21 de outubro de 2013

nota_185

Outro filme, ao qual cheguei atrasado: Shame, de Steve McQueen. Se a lista de melhores filmes do ano da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas fosse fidedigna, Shame estaria nela. Michael Fassbender está incrível, embora eu não saiba dizer se esta é a melhor atuação dele que vi até agora. O David 8 dele em Prometheus é soberbo. (Você precisa veste este clipe, um viral lançado à época do Prometheus.) O David 8 é melhor que o Carl Jung dele em Um método perigoso. Mas tenho dúvidas entre David 8 e Brandon, o personagem dele neste Shame. O filme é tão bem escrito que me dá a impressão de que até Ryan Reynolds teria um bom desempenho nele.

Mas não só Fassbender dá show. Carey Mulligan, de Drive, faz um excelente dueto com ele, com a personagem Sissy. Eles são irmãos, ambos "danificados" pela vida. Brandon mora só, em New York. Sissy aparece na casa dele, sem avisar, e aí eles vão ter de conviver por um tempo. Veja bem: Brandon é um pervertido, um viciado em sexo, um onívoro sexual. Sissy, o epítome da vulnerabilidade e da carência. Como não ficar tenso com esta soma vivendo sob o mesmo teto?

Eu não vou entregar a história, mas preciso fazer uma observação, que talvez entregue o âmago do filme. Talvez.

Todas as críticas que li ao filme, e não foram muitas, parecem ignorar uma obviedade. Brandon e Sissy sofreram abusos quando crianças. Brandon é viciado em sexo, a ponto de passar por cima de detalhes hetero ou homossexuais. Brandon é frio, recluso, introvertido embora charmoso, reservado, emocionalmente instável. É incapaz de se relacionar com uma mulher de forma, digamos, sadia, sem ter de pagá-la pela companhia ou de estar drogado para desfrutar dela. Também é incapaz de ter amizades genuínas. É pornógrafo contumaz e viciado em sexo, um apetite insaciável, mas não da maneira como as pessoas que não sofreram abuso conhecem. Quanto a Sissy, ela é insuportavelmente carente, suicida, também emocionalmente instável como irmão, mas é extrovertida, explosiva, pronta para se entregar de corpo e alma ao primeiro que aparecer, e pronta para ficar dependente dele para sempre. Profissionalmente, Brandon é um sucesso, e isso serve como patrocínio aos seus vícios e como uma maneira de ser aceito, ou não percebido como um "danificado". Profissionalmente, Sissy é um fracasso, e isso prova como ela não conseguiu amadurecer a ponto de não precisar de ninguém. Juntos eles têm quase todos os sintomas de quem sofreu abusos, como aqueles personagens de manual que aparecem no Law & Order: SVU.

Eu não estou especulando tão intuitivamente quanto a traumas não mencionados de ambos os personagens. Há uma fala de Sissy que deixa tudo muito "claro". (Ela diz: "Não somos más pessoas, só viemos de lugares ruins", mas o impacto é maior no contexto do filme.) Há também uma cena, talvez a mais importante para entendê-los, em que o diálogo acontece enquanto eles assistem a um desenho animado (se quiser ver a cena, está aqui), um sinal recalcitrante da infância que não os deixa. Da qual não conseguem sair.

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