30 de dezembro de 2015

nota_207: A mãe bacante

Publiquei primeiro no Medium.

Ela dançando seminua. Seios à mostra, saltos altos, pulseiras, colares, adorno de penas na cabeça. Dançando sobre um palco, sozinha em cena. Não lembro como era a música, mas era enérgica, ou dava essa impressão. Ela dançava sorrindo. É a primeira imagem que tenho da minha mãe. Ela era atriz.

A precisa data desta imagem eu não tenho, mas foi ou em 1983 ou 1984. Foi o último ano de existência do grupo teatral do qual fazia parte, o Vivencial Diversiones. Era um dos principais grupos de Pernambuco, nos anos setenta, na mesma linha da companhia carioca Dzi Croquettes. Foi um grupo do desbunde, do escracho, da "práxis do improvável junto à epifania da desordem". Funcionava em Olinda, em teatro próprio, num misto de bar, cabaré, spa e tudo o mais que possa proporcionar diversão. Eu mesmo morei lá quando pequeno, lembro do meu primeiro banho de piscina (sim, havia uma piscina lá), da primeira vez que vi um beijo entre duas mulheres, da minha primeira coleção de grilos (havia, digamos, um "jardim") e da primeira vez que fiquei em dúvida se travesti era menino ou menina. Era um ambiente livre e marginal, irreverente e transgressor. Era tanto um grupo quanto uma comunidade, composta por todo tipo de seres humanos, todos aparentemente felizes. Um lugar onde a sexualidade era livre em todas as suas cores e onde ser homossexual era motivo do orgulho. Era, na verdade, uma celebração da homossexualidade em plena ditadura militar. E no nordeste, veja bem. Caetano Veloso definiu o Vivencial como "teatro nô punk zen". Este grupo fez história no teatro pernambucano. Um dos melhores filmes de 2013, Tatuagem, dirigido por Hilton Lacerda, conta a história de uma companhia de teatro chamada Chão de Estrelas, que é inspirada nesta companhia da qual minha mãe fez parte. Não só minha mãe: meu pai e um tio foram os fundadores do grupo. No filme, o protagonista vivido pelo ótimo Irandhir Santos é inspirado no meu pai. O filme é excelente.

Minha mãe subiu no palco até o sexto ou sétimo mês de gravidez. Ela me contava muito sobre a época do teatro e sobre a profissão de atriz. Ela me contava muitas historias da época do palco e eu gostava de ouvir. Alguns anos depois de o Vivencial fechar, minha mãe encontraria Jesus e mudaria radicalmente de gostos. Ela provavelmente ficaria chateada em saber que eu a achava mais interessante sem a companhia do Cristo, mas mãe é mãe, e eu não tenho de achar nada.



Contudo, filho é filho, e uma prerrogativa da pirralhice, independente da idade, é cometer peraltices. Então vou continuar escrevendo o que tinha em mente, e não vou poupar ninguém de um Édipo "acidental".

Antes e depois de Cristo, os traços de personalidade da minha mãe permaneceram razoavelmente inalterados, de acordo com o que me disseram tios, tias, primos e primas em conversas particulares. Eu tive mais convívio com a mãe d.C., por isso tive de fazer uma pesquisa, sendo a mãe a.C. mais um mito, um ícone, um arquétipo intangível. Hoje, depois de ter virado pai e passado eu mesmo por algumas metanoias - que jamais cessam, porque viver é mudar -, eu já consigo conciliar as duas mães numa pessoa só. Por décadas, eu não conseguia. Aquela mãe em recortes de jornal, em livros, em fotos de estúdio, linda como Marlene Dietrich (a semelhança era espantosa!), aquela mãe dançante e sensual da minha primeira memória, aquela não parecia muito com aquela outra que me levava à igreja e falava de Satanás em tons demeritórios. Não adiantou muito criticar Lúcifer, aliás, porque eu sairia da igreja na adolescência justamente para encontrar o black metal. Isto é, o Satanás.

Mesmo crente, porém, a mãe d.C. guardava um carinho especial pela profissão de atriz, que foi diminuindo com o tempo. Enquanto havia este apreço, cresci ouvindo elogios a performances de atores, brasileiros e estrangeiros. Lima Duarte, Fernanda Montenegro, Paulo Autran, Walmor Chagas (meu predileto), Marília Pêra, sempre que alguém desse calibre estava atuando à nossa frente, ela tinha comentários a fazer, mais sensitivos que técnicos, mas sempre valorosos. Um dos legados desses elogios foi ter também assimilado esse gosto pela atuação, que uso muito mais na hora de escrever, ou quando preciso dar aulas. Mas também admiro, como obra de arte que de fato é, a performance de quem atua, de quem dança, de quem canta.

Ver uma boa interpretação ou desempenho, na tela ou no palco, tem um efeito que vai além do "espelho de paroxismo" de que fala Michel Leiris, outro ídolo pessoal. Eu entenderia este efeito décadas depois daquela primeira imagem materna, quando começaria a namorar uma cantora. Vê-la no palco, cantando Led Zeppelin, foi mesmerizante, porque, além de ela mesma ser maravilhosa, aquela performance me transportaria para outro lugar em mim mesmo, para aquele Guilherme infante, encantado com uma mulher nua, dançante e livre.

Como disse, eu já consigo unir as duas mães numa só pessoa, somos todos assim, multifacetados e constantemente em transformação. Amo a mãe d.C., mesmo que tente apresentar Jesus a mim, contra minha vontade. Mas me sinto mais familiarizado com aquela mãe bacante.

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