30 de janeiro de 2013

Conversação

© E. M. Newman/National Geographic Society/Corbis

Os principais vícios que estragam a conversação, segundo Jonathan Swift, seguidos por breves comentários meus:

01. desatenção;
O pior de todos os vícios, talvez um dos que eu mais aparente ter. Mas eu não tenho, eu presto atenção ao meu parceiro de dança. Porque conversar é dançar, é uma coisa que pertence aos dois, aos três, aos tantos que conversam, que se revezam, ou devem se revezar, no comando da coreografia.

02. o hábito de interromper e de falar de vários [assuntos] ao mesmo tempo;
Péssimo. É particularmente desgastante para quem gosta de seguir o fio da meada, porque ouvir o falante se interromper consecutivas vezes é pior do que ser interrompido. Quando interrompido, se fizer questão de prosseguir o assunto, posso, com um grau moderado de autoridade, retomar o ponto em que fui parado. O problema é ouvir a pessoa se interromper, porque fico na esperança de que estas interrupções, que acabam abrindo mais abas no browser da conversa, colaborem com o assunto, e elas nunca colaboram.

03. o afã exagerado de mostrar espírito;
Acontece com os novatos em panelinhas, e em quase todas as conversas abertas da Internet, sobretudo no Twitter.

04. o egoísmo;
Autoexplicativo.

05. o despotismo ou espírito de dominação;
Dominar a conversa é matar a conversa. Conversa é recíproca. Quando uma pessoa se destaca numa conversa e a guia por mais tempo que os demais parceiros, não é exatamente porque a tal pessoa dominou os colegas, mas porque os colegas permitiram, tacitamente, que o assunto os dominasse.

06. o pedantismo;
O caminho mais rápído, um dos mais rápidos, na verdade, para, quando ausente, ser a piada das rodinhas de conversa. Geralmente piadas de fim ou início de tópicos. "Fulano de Tal é quem entende de vinho", um diz, todos riem, e o assunto passa a ser vinho; e, antes que o tópico mude de vinhos para qualquer outra coisa, o fim imprevisto e involuntário do assunto se dará por outra piada sobre o pedante. Então muda-se o tópico, e a dança continua.

07. a falta de continuidade na conversação;
Pode parecer com o vício número 2, mas diferente dele por haver apenas a interrupção, sem desdobramentos, tanto alheios quanto correlatos ao assunto que até então era tratado. A falta de continuidade é geralmente promovida por parceiros monossilábicos, uma gente inábil que pode ou não precisar de um pouco de coragem líquida. Vinho, ou vodka, por exemplo. Este é um vício próprio de quem não tem talento nem para ouvinte nem para falante.

08. o espírito de pilhéria;
Este é o vício do mau piadista. O bom piadista interrompe a conversa para contribuir, o bom piadista interrompe a conversa sem que sua fala seja vista como interrupção. Acima de tudo, o bom piadista vai zoar  ou com o assunto, ou consigo mesmo, ou, mais importante, com um dos conversadores, e mesmo assim todos o adorarão. O mau piadista é o oposto disso tudo. O talento do bom piadista é intrínseco, inexplicável.

09. o espírito de disputa;
É quando uma altercação velada começa a tremer as placas tectônicas da conversa, geralmente uma altercação promovida por desafetos. Péssima vibe, bróder.

10. a disputa;
Para quem está fora da disputa, se a tsunami do vício anterior não foi evitada e de fato as coisas chegaram ao de fato, o melhor é deixar rolar e rir às custas de quem debate. Para quem está dentro... bem, você não deveria estar dentro. É deselegante.

11. a conversação particular em substituição à conversação geral.
A conversação particular só deve ser mantida por pouco tempo. Se entre os conversadores particulares não houver o desejo de compartilhar a conversa, ela deverá ser ainda mais breve. Se os conversadores particulares estiverem a fazer pilhéria dos próprios parceiros de conversa, eles não são dignos de participar da conversa. Se os conversadores particulares forem educadamente observados de que aquela, digamos, privacidade não está sendo de bom tom e mesmo assim prosseguirem conversando particularmente, eles deverão ser segregados da conversa geral irremediavelmente.


PS: Cada item deste foi abordado com mais paciência e fluidez por André Morellet. Ele escreveu um livro, chamado Sobre a conversação (Martins Fontes, 2002 [1996], 100 págs., tradução de Maria Ermantina Galvão), do qual cada "capítulo" (o livro é curtinho) é um destes onze itens. Recomendo.

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