22 de dezembro de 2015

nota_206: Os pontos infinitos

Publiquei primeiro no MMA Brasil.

Cansado de ver lutas pontuadas bizarramente? Lutador vencendo sem ter sido mais contundente durante todo o combate? O ROAD FC vai testar um sistema que pode começar a resolver os problemas.

Dois lutadores sobem ao ringue, são apresentados ao público, ouvem as instruções finais, tocam as luvas e começam a se destroçar. Um deles, em dez segundos de luta, aplica umknockdown sobre seu oponente. O agressor tenta encerrar a luta com um ground n’ poundfurioso, mas, de tão afobado, não consegue conectar nenhum golpe, porque seu oponente se esquiva e protege o rosto com as mãos. O agressor consegue a montada, continua tentando o ground n’ pound, ainda sem sucesso. Os golpes batem nas luvas do oponente, passam de raspão, atingem o ar, o chão. O oponente faz fuga de quadril, tenta o “upa”, revida de baixo para cima, volta a proteger o rosto. Está recuperado, mas, mesmo oriundo do wrestling, não consegue se livrar da montada. O agressor está cansando, o pico de adrenalina inicial, por ter conseguido o knockdown, está drenando seu combustível. Com socos e cotoveladas cada vez mais espaçados, aproveita uma quase brecha para aplicar um katagatame. Ele até encaixa, mas o oponente faz a defesa, “atende ao telefone”, e o que agressor consegue é só ficar mais cansado. Depois de 27 segundos desperdiçados num katagatame inútil, o agressor tenta controlar o oponente nos cem quilos, mas foi por pouco tempo. O oponente se desvencilha, se levanta, anda para trás e recupera o fôlego ao longo do ringue. Ele olha para o relógio. Falta um minuto e 37 segundos para o fim do primeiro round de cinco minutos e ele está nove pontos atrás do seu agressor.

Não, ele não está nove pontos atrás pelo que você está pensando. De acordo com a nossa experiência, um dos lutadores sairia vencedor deste round porque foi superior ao outro. Um teria dez pontos, outro, nove. Nos noventa e sete segundos restantes, ambos recuperariam o fôlego para o segundo round, cada um convencido da impressão que causou nos juízes laterais. “Você venceu este round”, ouviria um quando chegasse ao seu córner. “Precisamos recuperar nos próximos dois rounds, campeão”, ouviria o outro.

Contudo, este não é o contexto da nossa luta. Em nossa luta, faltando um minuto e 37 segundos para acabar, teria um desenrolar diferente. Nosso wrestler poderia fazer o seguinte cálculo (um de uma infinidade): aplico uma queda e desço o cacete. Pois é isso que ele faz. Aplica um double-leg e emenda um ground n’ pound, que rende um supercilho cortado, um nariz sangrando e outros souvenires. Soa o gongo. A luta está agora empatada, nove a nove. Ambos ouvem a mesma coisa quando chegam ao córner: “Vamo ganhar saporra!”.

Eu tive que me atribuir o papel de juiz desta luta para falar de um sistema de pontuação. Veja, o Road FC, organização sul-coreana de MMA, no próximo dia 26 de dezembro usará outro sistema de pontuação, não o corriqueiro de dez pontos, no qual o vencedor doround fica com a dezena e o perdedor fica com nove unidades ou menos. No ROAD FC 027, será usado o Sistema Ilimitado de Pontos, que, de acordo com a própria instituição, funcionará assim: “(…) pontos serão conferidos a ações e atividades específicas. Um ponto será dado por golpe claro, queda, quase finalização, montada, mochilada, controle claro de chão e agressividade. Cinco pontos para cada knockdown”. Mais: “Todos os pontos serão somados ao longo da luta, e não round por round.” Neste sistema, eu não sei como chutes na perna funcionariam.

Nos eventos mais populares hoje, predomina o sistema de pontuação oriundo do boxe, o de dez pontos, como mostrei no parágrafo anterior. A luta também é avaliada por round e não em sua completude. Além disso, os juízes, em sua maioria, vêm do boxe e são poucos familiarizados como coisas como a guarda do jiu-jítsu e os chutes na perna. É uma soma estranha: tanto os responsáveis por aplicar o sistema quanto o próprio sistema são oriundos de outro esporte, que é apenas parte do MMA. Óbvio que as coisas estão mudando – não tão rapidamente como gostaríamos – e eu estou pintando muito mais um retrato da realidade norte-americana do que global, mas ainda falta muito para haver predominantemente juízes de MMA, que tenham aprendido a julgar com lutas de MMA.

Outra coisa problemática com o sistema de dez pontos é que incentiva a administração morosa de lutas. Noutras palavras, este sistema favorece o cozimento do galo, com algumas receitas: ou aquela do controle da distância e do centro do ringue com golpes eventuais, às vezes certeiros, mas pouco contundentes, ou aquelas quedas somadas a controle de chão e ground n’ pound, mais para evitar a inatividade do que para agredir, ou chutes de perna temperados com clinch na grade e dirty boxing, ou outras combinações. É claro que isso tudo é esquecido por quem quer ir lá e quebrar a cara do coleguinha. A questão aqui é que este sistema de pontuação não exatamente incentiva a pancadaria. Umknockdown ou uma queda seguida de controle valerão a mesma coisa ao fim do round. Se um dos irmãos Diaz passar um round inteiro acertando o nariz do adversário sem danos significativos (como costuma acontecer), ele levará o round da mesma forma que um Rafael dos Anjos, que costuma ser mais contundente, para dizer o mínimo. O vencedor doround será quem aplicar ou uma queda ou uma surra, sendo queda e surra duas coisas de volumes bem distintos, que deveriam ser recompensadas de formas diferentes.

Daí que iniciativas como aquela do ROAD FC devem ser observadas. Ainda há pontos muito sensíveis no sistema deles a serem discutidos, como os chutes na perna, as “quase finalizações”, além do onipresente subjetivismo humano (para a luta descrita no início do texto, aposto que nem todos a viram e a pontuaram como eu), mas há o ponto positivo de incentivar a ação em busca de resultados expressivos e não a manutenção de resultados garantidos.

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