7 de novembro de 2013

nota_189

Recebi um questionamento por e-mail ao qual ainda não consegui responder. Espero que o consiga até o fim desta nota. O questionamento é do @rafaf. Veja:

Senhores, são essas as minhas indagações no momento. Tudo o que é discutido no Brasil é a partir do que outras pessoas fazem, reações a fatos: Procure Saber, Instituto Royal, o cara da área vip, etc. Mais: a repercussão da repercussão -- o que fulano falou de determinado assunto. É abrir redes sociais e, pior, dezenas de sites, é tudo isso que se vê (não vou nem entrar no mérito da qualidade dos textos).
Não digo que não se deva olhar tudo isso com o olhar crítico e discutir, mas tudo me parece viciado, todos correndo atrás do próprio rabo e do dos outros. É isso o que resta? Uma turma de fofoqueiras cínicas, pseudo intelectuais e cagadoras de regras?
Por isso, onde estão as grandes ideias? Onde está ação? Onde está a repercussão das coisas de alto nível, do que funciona, do que nos faz avançar?
Eu queria ter respondido na hora com alguns exemplos imediatos de avanço que estivessem na "ponta da mente", usando o método tatibitati do "top of mind" dos comerciantes de acessórios. Mas não, não me veio nada à mente. Talvez o próprio Instituto Royal fosse exemplo de algum avanço. Ou os salvadores de beagles nunca precisaram arrancar um dente? Se eu pude arrancar quatro pré-molares e ter um sono tranquilo depois é porque muita gente, durante séculos, se submeteu ao aperfeiçoamento da odontologia e da farmacologia. Também não entendo por que beagles têm o privilégio de ter salvadores, coisa que os ratos não têm -- nem mesmo Pinky e Cérebro, se bem me lembro. 

Onde estão as grandes ideias? Taí uma pergunta boa. O primeiro a responder ao e-mail foi @diogosalles
@rafaf, o fato é que não há uma resposta à sua pergunta, infelizmente. Quem pauta a sociedade são essas mesmas pessoas que viciam e turvam a visão.
De repente, vejo boa parte da imprensa embrenhada em descobrir se o "rei do camarote" é real ou fake. Isso é um sintoma grave. Que importa se o cara é real ou fake? Para o Brasil, importa. O que podemos fazer?
Ontem a comissão da reforma política entregou seu texto inicial. A imprensa deu, mas não reverberou nas redes sociais. Por quê? Por isso aí. O "rei do camarote" é mais relevante, dá mais clique, dá status a quem der o próximo furo no assunto (status esse tão criticado nas redes sociais).
Precisamente. Senti que não precisava mais responder. Continuaria sem precisar, por conta da resposta do @vicescudero:

Essa é uma questão complicada, que envolve a interferência dos valores da internet na cultura brasileira e também se repete no mundo todo.
Esses assuntos mencionados por você, @rafaf, têm uma característica em comum: a falta de originalidade. A cultura brasileira, há tempos, sobrevive da reprodução de conceitos da geração dos anos 70 e de caricaturas das modinhas americanas ou inglesas. Não passa disso. Hoje, a nossa cultura poderia ser classificada sem maiores ajustes como uma subcultura, algo derivado de um contexto maior, incapaz de explorar um universo de ideias relacionadas com o presente que a cerca. Mesmo quando essa análise atual se forma, ela normalmente se sustenta sobre valores anteriores, como a esculhambação da ostentação do "rei do camarote" (é a nossa pedagogia do oprimido formando alunos que exigem uma humildade intransigente dos dominantes), a validação da violência obscurantista e infantil no resgate dos cãezinhos bonitinhos do Instituto Royal (se eles fossem dobermanns, a reação seria a mesma?). Isso sem falar no loop infinito da nossa sociedade patriarcal, repetido -- mais uma vez -- pela turma do Procure Saber.
Por isso as mudanças não acontecem. O Brasil é um país do passado. Nós sempre tratamos o passado como o apogeu de nossas ideias e sempre santificamos as pessoas de seu tempo. Este processo sempre foi simples porque nunca tivemos uma cultura crítica forte, somos uma sociedade formada nos moldes das famílias portuguesas católicas do século XVII em diante, que sempre resolveu os conflitos entre mercado/sociedade e interesses particulares na moeda dos favores. Por isso o Procure Saber se apresenta com tamanha truculência e a maioria dos brasileiros dá os ombros: a maioria acredita que a vida de todas as pessoas, em quaisquer circunstâncias, é indevassável.
Aí surge a internet, onde o controle e a influência dessas forças são quase inexistentes. Passamos a assistir nesta vitrine o quanto somos atrasados e o quanto a nossa cultura é retrógrada. Se a internet já é um exercício de copy/pasta, de derivação infinita de tudo o que é produzido, para a nossa cultura ela se tornou um poço sem fundo: a derivação da reprodução do passado.
O Brasil é uma metacountry. Na computação, o prefixo meta significa sobre/about. Metadata, metalanguage, metafile são termos que servem para designar informações contidas dentro de outras informações. Dados dentro de outros dados, linguagem que expressa o significado de outra linguagem, um arquivo que contém outro arquivo. O Brasil é um país que contém outros países, não é um país em si mesmo. Nunca fizemos o debug de nossa memória, de nossas mazelas. Por isso, não surpreende que as discussões sejam sempre as mesmas, nem que a nossa pauta jornalística esteja restrita ao próprio jornalismo.

Ambos @diogosalles e @vicescudero já responderam tudo o que é possível. Gostei especialmente da seguinte imagem borgeana: "a derivação da reprodução do passado" como "um poço sem fundo". Incrível, é como se estivéssemos caindo infinitamente numa sequência eterna de mimetizações de um passado obsoleto.

Fechando o assunto, @fabiosc:
Penso que os senhores atacaram o cerne da questão. Estamos na tempestade perfeita: do imobilismo e do controle de nossas iniciativas por um Estado proto-totalitário. Não se trata, apenas, de uma questão ideológico-partidária; antes, tem a ver com esse nosso conformismo amplo e irrestrito. Até mesmo com as manifestações dos Black Blocs já nos conformamos, existindo respostas para todos os gostos e paixões: "ah, são terroristas"; "ah, precisamos entendê-los", enquanto isso nada muda efetivamente de lugar. O Brasil é absurdamente previsível, como bem avaliou o @vicescudero, porque está com os mitos paralisantes (para usar uma expressão de Daniel Piza) de sempre.
É um vazio cultural imenso e, sim, nossas manifestações culturais são subprodutos desse atraso: da literatura à televisão, passando pelo cinema e pelo teatro. E houve um tempo que não estávamos atrasados; houve uma época em que fomos, sim, vanguarda.
Hoje somos a vanguarda do atraso.
O termo "mitos paralisantes", como trouxe o @fabiosc, se encaixa perfeitamente à existência dos procure-sofistas, mencionados no questionamento inicial do @rafaf (a questão das biografias mereceria uma nota exclusiva, se um dia eu tiver disposição para tal). 

A falta de grandes ideias, contudo, não é um privilégio nosso. O e-mail do @rafaf me lembrou um artigo que li há tempos, escrito por Neal Gabler para o New York Times. Chama-se "The Elusive Big Idea". É o mesmo assunto: onde estão as grandes ideias? 

Talvez tenha sido a leitura do artigo de Gabler que me fez não ter uma resposta ao questionamento do meu amigo. Confira estre trechinho: 

If our ideas seem smaller nowadays, it’s not because we are dumber than our forebears but because we just don’t care as much about ideas as they did. In effect, we are living in an increasingly post-idea world — a world in which big, thought-provoking ideas that can’t instantly be monetized are of so little intrinsic value that fewer people are generating them and fewer outlets are disseminating them, the Internet notwithstanding. Bold ideas are almost passé.
It is no secret, especially here in America, that we live in a post-Enlightenment age in which rationality, science, evidence, logical argument and debate have lost the battle in many sectors, and perhaps even in society generally, to superstition, faith, opinion and orthodoxy. While we continue to make giant technological advances, we may be the first generation to have turned back the epochal clock — to have gone backward intellectually from advanced modes of thinking into old modes of belief. But post-Enlightenment and post-idea, while related, are not exactly the same.
Post-Enlightenment refers to a style of thinking that no longer deploys the techniques of rational thought. Post-idea refers to thinking that is no longer done, regardless of the style.
[Se nossas ideias parecem pequenas hoje em dia, não é porque somos mais burros que nossos ancestrais, mas porque não nos importamos com ideias como eles se importavam. Na verdade, estamos vivendo num mundo cada vez mais pós-ideia -- um mundo no qual ideias grandes e provocativas que não podem ser monetizadas instantaneamente têm tão pouco valor intrínseco que poucas pessoas as desenvolvem e pouquíssimos veículos as disseminam, mesmo com a internet. Ideias corajosas são quase antiquadas.
Não é segredo algum, especialmente aqui, nos Estados Unidos, que vivemos numa era pós-Iluminismo, na qual racionalidade, ciência, provas, argumento lógico e debate perderam a batalha em muitos setores, e talvez na sociedade, como um todo, para superstição, fé, opinião e ortodoxia. Enquanto continuamos a avançar tecnologicamente, talvez sejamos a primeira geração a reverter os os ponteiros do relógio das eras -- a regredir intelectualmente de modos elaborados de pensamento para as velhas formas de crença. Mas pós-Iluminismo e pós-ideia, mesmo que relacionados, não são exatamente a mesma coisa. 
Pós-Iluminismo se refere a um estilo de pensamento que não utiliza mais as técnicas do pensamento racional. Pós-ideia se refere ao pensamento que não é mais executado, independente do estilo.]

Curiosamente, Neal Gabler também é biógrafo (escreveu a biografia de Walt Disney). 

Eu ainda não sei se tenho uma resposta ao @rafaf. Enquanto isso, vou continuar recusando abrir links sobre o "rei do camarote". 

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