5 de dezembro de 2013

nota_192

Um dos livros da nossa literatura de que mais gosto é Resumo de Ana, de Modesto Carone. O livro, que ganhou o Jabuti de melhor romance em 1999, são duas novelas interligadas, "Resumo de Ana" e "Ciro". Há vários trechos que pipocam na minha cabeça agora, mas era um em especial que eu queria transcrever aqui.
(...) nas noites de sábado e domingo ele [Ciro] descia ao centro para fazer o footing na praça Coronel Fernando Prestes. Seguindo uma tradição que o tráfego de automóveis desfez, os moços andavam em volta da praça em sentido contrário ao das moças na ciranda regulada pelo som dos sapatos sobre as pedras do calçamento: delas surgiam os namoros dos jovens impedidos de dançar nos clubes do centro. No fim de semana em que o sol deixara uma luz branca nas paineiras, depois de acertar na cúpula da matriz, os olhos de Ciro fixaram uma cabeça loira no meio do grupo que parecia vir correndo ao seu encontro. A experiência era desconhecida porque não havia nela sofrimento ou mal-estar, embora fosse isso o que sentisse numa direção inesperada. Os amigos notaram a mudança e na terceira volta estimularam o companheiro intimidado a tomar uma iniciativa e falar com a moça. Quando ela reapareceu no bando das jovens, Ciro estava pálido; esfregou o nariz e o pescoço com um lenço e perguntou de longe, já virado de lado, se ela podia encontrá-lo no coreto. A moça foi até lá sozinha, os dois conversaram e Ciro se apaixonou. 
Ainda não conheço melhor descrição de como é se apaixonar:
A experiência era desconhecida porque não havia nela sofrimento ou mal-estar, embora fosse isso o que sentisse numa direção inesperada. 
O narrador fala que Ciro conversou com a moça e se apaixonou. Ele já havia se apaixonado assim que a viu.

Nenhum comentário: