7 de fevereiro de 2014

p. 169

Numa obra de não ficção, quase nunca ficamos conhecendo a verdade do que aconteceu. O ideal do relato sem mediação só é regularmente atingido na criação ficcional, em que o escritor faz um relato fiel do que ocorre a sua imaginação. Quando Henry James conta, em The golden bowl, que o Príncipe e Chartlotte estão dormindo juntos, não temos qualquer razão para duvidar do que diz, ou perguntar se Maggie não estará tendo um "reação exagerada" ao que vê. O relato de James é verdadeiro. Os fatos da literatura imaginativa são tão sólidos quando a pedra chutada por dr. Jonhson. Devemos sempre aceitar a palavra do romancista, do dramaturgo e do poeta, assim como podemos quase sempre duvidar da palavra do biógrafo, do autobiógrafo, do historiador ou do jornalista. Na literatura imaginativa, somos poupados do exame de hipóteses alternativas -- que simplesmente não existem. As coisas são apresentadas da maneira como elas são. É só na não ficção que permanecem dúvidas quanto ao que realmente aconteceu e às reações e sentimentos das pessoas. 

A mulher calada, de Janet Malcolm (tradução de Sergio Flaksman), Companhia das Letras.

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