13 de janeiro de 2016

nota_208: Os pontos infinitos, parte 2

Publiquei primeiro no MMA Brasil.

O primeiro evento do ROAD FC com as novas regras de pontuação aconteceu no final do mês passado. Tentamos pontuar uma luta de acordo com os critérios adotados pela organização.

Na madrugada do dia 2 de janeiro deste ano, Robbie Lawler e Carlos Condit quebraram o pau na disputa de cinturão dos meios-médios, no duelo principal do UFC 195, em Las Vegas. A luta durou os cinco rounds tradicionais de disputa de cinturão e acabou sendo decidida pelos juízes. A decisão não foi unânime, Robbie Lawler permaneceu campeão por decisão dividida. Dois dos três juízes laterais viram Lawler como vencedor, pois consideraram que ele venceu três dos cinco rounds. Um dos três juízes viu exatamente o inverso: Condit vencera três rounds. A numeração final de toda essa aritmética foi 48-47 para Condit e 48-47, duas vezes, para Lawler. Quem viu a luta sabe que foi um festival homérico de pancadaria, com técnica. Foi um espetáculo incrível de se ver. Muitos discordaram da decisão oficial, como eu. Alguns concordaram. Concordando ou discordando, a maioria dos fãs fala que a luta poderia ter ido para qualquer lado. A qualidade técnica e a ferocidade de ambos, Condit e Lawler, proporcionaram essa ambiguidade no resultado (“poderia ir para qualquer lado”), mas não seria melhor um resultado menos ambíguo?

Podemos usar outro exemplo, ainda fresco na memória: Ronaldo Jacaré versus Yoel Romero, pelo UFC 194, também realizado em Las Vegas. Foi outra decisão dividida – Romero venceu –, mas numa luta de três rounds. Para complicar um pouco mais a aferição do resultado, o combate foi julgado round a round, e não em sua completude, como é próprio do sistema de dez pontos (como dito no artigo anterior). Ao contrário de Lawler-Condit, um combate que se manteve parelho em cinco rounds, Jacaré foi claramente superior no terceiro assalto, aplicando mais golpes, sendo mais contundente, demonstrando mais volume. Se a luta fosse julgada em sua completude, talvez Jacaré fosse o vencedor, pois num único round ele aplicou mais dano que nos dois rounds morosos anteriores. Me vem à memória o exemplo longínquo de Lyoto Machida versus Rampage Jackson, no distante UFC 123. Foi a mesma coisa.

Daí que em 26 de dezembro de 2015, o evento sul-coreano ROAD FC, em sua vigésima sétima edição, estreou um novo sistema de pontuação, o “Sistema de Pontos Ilimitados”. A lutas (de dois rounds) são julgadas em sua totalidade, cada golpe claro vale um ponto eknockdowns valem cinco. Também valem um ponto quase finalizações, controle de chão, montada e mochilada. Um ponto para agressividade. Assim, cada movimento do atleta na luta pode ser recompensado de forma direta nas papeletas, mesmo que ainda esteja presente a subjetividade intrínseca de ser avaliado por um ser humano fora da grade. É uma grande iniciativa, porque é uma tentativa de criar uma maneira de julgar própria do MMA.

A organização do ROAD FC disponibilizou em seu canal no YouTube uma das lutas do evento do dia 26 de dezembro que foram para a decisão dos juízes. Um combate entre os pesos leves Munguntsooj Nandinerdene e Yancang Bao (vídeo com a íntegra abaixo). Considerando a familiaridade com o esporte e as indicações de placar dadas acima, assisti à luta e pontuei 44 a 28 para Nandinerdene (Bao conseguiu um knockdown). Eu realmente duvido que você veja a mesma quantidade de pontos que conferi a cada um dos atletas se você tentar pontuar a luta de acordo com as regras disponibilizadas pelo evento.

Além da subjetividade que mencionei três parágrafos atrás, há também a cultura que envolve o esporte. MMA é uma modalidade jovem e, em termos organizacionais, ainda primitiva – não existe uma FIFA ou uma IAAF do MMA, por exemplo. Ainda é um esporte sujeito a variações locais, sendo a variação mais popular aquela representada pelas comissões atléticas americanas que regulam o UFC, que usa o sistema de pontuação do boxe, sistema sobre o qual temos ressalvas. Há esportes que têm uma longa tradição com sistemas de pontuação, como os olímpicos saltos ornamentais e hipismo. Cito dois esportes que não são de combate para demonstrar que o sistema de pontuação de ambos é confiável porque é sob medida para as modalidades que arbitram. Além disso, há instituições internacionais por trás dessas modalidades, o que facilita tanto a contestação quanto a ratificação de resultados.

Por sinal, até a conclusão desta segunda parte do artigo sobre a iniciativa do ROAD FC, a própria organização ainda não havia disponibilizado, nem para este site nem para o mundo, a contagem final e oficial de pontos do combate entre Munguntsooj Nandinerdene e Yancang Bao. Uma omissão grave que, como disse um colega da nossa equipe, põe até em dúvida se a pontuação realmente existiu. Isso é mais um comprovante de que a juventude do MMA ainda não criou o juízo suficiente para ter uma instituição central que ditasse os procedimentos de registros de resultados, uma demanda que as instituições locais, sozinhas, não preencherão.

Enquanto o MMA amadurece, apreciemos os quebra-paus.

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