27 de agosto de 2015

nota_201: Tero Takalo

A vida amorosa de Tero Takalo é bem conhecida. Ele amou muito, pouco e mais ou menos. Nunca estava só, e sempre esteve, no mínimo, mal acompanhado. Um coração tumultuado. Pouco antes de morrer (embora sifilítico, foi uma morte tranquila), Takalo ordenou que queimassem todos os seus diários, que estavam num certo baú, um dois poucos objetos que transportava consigo em sua última década. A ordem fora executada por seu sobrinho-neto, o único familiar que tinha acesso à intimidade de Takalo, o que não quer dizer que gostassem um do outro. O sobrinho-neto improvisou uma pira no quintal de Takalo e, junto com um amigo desocupado, trouxe o tio-avô num palanquim, igualmente improvisado, para que o moribundo, ao fim da tarde, visse sua vida em palavras ser consumida pelo fogo. Tanto o palanquim quanto a pira foram, sim, ideia de Takalo, e o sobrinho-neto e o amigo desocupado só a executaram depois de um obsceno suborno em maconha, hábito que Takalo jamais abandonou.

Takalo parou de viver quando o calor da pira acesa vencia o sol que se punha ao longe. O sobrinho-neto e o amigo desocupado não viram por completo, como Takalo viu e que foi a última imagem a permanecer na sua retina, o sol, alaranjado, ser duplamente engolido pelo horizonte e pelas ondas quentes da fogueira e ser sobejamente oprimido por um céu de vários azuis e nenhuma nuvem. Takalo tinha alguma obsessão pelo sol, há provas disso em toda a sua obra, e foi este o último sol que viu.

O sobrinho-neto e o amigo desocupado não perceberam o definitivo fechar de olhos de Tero Takalo. Estavam deitados na grama mal aparada do quintal, curtindo os efeitos da maconha, que era da boa.

Anos depois, trechos dos diários de Takalo começaram a surgir na internet. Trechos curtos. Pedaços queimados de páginas levadas pelo vento, páginas surrupiadas por maus admiradores enquanto Takalo ainda estava vivo, anotações achadas fora do baú, páginas esquecidas em hotéis, motéis e casas de amigos – quando acabavam os moleskines, Takalo escrevia no que achasse à sua frente; às vezes ele esquecia onde havia guardado esses papéis avulsos e culpava a maconha, outro cacoete que se intensificou ao longo dos anos: tudo era culpa da maconha... A origem destes documentos é variada. Alguns soam apócrifos, outros realmente o são.

Li o quanto pude destes papéis atribuídos a Tero Takalo (alguns sites, como esteeste e este, disponibilizaram fotos das páginas e dos pedaços de página originais, a caligrafia do homem era inimitável). Os que mais me encantaram tratam do mesmo assunto. É óbvio que os trechos mais interessantes tratam de amor. É com um destes trechos que encerro esta nota. Aquele homem sabia das coisas:

É bom expor o coração. A afirmação singela soa um pouco redundante, já que o músculo incansável não serve para outra coisa senão levar flechadas. Levar flechadas e bater loucamente, fora de qualquer ritmo, desgovernado, rumo a um caos colorido de sensações, cheiros, sabores, momentos, ideias e memórias relativos a outro coração, rumo àquela confusão simbiótica, familiar em tudo o que noutro era estranho, íntimo e exclusivo em tudo o que no outro era trivial. A paixão é o acaso predestinado. É o eterno finito. É, como se vê, a novidade em todos os clichês. Que venham as flechas, que nunca parem, que façam sangrar, que provoquem orgulho, aquele orgulho de poder andar por aí, de peito aberto, sangrando, sorrindo e dizendo: “Eu nunca me senti tão bem!” [trecho queimado, ilegível] ...sangue. Às vezes a hemorragia para, o que pode ser triste. A experiência diz que quando isso acontece, a melhor coisa a fazer é seguir em frente – e cometer a abençoada insanidade de expor o coração novamente, cicatrizado ou não. É só abrir o peito e abraçar os perigos. Você também é um perigo ambulante.

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