28 de novembro de 2013

nota_191: Longe da Árvore

Ter filhos não é pra todo mundo, mas todo mundo tem. Graças a este contrassenso é que humanidade prossegue. Não é curioso?

Gosto do filme Árvore da Vida, de Terrence Malick, porque mostra como criar uma vida, um ser humano, é um processo grandioso e imensurável. Educar uma criança, inclusive nos aspectos mais triviais, como ensiná-la a lavar as mãos ou a se vestir, envolve infinitas variáveis filogenéticas e ontogenéticas. Educar é um processo colossal principalmente sob o ponto de vista da criança. Por que é importante lavar a mão? Por que é necessário lavar a mão? Por que dizem que a gente pode morrer se estiver com a mão suja? Por que tanta gente não lava e tá viva? Por que lavar a mão depois de pegar em dinheiro? Como assim, milhões de pessoas pegaram no mesmo papel que eu peguei pra comprar um picolé? Por que o dinheiro é sujo, se eu o troquei por um picolé que coloquei na boca e que agora tá na minha barriga? Minha barriga agora tá suja e vai apodrecer? Se todas as pessoas lavassem a mão antes de pegar em dinheiro, eu não precisaria lavar a minha depois de pegar no dinheiro, certo? Então se eu 'tiver com a mão suja de terra eu não posso comer manga? Mas a manga vem da terra! E a mãe da Janaína disse que a gente morre e fica enterrado, na terra.

Se você não der um jeito na criança, é possível contar a História do universo na tentativa de responder à pergunta "Por que eu preciso lavar minhas mãos?"

Ter uma criança e querer educá-la aumenta nossa dignidade. É uma questão de humanidade. Amar e educar uma criança é de tal forma transformador que eu sinto como se fosse impossível descrever esta transformação (e é impossível mesmo). É preciso sentir na prática. É uma experiência assombrosa.

Agora, veja bem. A criança subentendida nos parágrafos anteriores e imaginada por você talvez seja aquela criança que se suja no parquinho brincando com coleguinhas, que insiste em querer um picolé de manga antes do almoço e não vê nenhum problema nisso, que tenta argumentar com você que aquele picolé de manga é maravilhoso e que até oferece a você uma mordida do picolé se você o comprar -- o que acaba fazendo você rir, destruindo o tom autoritário que até então você tentava impor, na tentativa de convencer a criança deste absurdo fascista e totalitário que é dizer "Não, primeiro o almoço, depois o picolé". POR QUE NÃO O CONTRÁRIO?

Esta criança que você ama e que transformou sua vida, esta criança brinca, corre, argumenta, elogia, negocia, questiona, faz rir, tem vontades. É uma criança como você foi um dia.

Mas e se esta criança não fosse como você um dia foi? Se esta criança fosse portadora de síndrome de Down, algumas cenas anteriores teriam cores diferentes? Se esta criança sofresse de uma combinação de deficiências múltiplas graves, uma condição que a impediria de andar, falar, ouvir e até mesmo pensar, algumas das cenas anteriores seriam possíveis? Como um filho diferente de você afeta sua vida e seu amor por ele?

Este é, em resumo, o tema do livro Longe da Árvore, de Andrew Solomon (Companhia das Letras). Solomon já havia escrito um livro excelente antes, tão inclassificável como este agora. O livro anterior é O Demônio do Meio-Dia, um vasto documento imersivo sobre a depressão, tanto um ensaio pessoal e como um livro de história, que fala o que é a depressão, como ela tem sido entendida no mundo ocidental desde Hipócrates, quais as populações do globo estão mais sujeitas a ela, quais os tratamentos oficiais e alternativos, qual a relação entre depressão e suicídio, entre depressão e política, entre depressão e pobreza, entre depressão e vícios, etc; e todos estes aspectos são ilustrados por casos reais, dos quais a maioria absoluta fora entrevistada e acompanhada pelo próprio Solomon.

Método semelhante foi usado na confecção de Longe da Árvore, um livro escrito ao longo de dez anos, que garantiu a Solomon o doutorado em psicologia pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Solomon entrevistou centenas de pessoas e conviveu com várias delas. No livro, a questão central das relações entre pais e filhos é a identidade. Se pais e filhos compartilham da mesma identidade, temos aí um caso de identidade vertical. Se não compartilham, é um caso de identidade horizontal. Exemplo: filho surdo de pais surdos, identidade vertical; filho surdo de pais ouvintes, identidade horizontal. Como se dá o amor entre pais e filhos, quando o filho é "diferente" dos pais?

Longe da Árvore tem doze capítulos. No primeiro, chamado "Filho", Solomon fala da experiência de ter sido ele mesmo um filho de identidade horizontal. Primeiro, por ser disléxico, depois, por ser homossexual. (Ser gay e não ser aceito pela família foi uma das coisas que o levaram a desenvolver depressão, tema do livro anterior.) No último capítulo, "Pai", Solomon volta a falar de si, agora descrevendo a experiência de também ser ele mesmo um pai fora da norma: ele é casado com outro homem e com ele tem um filho, gerado em barriga de aluguel.

Os demais dez capítulos do livro são: "Surdos", "Anões", "Síndrome de Down", "Autismo", "Esquizofrenia", "Deficiência" (no caso, deficiências múltiplas graves), "Prodígios" (crianças superdotadas), "Estupro" (filhos nascidos de estupro), "Crime" (filhos que desde cedo, tanto por causa quanto apesar da educação que receberam, mostraram tendências criminosas) e "Transgêneros".

A responsabilidade de ser pai e mãe incorpora um poder orientador que exige reflexão mesmo nos casos em que pais e filhos compartilham a mesma identidade e se enquadram no mesmo padrão descrito e aceito pela maioria. Por exemplo, religião. Devem os pais iniciar os filhos em sua própria religião ou devem deixar esta escolha aos filhos? Se a fé é uma coisa tão importante para os pais, se a fé é o que os liga à eternidade, não seria melhor que os filhos pudessem escolher esta benção, depois de sofrer suas próprias dores espirituais? Eu consigo imaginar outros pais respondendo a estas perguntas de várias formas, e não dá pra dizer quem está certo ou errado. O que demonstra mais amor, deixar que o filho escolha ou escolher por ele?

Mas esse é um exemplo até simples, ou mesmo bobo, se a gente considerar pais e filhos de identidades diversas. Suponha que seu filho de oito anos desde sempre tenha se entendido como menina, que ele nasceu no corpo errado. O que você faz? Suponha que você tenha um filho anão. É justo, é certo submetê-lo àquele penoso tratamento de alongamento de ossos? O poder responsável dos pais deve chegar ao ponto de quebrar os ossos do filho para que ele se pareça com outros filhos? Esta minha pergunta traz um tom de reprovação que eu não consigo disfarçar, mas é porque falar é fácil.

É quase ultrajante, contudo, tentar resumir um livro extenso e recheado de casos numa nota tão pequena como esta. Porque quase todos os casos narrados seriam eles mesmos, cada um, um livro diferente. Longe da Árvore tem mais de mil páginas. É um livro que recomendo a todos.

Agora, enquanto escrevo esta nota, lembro de várias histórias de vários capítulos e relembro de muitas em que o amor prevaleceu. Sempre que os pais, de todos os tipos de identidades, se guiam pelas constantes "o que deixaria meu filho mais feliz" ou "que atitude minha demonstra mais amor", tudo se resolve.

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O autor Andrew Solomon fez uma incrível "Ted Talk". Clique aqui para vê-la (legendas em português).

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