16 de janeiro de 2014

nota_196: O malventuroso Christopher Weidman

Publiquei primeiro no MMA Brasil

A canela de Anderson Silva torta como uma barra de alcaçuz. É impossível esquecer aquela noite de 28 de dezembro de 2013, a noite do UFC 168, evento no qual o campeão dos médios Chris Weidman defenderia pela primeira vez seu cinturão, justamente contra o campeão anterior, o gênio técnico Anderson Silva, tido por muitos como o melhor de todos e de todos os tempos. O mundo inteiro tinha outras expectativas para aquela luta. Na teoria, era para ela ser a segunda parte de uma trilogia. Ainda em teoria, no campo das especulações, seria a segunda parte de uma trilogia que entraria para História, a depender da lógica financeira envolvida em todo o fenômeno promocional. Onde houvesse casas de aposta, Anderson, o desafiante, era o favorito. Weidman seria apenas um manequim numa vitrine, portando o cinturão de outro, o Spider. A gente esperava, eu esperava, que Anderson chegasse lá e quebrasse vitrine, manequim, Octógono™, Steven Segall e tudo o que aparecesse na frente dele. Não era um resultado absurdo de se esperar – eu diria até que era um resultado “lógico”, ou pelo menos provável. Eu não estou, com isso, entrando na onda da imprensa pacheca, que futebolizou o MMA e se comporta como torcida – torcida desarrazoada, eu diria, se isso não fosse um pleonasmo. Anderson Silva era o favorito naquela noite. Ponto.

Dor, gritos, maca, ambulância. A noite não terminou como se esperava. Se eu fosse o roteirista da vida de Anderson Silva, eu jamais teria imaginado que o UFC 168 terminaria daquela forma. Foi um trágico anticlímax, triste para todos, dolorido para Anderson, frustrante para Weidman e insatisfatório para ambos os lutadores. Insatisfatório para o esporte também.

Aliás, a primeira luta entre ambos também foi insatisfatória. Parece que o casamento Weidman-Silva estava destinado a ser aziago desde o início dos tempos. Eu gostaria de ter sido a mosca que pousara na xícara do Joe Silva enquanto ele, Sean Shelby, Dana White e os Fertitta arquitetavam o UFC 168. Gostaria de ter estado presente na sala para saber eles não sentiram ou viram algo diferente, um copo quebrando, um pombo se chocando na janela, um leve tremor de terra, qualquer coisa que indicasse que aqueles dois lutadores não deveriam ter lutado.

No entanto, as estrelas e os astros, coitados, não são responsáveis pelos infortúnios do atleta brasileiro. Ele mesmo foi. Se os astros e o além estão contra alguém, esse alguém é Christopher Weidman.

Eles, Anderson e Weidman, lutaram pela primeira vez no UFC 162, em julho de 2013. Na ocasião, Anderson era ainda mais favorito, de acordo com os números das casas de aposta. O que aconteceu naquela noite? Anderson se comportou como um bobo, resumindo. Aquele mesmo comportamento que o assolou em Abu Dhabi, contra Demian Maia, no UFC 112, um comportamento que nem de longe parece digno e profissional. Anderson não soube dosar a marra nem administrar a própria teatralidade, nem aprenderia a fazê-lo de forma perene. No fim, o resultado daquela noite foi a derrota do então campeão. Nunca o clichê “Eu perdi para mim mesmo” foi tão verdadeiro. Se você viu a luta, você lembra. Se você viu a luta com tecla SAP ou no mute, você lembra melhor ainda. Aquele não era um comportamento estritamente teatral, como alguns foras de série se permitem ter. Aquilo era outra coisa. Aquilo não era o então campeão esbanjando talento, exibindo superioridade, demonstrando ser “o senhor do combate”, como dizem por aí. Aquilo era outra coisa. Falta de profissionalismo mesmo, o que nos leva à eterna pergunta: por que isso, Anderson? Você lutou tão bem, com marra e tudo, contra Bonnar, Okami e Belfort. Contra o Weidman você se comportou daquele jeito, e se deu mal. Por quê?

Eu não acho que aquele primeira derrota para Weidman tenha causado alguma comoção. Eu mesmo, esportista amador e colunista deste site, fiquei decepcionado. Não é daquele jeito que um campeão se comporta. É um caso em que se aplica a intrigante expressão “derrota merecida”. Anderson perdeu, e Weidman venceu simplesmente porque quis lutar. O que nos leva a uma constatação deprimente. Na balança, o demérito de Anderson foi muito maior que o mérito de Weidman.

Revanche. Não demorou muito para que se marcasse a revanche, que nós vimos há poucos dias. Novamente, Anderson perdeu, nós vimos como. Só que... foi diferente. É aqui que eu vejo o quão azarado é Chris Weidman.

Ele conseguiu o cinturão lutando contra um boneco de posto. Demérito do boneco. Weidman defenderia o cinturão, mas no meio da luta seu oponente quebra a perna. Acidente de trabalho, um chute que saiu errado (muito bem explicado por Bas Rutten neste vídeo). Ele saiu vitorioso duas vezes sobre Anderson Silva, o melhor de todos, para muitos, mas eu não consigo ver a superioridade de Weidman sobre Anderson, entende? Uma comparação. Weidman-Silva é muito diferente de Velasquez-Dos Santos. Você tem alguma dúvida de que Cain Velasquez foi claramente melhor que Junior Cigano duas vezes seguidas? Cigano é incrível, nós sabemos. Ainda acho que seja o único capaz de vencer Velasquez, e vice-versa. Ambos, Cigano e Velasquez, estão muito acima dos demais pesos pesados do UFC hoje, mas nós vimos o que aconteceu, duas vezes, sem questionamentos: Cain Velasquez foi melhor que o Junior Cigano. Nosso caso em questão é diferente. Você tem alguma certeza de que Weidman foi explicitamente superior a Anderson duas vezes seguidas?

Weidman não é um zé-ninguém. Ele é um bom lutador, sim. Ele tratorizou Mark Muñoz em agosto de 2012 e deu trabalho a André Galvão no ADCC em 2009. Bons resultados, mas resumidos. Ele também foi um All-American, em 2006 e 2007, antes de se tornar um artista marcial misto. Ele tem bons parceiros, como Matt Serra, John Danaher, Renzo Gracie. Weidman é um bom lutador, é verdade. Mas eu ainda não acho que ele tenha mostrado a que veio. Todo esse hype sobre ele, mesmo descontando o necessário marketing que a Zuffa tem de fazer, ainda parece hype. Ele deu muito azar em vencer Anderson duas vezes de formas controversas. Azar ou sorte, depende de como você vê a questão. Enfim, ainda o vejo como uma promessa. Novamente, uma comparação: Jon Jones não parecia uma promessa quando se tornou campeão. Jones massacrou Maurício Shogun por três rounds inteiros, até o nocaute técnico. Cabe lembrar que, antes de Jon Jones, o meio-pesado histórico, melhor de todos até então, era Maurício Shogun, e ele não deu o menor trabalho para Jones. Weidman, ao contrário de Jones, ainda precisa provar que é o campeão.

O MMA funciona como um mercado de ações. Você lembra de um tempo em que havia, ou haveria, uma “Era Machida”? Você lembra de quando Gegard Mousasi era um “Jon Jones”? E de quando Phil Davis era outro? Lembra de quando Brian Stann era um protodesafiante entre os médios? Você lembra quando Jake Shields foi trazido para vencer GSP, porque só ele conseguiria isso? Os lutadores acabam se envolvendo em bolhas de especulação, às vezes merecendo o prestígio, mesmo que depois não correspondam (Shields, por exemplo), às vezes não merecendo tanto assim (Stann, por exemplo). Weidman é a bolha da vez. Eu só vou acreditar nele se ele passar por Vitor Belfort de forma clara

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Acréscimo que publiquei na seção de comentários do MMA Brasil:

Uma coisa que eu gostaria de dizer é que eu não sou fã do Anderson. Em colunas anteriores acho que isso fica claro. Eu poderia escrever uma coluna sobre isso, mas vou arriscar resumir tudo numa sentença: ele tem muito talento para pouca personalidade. É difícil admirá-lo pela “ética do lutador” depois de assistir Silva-Maia, ou Silva-Leites, ou Silva-Weidman I, ou Silva-Azeredo (lá no início), ou etc. Quanto falo de “ética do lutador”, quero que pense em Fedor Emelianenko. Ao mesmo tempo, é muito difícil (impossível, diria) negar genialidade a ele depois assistir a Silva-Marquardt, Silva-Henderson, Silva-Griffin, Silva-Okami, Silva-Belfort, Silva-Bonnar, etc. É muito sinistro, gente.

Anderson Silva já é uma figura histórica em nossa cultura. Ele já entrou inexoravelmente no rol das nossas “personas culturais” [deveria ter usado o termo ícone, não? rs] do mundo esportivo, como Zico, Torben Grael, Guga, Ronaldo Fenômeno, etc. Mas, ao contrário dos demais, ou pelo menos destes que citei, ninguém foi tão antiético na própria arena profissional quanto ele. É um contrassenso colossal. Ele parece ser um homem de família, não usa drogas nem arruma briga em boate, ao contrário de alguns futebolistas; no entanto, é só lembrar de Silva-Maia e similares pra perceber o quão antiprofissional ele pode ser. (Relembrem aqui da “ética de lutador” e de Fedor Emelianenko.) No fundo, é difícil ser fã do Anderson. Acho que seria mais fácil se a gente conhecesse ele, digamos, “de verdade”. Aqueles exemplos de antiprofissionalismo intrarringues do Anderson são, pra mim, sintomas de um problema muito maior. Nosso jornalismo esportivo precisaria ter gente boa o suficiente para escrever uma futura boa biografia dele, não as hagiografias em voga. Alguém precisa (precisará) fazer com o Anderson o que David Remnick fez com Ali no livro O rei do mundo, ou que Gay Talese fez com Floyd Patterson no perfil “The Loser”. Talvez se a gente conhecesse o demônio que faz Anderson fazer bobagem a gente simpatizasse mais com ele. Mas isso é difícil, mesmo ele sendo um gênio.

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