14 de janeiro de 2014

nota_195

Amizade, certo? Eis aí Gilles Deleuze sobre o assunto: 
Por que se é amigo de alguém? Para mim, é uma questão de percepção. É o fato de... Não o fato de ter idéias em comum. O que quer dizer “ter coisas em comum com alguém”? Vou dizer banalidades, mas é se entender sem precisar explicar. Não é a partir de idéias em comum, mas de uma linguagem em comum, ou de uma pré-linguagem em comum. Há pessoas sobre as quais posso afirmar que não entendo nada do que dizem, mesmo coisas simples como: “Passe-me o sal”. Não consigo entender. E há pessoas que me falam de um assunto totalmente abstrato, sobre o qual posso não concordar, mas entendo tudo o que dizem. Quer dizer que tenho algo a dizer-lhes e elas a mim. E não é pela comunhão de idéias. Há um mistério aí. Há uma base indeterminada... É verdade que há um grande mistério no fato de se ter algo a dizer a alguém, de se entender mesmo sem comunhão de idéias, sem que se precise estar sempre voltando ao assunto. Tenho uma hipótese: cada um de nós está apto a entender um determinado tipo de charme. Ninguém consegue entender todos os tipos ao mesmo tempo. Há uma percepção do charme (...) um gesto, um pensamento de alguém, mesmo antes que este seja significante, um pudor de alguém são fontes de charme que têm tanto a ver com a vida, que vão até as raízes vitais que é assim que se torna amigo de alguém. Há frases insignificantes que têm tanto charme e mostram tanta delicadeza que, imediatamente, você acha que aquela pessoa é sua, não no sentido de propriedade, mas é sua e você espera ser dela. Neste momento nasce a amizade. Há de fato uma questão de percepção. Perceber algo que lhe convém, que ensina, que abre e revela alguma coisa. 
Não é perfeito?

Este Deleuze é o do Abecedário, um documentário-entrevista que Deleuze concedeu Claire Parnet em 1988/89 para tevê francesa. Ao todo, são oito horas de conversa, que você pode ver no YouTube. Cada letra do alfabeto corresponde a um mote, A para "animal", B para "beber", C para "cultura", e assim vai. Este trecho da amizade está em F, de "fidelidade". Se prefere, como eu, ler a ouvir o Deleuze falando, você também pode baixar a transcrição integral do documentário neste link simpático. Obrigado pelo trecho selecionado, @epontoc

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