uma coisa: nenhuma luta de Fitch se compara a Jake Shields versus Martin Kampmann, no UFC 121, e Shields conseguiu o direito à disputa com esta vitória.
Há a questão do carisma também. Carisma é uma coisa importante no crescimento do esporte porque é uma maneira dos fãs neófitos se conectarem emocionalmente ao UFC. GSP é muito valioso neste quesito, sobretudo porque pratica o discurso antibullying, uma bandeira valiosa e fidedigna hoje em dia. GSP é o único campeão do UFC, hoje, carismático. Uma pena para Fitch. (Renata Aymoré, nossa colega de equipe, vê, sim, carisma e charme em Jon Fitch. Ouça nossospodcasts para confirmar.)
A maré de azar de Fitch passou e ele, na HSBC Arena, desfez o nó do problema esporte versus espetáculo. O próprio Fitch já havia afirmado em entrevistas que uma mudança de atitude intraoctógono estava a caminho. Como vimos contra o ascendente Erick Silva, Fitch foi soberbo. Erick era maior, dava para ver, e mais versátil, como pudemos comparar. Mas Fitch foi melhor. Em tudo. A luta foi incrível, a primeira vez que Fitch compartilha o prêmio de luta da noite por uma vitória e a segunda vez que recebe o prêmio. Se Fitch, sendo “amarrão”, já era o número dois do peso, imagine agora, depois de ter mudado um pouco de filosofia. Durante toda a luta contra Erick, Fitch foi absurdo. Os próprios problemas que Erick impôs a ele nos ajudaram a perceber o quão Fitch está disposto a lutar pela cinta. Aquela troca de mata-leões no segundoround, uma arenga de vida ou morte por um estrangulamento é sempre legal de ver nos filmes, aquela troca sinalizou este “novo” Fitch. Implacável e menos administrativo. Erick também tentou guilhotina-lo. Sem sucesso, não há como submeter Fitch. No terceiro round, só deu Fitch. Ele quebrou nosso rapaz.
Por fim, o apelido de “amarrão” que dão a Fitch acaba sendo, veja você, antiesportivo. Quando eu penso em “amarrar a luta” eu lembro de Anderson Silva versus Thales Leites. Ambos amarraram a luta. Quando eu penso em “amarrar a luta”, eu lembro de GSP versus Jake Shields. Nestes dois exemplos, os quatro lutadores, sobretudo Silva e Leites, amarraram a luta, e ninguém exercia controle claro sobre ninguém. Todos eles foram um pouco antiesportivos, não-inspiradores e chatos de ver. Fitch pode ser chato de ver, ênfase em “pode”, mas, esportivamente, eu não sei se cabe chamá-lo de “amarrão”. Quedar o adversário e exercer totalcontrole sobre ele no chão, além de lhe dar umas porradas, é ser “amarrão” ou ser inquestionavelmente superior? É melhor fazer um rola com um rinoceronte do que ir ao solo com Jon Fitch.

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