4 de setembro de 2015

nota_202: Tero Takalo II

Parece que trechos dos diários de Tero Takalo continuam emergindo pela web. Os mais recentes, publicados neste site, são de uma fase pouco conhecida da vida daquele grande homem, o período conhecido como “a monodiáspora”. Claro, o termo esquisito foi cunhado pelo próprio Takalo. Curioso é este período específico ter sido batizado assim, quando toda a vida dele foi uma diáspora.

Takalo morou em várias cidades, nacionais e estrangeiras. Sua vida começou em Santa Cruz do Capibaribe, Pernambuco. Seguiu para Recife e Olinda. Prosseguiu para o Rio de Janeiro, onde fez encontros fundamentais para tudo o que veio depois; farei um esboço desta passagem assim que conseguir compilar um mínimo de trechos dos seus diários sobre este período carioca. Óbvio que outros já escreveram sobre a mesma época, mas prefiro as observações do próprio Takalo. Depois do Rio, ele foi a Medelín (Colômbia), Guadalajara e Mezatlan (México), Fort Nelson, Whitehorse e Inuvik (Canadá – como ele suportou o frio?), Yokohama (Japão, onde ficou apenas cinco dias; ele viajou de barco e odiou aquela viagem), Nha Trang (Vietnã), Mogadíscio e Marka (Somália), Ankara (Turquia), Odessa (Ucrânia), Paudalho (Pernambuco novamente), Brasília (Distrito Federal, seu período mais extenso em território brasileiro), Paris (França), Sevilha (Espanha, ele adorou as touradas e se julgava mais entendedor delas que Hemingway), Lviv (Ucrânia, mais uma vez) e, antes e voltar à Brasília para sua última década de vida, Takalo deixou Lviv e passou anos incógnito. Quando voltou à Brasília para morar, viver e morrer, estava radiante, lindo, otimista, sifilítico, jovial, fanfarrão, sábio, confuso e humorado. Perguntado por onde havia andado antes de chegar em Brasília, Takalo ficava vermelho como um pimentão, sorria e não falava nada.

Todas as anotações de Takalo à época da “monodiáspora” fogem às tradicionais narrativas sexuais, elogios culinários (que muitas vezes envolviam sexo), ficções à clef inacabadas, descrições pormenorizadas dos corpos das mulheres com quem dormiu, rompantes obsessivos sobre o uso de lápis e canetas, reinvenções (ele tinha o hábito de recriar no papel qualquer coisa de que não gostasse: os sapatos de uma mulher, uma praça ucraniana, um véu somali, qualquer coisa), cartas nunca enviadas para própria família. No período da “monodiáspora”, só anotações sobre a arte do amor – e é por isso que estou aqui tratando do assunto novamente. Não há datas, não há registros de lugares, não há nomes de personagens, nem nomes próprios de qualquer natureza. Fico muito intrigado com esta divergência no modus operandi dele.

Eis mais um trecho de Tero Takalo, sobre o amor:

“[...] como se fizesse alguma diferença, essa aparência de eternidade. Eu lembro dos meus avós, velhotes amarrotados e enrugados, de mãos dadas, conversando no terraço. Eles já não se ouviam direito, também não se importavam em repetir o que diziam. Cada um já fingia ouvir o que outro havia dito, ambos muito à vontade com isso, e cúmplices. Era como se fossem uma só pessoa fracionada em duas, à moda de Platão. Eles se encaixavam tão perfeitamente que me pergunto se algum dia eles haviam sido minimamente diferentes um do outro. Eu mal conseguia diferenciá-los, senão pelo fato de que minha avó tinha cabelos cor de prata, reluzentes, que ela deixava soltos, leves, lisos e esvoaçantes, como numa assombração cinematográfica, e meu avô era completamente careca, complementando, assim, o quadro de terror de dois velhos esqueléticos, banguelas e sorridentes. E felizes. Um horror.

Eu não sei como a coisa chega a esse ponto. O amor, quero dizer. Esse ponto na vida de duas pessoas em que elas se tornam indistintas, uma renúncia a si mesmo que não consigo conceber, nem saber se foi algo que evoluiu ao longo de décadas de convívio ou se fez presente no momento em que se descobriram apaixonados. Ainda está cedo. Eu não sei como a coisa chega a esse ponto porque hoje, aqui em X, depois de tudo o que tem acontecido [ao que Takalo se refere? Onde é “aqui”?], eu vejo como a diferença é a coisa mais importante em dedicar seu coração a alguém. Você não merece meu amor pelo que você tem de igual em mim, como dizia Freud. Eu já me amo o suficiente em tudo o que é meu, em tudo no que me vejo. Na verdade, o que você tem de desigual, de diferente, de inédito, de estranho, de incomum, de encantador que possa fazer este meu Eu ver novas cores e crescer? De que maneira você pode me causar espanto? Você é sedutora até quando mostra seu lado mau? No que você é indiscutivelmente melhor que todas as outras pessoas? Eu preciso acreditar que você seja melhor que os demais seres humanos em alguma coisa. Eu quero sentir uma nova você a cada vez que olhar nos seus olhos. Eu quero ver você brilhar a cada perigo que eu lhe apresentar. "
Tero Takalo, senhoras e senhores.


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