30 de janeiro de 2013

Superficiais

Publiquei primeiro no Digestivo Cultural.

Uma das assinaturas que sempre visito no meu Google Reader é o sublime English Russia. O site é alimentado pelos leitores, que enviam fotos e vídeos do maravilhoso mundo russo: usinas nucleares abandonadas, cidades fantasmas, raposas siberianas em caça, imensas fábricas de sal, festas de mergulho em lagos congelados; o cotidiano de usinas nucleares, a catástrofe de Chernobyl; extração de caviar, casas de madeira, ferros velhos de helicópteros; hospitais abandonados, instalações das forças armadas russas, radares abandonados, o cotidiano dos soviéticos em 1960; a construção do teatro de Novosibirsk, abrigos nucleares, a primavera no Kazaquistão, o museu de cera em São Petersburgo; áreas de testes nucleares, a ciência médica soviética da década de 1970, uma colina que pega fogo sozinha, enfim, muitas estranhices e muitas coisas envolvendo outras coisas "abandonadas", "nucleares" e "militares".

Sempre que visito o site, não importa em que link eu clique, acho que é de uma terra que não existe, de um universo paralelo, do futuro de um passado sonhado por um adolescente hormonal e entorpecido, uma realidade mais hipotética que as do blog Paleofuture (um acervo de paleologia futurista, coleções do futuro como imaginado antigamente), numa geografia tão inédita quanto qualquer uma documentada pelo Atlas Obscura (outro acervo, mas de localidades peculiares e reais de todo o planeta). No English Russia, tudo é mais, todo traço de aceitabilidade e adequação, social ou individual, é ignorado e quase todas as leis da física são desafiadas. É maravilhoso. É como se uma nação houvesse sido criada do dia para noite por alienígenas desmemoriados e indiferentes à maneira como os demais humanos têm vivido nos últimos milênios, e esta nação criada não quer nada senão viver numa boa, na tranquilidade do seu cotidiano. Claro, os tais alienígenas estavam sob o efeito de alguma droga emancipadora da consciência quando de sua brincadeira demiúrgica.

Esta é a Rússia que aparece no site. Ela é um recorte feito pelos leitores, um recorte coletivo. Como o site é atualizado constantemente, às vezes com mais de um link por dia, é de se imaginar que esta Rússia caricatural seja um sonho lúcido (e apaixonante) de milhares de insanos conectados à Internet, um sonho habitado por gente incrível, feliz e idiota. Eu adoro esta Rússia.

O Google Reader é minha fonte de leituras virtuais. Minha conta tem apenas 64 inscrições, um número que considero baixo; mas, de acordo com meu temperamento ruminante, poucas assinaturas me garantem um passeio virtual tranquilo. É bem diferente do que experimento quando acesso Facebook ou Twitter, tanto um quanto outro um grande aperreio, onde coluna social e noticiário se misturam inextrincavelmente.

Este número reduzido de assinaturas também é uma maneira de me proteger da superficialidade, como mais ou menos a definiu Nicholas Carr, no soberbo A Geração Superficial (Agir, 2011, 311 págs., tradução de Mônica Gagliotti Fortunato Friaça).

O livro de Carr nasceu de um artigo que ele escreveu, em 2008, para a revista The Atlantic. Lembro de ter lido o artigo naquele mesmo ano, pelo site da revista. Gostei tanto que procurei por ela em todas as bancas aqui do interior (Brasília), e a achei, milagrosamente. Ainda hoje eu a tenho, mesmo que perdida em algum lugar, em alguma caixa (por conta de uma recente mudança de residência). O famoso artigo se chama "Is Google Making Us Stupid?". Talvez, sim, o Google esteja nos emburrecendo. Não só o Google, mas o próprio o uso da Internet, só que aí não seria exatamente culpa do Google. A questão é que a cultura de hoje não demanda a concentração contínua, mas a fragmentada, se é que é possível isso de concentração fragmentada. Há quem chame isso de multitasking. Enfim, o livro do Carr afirma que esta atenção polivalente é prejudicial (estou resumindo drasticamente todo o livro). É claro que o livro pode ser facilmente classificado como "ludista", de que este é um argumento contra o uso da Internet, isso e aquilo, mas "ludista" é um argumento igualmente fácil de ignorar.

Há algo mais em jogo neste problema da concentração versus Internet, algo físico, intrínseco e fundamental: o cérebro do ser humano. Nós já sabemos que matéria (cérebro) e pensamento estão ligados um ao outro de maneira tão, digamos, figadal, que é possível dizer que são a mesma coisa. Há muitas leituras cerebrais em voga atualmente, que nos têm familiarizado com neurologia e psicologia cognitiva. Steven Pinker, o grande cientista popular, cujos livros O Instinto da Linguagem e Tabula Rasa são ideais para compreender o cérebro como órgão de brilho inato, além de belamente escritos. Malcolm Gladwell, o contador de histórias (de quem Pinker não gosta) que conta, sim, coisas interessantes - seu Outliers - Foras de série, embora use todas as formulinhas manjadas que fizeram de Gladwell um best-seller, é um argumento poderoso em favor do lema aristotélico "hábito é excelência", e popularizou a hoje famosa teoria das dez mil horas. Joshua Foer, o jornalista científico que escreveu o rico e divertido Moonwalking with Einstein (me nego a usar o título do livro traduzido por aqui), sobre os poderes, usos e mecanismos da memória. Andrew Solomon, autor do magnífico e transformador O Demônio do Meio-Dia, um dos livros mais poderosos que já li, um relato pessoal, erudito e abrangente sobre a depressão. Há mais leituras que tratam do cérebro, sob outros aspectos, gente que eu não li ainda, como o nosso Miguel Nicolelis e o anjo caído Jonah Lehrer. O que toda essa gente diz igual, inclusive Carr, é que o que você pensa e como você pensa define a maneira como seu cérebro se constitui neuroquimicamente (a neurociência de hoje resumida numa sentença com menos de 140 caracteres). O uso constante da Internet está alterando a própria estrutura do nosso cérebro e nossa maneira de pensar, nos tornando mais imediatistas, mais rasos, mais superficiais, incapazes de nos dedicar à leitura contínua de um livro, ou qualquer esforço mental contínuo e isolado. Este é um dos argumentos mais simpáticos do livro: o uso da Internet nos tem tirado a capacidade da leitura, uma perda que poderá ser irreversível. Não só da leitura, mas toda capacidade de atenção contínua.

Claro, há um tom apocalíptico nesta afirmação, algo exagerado, mas provido de fundamento, que é a neuroplasticidade (que também foi tratada pelos autores, os que li, citados acima, mas nem sempre pelo nome). Ela é como o cérebro se reestrutura de acordo com a maneira como o usamos, e por estrutura cerebral entenda redes neurais, com todos aqueles nomes que estudamos e esquecemos no ensino médio. O cérebro não é um órgão estático, ele se altera com o tempo, de acordo com os hábitos - e ele gosta de se habituar.

A tal neuroplasticidade, embora forneça "a todos nós uma flexibilidade mental, uma elasticidade intelectual que nos permite adaptarmo-nos a novas situações, aprender novas habilidades e expandir nossos horizontes de modo geral", "ela também impõe a sua própria forma de determinismo ao nosso comportamento. Quando circuitos particulares do nosso cérebro se fortalecem através da repetição de uma atividade física ou mental, eles começam a transformar essa atividade em um hábito". Ou seja, se você passa muito tempo sentado em frente às redes sociais, ligado nas SMS's que chegam no celular e na novela que passa na tevê, mais você vai gostar desse sedentarismo hiperdispersivo. Um caminho sem volta, porque "plástico não significa elástico, em outras palavras. Nossos enlaces neurais não retornam repentinamente ao seu estado anterior do mesmo modo que um elástico de borracha; eles se fixam no seu estado alterado. E nada garante que o novo estado seja desejável."

Eu ainda não sei o impacto que A Geração Superficial causará no mainstream, se é que causará algum impacto. É um livro que tem coisas a dizer, que sintetiza com competência assuntos como neuroplasticidade, história do livro e da leitura, choques intelectuais entre novas e velhas tecnologias e Internet e inteligência artificial. Todos assuntos "quentes" neste momento histórico. Da lista dos assuntos hoje indispensáveis, Carr só não mencionou células-tronco, casamento gay, energia limpa e pandas estéreis. Sei que não é um livro como Inteligência Emocional, um best-seller noventista de cunho "científico" que, no fundo, não tinha nada a dizer, e que, espantosamente, continua a vender. O livro do Carr é significativo e me deixou inquieto por tocar numa questão que eu já remoía há algum tempo, que foi o que me fez, entre outras medidas, dar uso ao Reader: filtrar conteúdo, eleger o interessante, priorizar o importante. Se a gente se deixar levar por todos os links que aparecem, por todos os memes do último minuto e virais de grande circulação, nossa alfabetização será inteiramente dizimada por gatinhos fofinhos e buldogues trapalhões, e passaremos a grunhir para o monitor e babar sobre o teclado.

Depois de ler as 311 páginas de A Geração Superficial, é de se temer mesmo que qualquer visita ao Fuck Yeah Dementia!!1 me incapacite para sempre de ler Os Sertões. O problema é que, por mais que a Internet drene as energias atentivas de uma pessoa, por mais que Google e demais Leviatãs incentivem a dispersão e os cliques intermináveis (este incentivo é uma das afirmações do livro), qualquer coisa que valha minimamente a pena dependerá de concentração contínua. No meio de todo o Apocalipse previsto por Carr, vejo que há uma prosaica questão de escolha aí. Ou se deixar levar, em qualquer direção, ou se educar, em sentido amplo. A uma ou a outra escolha, seu cérebro se adaptará numa boa, já a sua consciência...

Enquanto isso, visite o English Russia. É hilário.

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