5 de novembro de 2013

nota_188

Um ser artificialmente inteligente como o HAL-9000 de Kubrick/Asimov ou o David 8 de Ridley Scott ainda está longe de ser criado. Existe a Siri, da Apple, que parece ser incrível no contexto atual de Candy Crushs e Instagrams, mas não se compara àqueles dois exemplos da ficção. Uma inteligência artificial (não-humana e inorgânica) que reproduza o brilhantismo de um cérebro como o nosso, que levou milhões de anos para chegar até aqui, continua a ser uma quimera, cuja utilidade é questionada pelo meu ludista interior.

Mesmo assim, inteligência artificial é um assunto interessante. Quando meu ludismo adormece, penso no Jarvis de Tony Stark e imagino que ter um mordomo artificialmente inteligente em casa, que me assessorasse na organização e catalogação da minha biblioteca, e em tudo referente ao meu TOC moderado, seria incrível. Meu mordomo artificial se chamaria Gilliard e teria a voz de Walmor Chagas.

Uma máquina inteligente seria realmente inteligente se pudesse ser equiparada ao ser mais inteligente que existe neste planetinha. Nós, os seres humanos. Douglas Hofstadter, autor do maravilhoso Gödel, Escher, Bach - um entrelaçamento de gênios brilhantes (tradução de José Viegas Filho, UnB/Imprensa Oficial), tem pesquisado inteligência artificial há décadas e tem usado uma ótica diferente, embora óbvia, para chegar a uma máquina inteligente. É o que diz James Somers, no artigo "The man who would teach machines to think", publicado na revista The Atlantic, sobre a pesquisa de Hofstadter e a equipe dele. A tal ótica é a seguinte:

The mind is a very unusual piece of software, and the best way to understand how a piece of software works is to write it yourself. Computers are flexible enough to model the strange evolved convolutions of our thought, and yet responsive only to precise instructions. So if the endeavor succeeds, it will be a double victory: we will finally come to know the exact mechanics of our selves—and we’ll have made intelligent machines.
[A mente é um tipo de software muito incomum, e a melhor maneira de entender como este software funciona é escrevê-lo você mesmo. Os computadores são flexíveis o suficiente para servir de modelo às notáveis e evoluídas circunvoluções do nosso pensamento, ao mesmo tempo que reativos apenas a instruções precisas. Se a iniciativa for bem-sucedida, será uma vitória em dobro: finalmente vamos conhecer nossa mecânica interna -- e teremos feito máquinas inteligentes.]

Hofstadter e equipe tentam entender nosso cérebro, e de quebra criar máquinas, não apenas criar máquinas capazes de preparar uma salada. Gostei do foco do trabalho: o cérebro humano. Tem tudo a ver com o chamamento científico de Hofstadter, descrito no artigo, que aconteceu em 1972. Desanimado com sua tese de doutorado, se sentindo perdido, Hofstadter decidiu viajar sozinho, de carro, e dormir à luz da lua, lendo à luz de lanternas.

He was free to think about whatever he wanted; he chose to think about thinking itself. Ever since he was about 14, when he found out that his youngest sister, Molly, couldn’t understand language, because she “had something deeply wrong with her brain” (her neurological condition probably dated from birth, and was never diagnosed), he had been quietly obsessed by the relation of mind to matter.
[Ele estava livre para pensar no que quisesse. Ele escolheu pensar sobre o ato de pensar. Desde que tinha 14 anos, quando descobriu que Molly, sua irmã mais nova, não era capaz de entender linguagem, porque ela "tinha algo profundamente errado no cérebro dela" (o problema neurológico dela é de nascença e nunca foi diagnosticado), ele se tornou silenciosamente obcecado com a relação entre mente e matéria.]
Um trecho curioso do artigo é a maneira como ele chegou à confecção de Gödel, Escher, Bach, depois de refletir sobre o que Gödel disse sobre matemática: ela não só pode fazer enunciados sobre números, mas também sobre o próprio sistema. Segundo Hofstadter, a consciência vinha do mesmo "circuito cruzado de feedback". Então uma tarde ele se sentou para

...to sketch his thinking in a letter to a friend. But after 30 handwritten pages, he decided not to send it; instead he’d let the ideas germinate a while. Seven years later, they had not so much germinated as metastasized into a 2.9‑pound, 777-page book calledGödel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid, which would earn for Hofstadter—only 35 years old, and a first-time author—the 1980 Pulitzer Prize for general nonfiction.
[...escrever o que pensava numa carta a um amigo. Mas depois de 30 páginas manuscritas, ele decidiu não enviá-la; em vez disso, deixou-as germinando por um tempo. Sete anos depois, elas não apenas haviam germinado, como se metamorfosearam num livro de 1,3 kg e 777 páginas [...], que faria de Hofstadter, com apenas 35 anos e autor de primeira viagem, o prêmio Pulitzer de não-ficção de 1980.] 

Uma consideração neurocientífica interessante de Hofstadter no artigo de Somers:

“Cognition is recognition,” he likes to say. He describes “seeing as” as the essential cognitive act: you see some lines as “an A,” you see a hunk of wood as “a table,” you see a meeting as “an emperor-has-no-clothes situation” and a friend’s pouting as “sour grapes” and a young man’s style as “hipsterish” and on and on ceaselessly throughout your day. That’s what it means to understand. But how does understanding work? For three decades, Hofstadter and his students have been trying to find out, trying to build “computer models of the fundamental mechanisms of thought.”
["Conhecer é reconhecer", ele [Hofstadter] gosta de dizer. Ele descreve "ver como" como o ato cognitivo essencial: você vê umas linhas como "um A", você vê um pedaço de madeira como "uma mesa", você vê uma reunião como uma situação do tipo "o imperador está nu", e o muxoxo de um amigo como "desdém", e o estilo de um homem jovem como "hipster", e assim indefinidamente durante todo o dia. Isto é o que significa entender. Como funciona o entender? Por três décadas, Hofstadter e seus alunos têm tentado descobrir, tentando construir "modelos computadorizados dos mecanismos fundamentais do pensamento".]

Uma das coisas mais interessantes em neurociência, como já dito noutra nota, é este niilismo: a neurociência não tem alma. É a sensação que tenho, pelo menos. O cérebro nada mais faz senão guardar e associar. Guardar e associar o que é usado. Mas este niilismo é uma impressão simplória, claro, que evapora com a constatação de que este cérebro que guarda e associa é capaz de apreciar isto: Horowitz em Moscou.

Leia o artigo para saber mais sobre o atual contexto da inteligência artificial no mundo científico, e como Hofstadter se enquadra nele, mais de trinta anos depois do seu espetacular primeiro livro. Quanto quanto a guardar e associar, mais um trecho do artigo de que gostei muito:

“Look at your conversations,” he says. “You’ll see over and over again, to your surprise, that this is the process of analogy-making.” Someone says something, which reminds you of something else; you say something, which reminds the other person of something else—that’s a conversation. It couldn’t be more straightforward. But at each step, Hofstadter argues, there’s an analogy, a mental leap so stunningly complex that it’s a computational miracle: somehow your brain is able to strip any remark of the irrelevant surface details and extract its gist, its “skeletal essence,” and retrieve, from your own repertoire of ideas and experiences, the story or remark that best relates.
["Veja suas conversas", ele [Hofstadter] diz. "Você vai ver, uma vez atrás da outra, para sua surpresa, que ela é o processo de fazer analogias." A pessoa diz uma coisa, que lembra você de outra coisa; você diz uma coisa, que lembra a pessoa de uma outra coisa -- isto é uma conversa. Não poderia ser mais simples. Mas, a cada passo, Hofstadter argumenta que há uma analogia, um salto mental tão incrivelmente complexo que é um milagre computacional: de alguma maneira, seu cérebro é capaz de se desfazer de irrelevantes detalhes superficiais e extrair sua parte principal, a "arquitetura essencial", e recuperar, do seu próprio repertório de ideias e experiências, a história ou observação que melhor se relaciona.] 

Por alguma razão, depois de escrever esta nota, a observação que melhor se relaciona com isto tudo é: tenho fome.

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