25 de janeiro de 2016

nota_210: Sobre si mesmo.

Este blog tem dez anos. Nos últimos tempos, ele tem servido como uma coletânea das coisas que escrevo por aí, mas já passou por muitas fases. Meses produtivos, longos períodos de ausência, dias de frenética produção, centenas de rascunhos que jamais foram publicados. Foram muitas fases, reflexos do que eu vivia por trás da tela. Reflexos enviesados, mas um ou outro, às vezes, mais fiel à realidade além deste teclado. 

Em 2005, eu tinha dois blogs e participava de um terceiro, um coletivo. Era a época do Orkut. Muitos daqueles textos deixaram de existir. Quase nada do que escrevi online antes de 2005 sobreviveu à onda de deletes que provoquei no segundo semestre daquele mesmo ano. Quase nada, disse. Porque há três textos guardados. Um em e-mail, os outros dois aqui, neste blog, que são as duas primeiras publicações: uma sobre Edward Hopper, outra sobre Robert Capa. Ambas foram publicadas num bloguinho com o pretensioso nome de Artis Opus, um projeto que tive de apenas escrever sobre obras de arte. O texto sobre o Capa é o que inaugura este novo endereço, foi publicado aqui em dezembro de 2005, mas escrito meses antes, não saberia dizer quando. 

Um pouco mais de dez anos depois, eu releio aquele primeiro texto. Quando foi escrito, eu ainda não era pai, um status que faz toda a diferença, porque o nascimento da minha filha transformou tudo, todo o universo. Muita coisa mudou de lá pra cá, coisas mudam todo dia, toda hora, todo minuto. No entanto, então como agora, havia a certeza de que só uma coisa importa nessa vida, depois do amor (que a tudo alimenta): a literatura. Mesmo assim, esta certeza variou de objeto nesta última década e por um punhado de vezes eu substitui a literatura por ideias sem sentido ou mesmo por nenhuma ideia. Só é curioso que esta certeza esteja vigorando agora, como vigorava àquela época.

Eu poderia escrever aqui como um louco sobre o quanto as coisas mudaram, sobre tudo o que aconteceu, sobre os relacionamentos que circularam e os que cessaram, mas não teríamos tempo suficiente para narrar tudo, e seria uma narrativa borgeana, porque além de tentar cobrir a infinidade de acontecimentos que desabam sobre a vida de uma pessoa (e que ela faz desabar sobre si) durante uma década, esta narrativa continuaria comigo aqui, escrevendo incessantemente futuro afora enquanto você lesse internet adentro. Não é o objetivo deste post, que tem um objetivo: uma resumida releitura daquela primeira publicação. Como este Guilherme comentaria o texto daquele Guilherme? 

legenda: "foto de si mesmo para um post sobre si mesmo em um blog sobre si mesmo"
O texto em questão se chama Morte de um soldado legalista, assinado por Guilherme Montana.

Sobre o título do post, ele reproduz o próprio nome da foto em questão, a lendária foto em que um miliciano espanhol é atingido na cabeça durante a Guerra Civil Espanhola. A foto é de setembro de 1936 e foi tirada no front de Córdoba. O fotógrafo é Robert Capa. 

Morte de um soldado legalista. Espanha, setembro de 1936. 

Quanto à autoria, o nome Guilherme Montana foi escolhido quando eu cursava uma das quatro faculdades que cursaria durante a vida (até o momento). No início dos anos 2000, eu era estudante de Comunicação, época em que contrai o cacoete, que não quero abandonar, de escrever nomes de cursos superiores com inicial maiúscula. No momento do vestibular, escolhi a habilitação Jornalismo. Como eu e meu pai temos o mesmo nome e eu seria aluno dele em algum momento durante o curso (como acabei sendo logo no primeiro semestre), eu definitivamente precisava de um nome só meu. O posto ocupado hoje por Michael Fassbender como ator preferido pertencia a Al Pacino, que estrelou um dos meus filmes prediletos de todos os tempos, Scarface. No filme, a história do protagonista Tony Montana começa em maio de 1980, que são o mês e o ano do meu próprio nascimento. Escolhi o Montana para meu cognome. Mas não sem um certo questionamento. Fiquei em dúvida entre Brigante (de Carlito Brigante, do mesmo Pacino, em O Pagamento Final) e Corleone (de Michael Corleone, idem, em O Poderoso Chefão). Montana era mais latino, me parecia mais sonoro e tinha mais A's - meu nome não tem a letra A, sempre fui encucado com isso. Vivi alguns anos como Guilherme Montana, que é meu apelido para muitas pessoas ainda.

O post começa assim:
Uma hora a hora chega, e chega mesmo. Num segundo, a vida cessa, acabou. Não conheço ninguém que tenha vivenciado aquele famoso limiar entre a vida e morte, nem eu o vivenciei, infelizmente, p'ra dizer como é. Só nos resta imaginar como seria, cada qual se baseando em suas crenças particulares, ou em suas descrenças, tanto faz.
Dramático! Taí um primeiro parágrafo afetado, mas sincero, cheio de energia. Hoje, com tanta coisa p'ra fazer, é mais fácil dosar o tempo e a energia à frente do computador. Naquela época, não. Guilherme Montana deve ter escrito esse post em questão de horas, como o Pontes Coelho continuaria fazendo, sendo a diferença entre um e outro uma mudança involuntária, o envelhecimento relativo do autor, que tenta controlar o ímpeto à frente do computador tanto para poder fazer coisas de adulto nos interstícios de tempo quanto para soar mais maduro na superfície do texto publicado. Sem controle, o autor dramatiza, e paquera a redundância (outra coisa em comum entre Montana e Pontes Coelho, mais acentuada naquele que neste). 

É claro que Pontes Coelho reescreveria todo aquele primeiro parágrafo, adicionando mais palavras e diluindo o tom performático em entrelinhas. Pontes Coelho poderia se ocupar em cada período e dedicar um post inteiro a cada um, visto que, embora diferentes, Montana e Pontes Coelho são as mesmas entranhas. Chafurdar em si mesmo é uma arte ontológica. Porém, não. De todo este primeiro parágrafo, um trecho me espeta a atenção e me obrigada a falar apenas sobre ele, que é este advérbio maroto: "infelizmente". 

"Não conheço ninguém que tenha vivenciado aquele famoso limiar entre a vida e morte, nem eu o vivenciei, infelizmente, p'ra dizer como é." Ainda bem que eu não o vivenciei, Guilherme Montana. Sem dúvida seria uma boa experiência a ser narrada, mas os últimos dez anos e tudo o que aconteceu neles me abriram os olhos para um certo medo da morte, para o receio de não aproveitar o tempo de forma produtiva. Nós só vamos viver esta vida uma vez, é bom fazer valer a pena cada momento, mesmo que envolva um desperdício ocasional de minutos, ou horas. Todo tempo é precioso, inclusive o desperdiçado. Graças a ele é que evitamos a obsessão desenfreada de a tudo aproveitar a todo instante, que vai contra o espírito do bem viver.  

Por já ter passado dos trinta e já ter alcançado a metade da vida, é óbvio que pensamentos mortíferos já me visitaram, mais de uma vez. Toda aquela cobrança sobre si mesmo, toda a decepção causada por não corresponder às expectativas alheias e toda a energia consumida para digerir o fato de que as expectativas são alheias e que, portanto, elas que se fodam, puseram o autor em contato com pensamentos sinistros. Felizmente, estou vivo e não experimentei o tal limiar entre a vida e a morte que o Guilherme Montana gostaria de ter experimentado. Contudo, colocando de outra forma, experimentamos este limiar incessantemente. Estão aí as balas perdidas e os maus motoristas (sou ciclista urbano) para provar. Todo segundo vivido é um segundo de vida e vivenciá-lo é estar no lado bom daquele limiar. Guilherme Montana estava se referindo àquele limiar televisivo e cafona, o túnel, a luz, todo aquele imaginário do cavaleiro ferido, ensanguentado, prostrado no chão, após um torneio de justa do qual saiu perdedor, com a cabeça no colo do seu escudeiro e o pensamento na donzela por quem era apaixonado. Podemos substituir esta imagem por outra mais cafona e que eu adoro, uma do filme Cidade dos Anjos: Meg Ryan à beira da estrada, atropelada, vendo os anjos se aproximando, grata por tudo, enquanto o ex-anjo Nicholas Cage se desespera pela perda iminente do seu amor. O ex-anjo depois aprenderia a viver, tendo aprendido uma lição básica desta nossa jornada: viver é seguir em frente. Pois veja, Guilherme Montana, todo tempo que passa é Meg Ryan, todo tempo que vem é Nicholas Cage. Não precisamos de uma experiência X ou Y do limiar entre vida e morte. O tempo já é este limiar. 

Aí vem o segundo parágrafo: 
Assumo, com toda sinceridade que me posso oferecer, que em relação à morte não sei se há vida depois, ou coisa que lhe seja semelhante. Reencarnação, Paraíso, Inferno, "fluxo atemporal da vida eterna", o que for: qualquer coisa que ateste uma existência após essa vida que vivemos agora me é estranha e duvidosa. Sobre isso prefiro me abster. Eu, realmente, não faço idéia da idéia que tenho sobre isso. Mas posso imaginar, assim como todos nós, como é o pico-segundo que separa nossa existência do nada, ou do "alguma coisa além" para outros.
O tom afetado é característico de todo o texto, vou me abster de apontar esta característica daqui pra frente (mesmo porque eu curto um texto performático de vez em quando). Guilherme Montana sempre chamou a atenção dos colegas rascunhadores por esses rebuscamentos, algo que Pontes Coelho absorveria, mas que emularia, ou tentaria emular, de forma queiroziana. 

Continuo sem fazer ideia da ideia que tenho sobre vida após a morte. À mente, me vem o binômio Meg Ryan-Nicholas Cage já desenvolvido acima. O que mais gosto neste parágrafo é o "com toda sinceridade que me posso oferecer". Mais um comentário sobre a maneira de Montana escrever do que exatamente o que ele disse: este máximo de sinceridade a que Montana se permitiu, e que se manifesta aqui novamente, nesta exegese, é filha da leitura que Montana fez e Pontes Coelho faria de um livro essencial para ambos, um livro que está na lista dos dez mais de ambos, do único autor que tem dois livros nesta lista. O livro é A idade viril, de Michel Leiris, já comentado neste blog (o outro livro do daquele autor seria O espelho da tauromaquia). A ideia de falar de si sem reservas sempre me foi atraente e está registrada em vários moleskines, sendo este post uma versão sincera da fala com reservas. O que Montana fez foi uma autocrítica quanto à sua capacidade de ser sincero, que eu acho bonita, mesmo que redundante. Nas entrelinhas deste parágrafo, mais que o assunto vida após a morte, o que fica exposto (ou sobre o qual prefiro comentar) é a marca deixada por Leiris, que reverbera nestas linhas que você lê. Leiris faz um balanço geral investigativo e ensaístico sobre si mesmo quando atinge o que chamei noutro post de "a metade da vida". Estou tentando fazer isso agora, mas me restringindo a um texto específico e deixando mais lacunas biográficas para quem lê.

Continuando, o parágrafo seguinte é:
Robert Capa, fotojornalista. Foi especialista em guerras. Cobriu algumas... Guerra Civil Espanhola, Segunda Guerra Mundial, Guerra do Vietnã... Seu lema foi: "Se suas fotos não estão boas o suficiente é porque você não está perto o bastante." Já a partir de sua filosofia se vê que a vida era de tal forma intensa que era preciso ficar cada vez mais perto, era preciso a maior proximidade possível dela para registrá-la. E a vida é assim mesmo: ela está presente em tudo, a toda hora, mas passa, passa incessantemente e quando menos esperamos – já foi! Paradoxal isso, é verdade, mas não tenho como colocar de outro jeito, se outro jeito houver.
Prosseguindo, o próximo parágrafo, o quarto (algo me diz que o silêncio sobre este terceiro parágrafo é muito eloquente, uma reserva que não consigo compreender e à qual não quero me dedicar agora): 
O trabalho fotográfico é precisamente captar e registrar aquele ínfimo instante de vida que carrega um conteúdo de expressão tendente ao infinito. É conseguir capturar aquele momento, aquele momento de paroxismo. É nisso que o fotojornalismo se transforma em arte – ele capta a quintessência de um instante e o eterniza. A imagem, que é obviamente o registro deste instante, leva à posteridade um momento específico seja de dor, seja de sofrimento, seja de alegria. Curioso é perceber como o fotógrafo mediante a imagem captura algo em determinados tempo e espaço e esse algo se torna atemporal e universal. Noutras palavras, um ser humano, localizado em determinado espaço, situado em determinado tempo, exclui tanto o tempo quanto o espaço mediante a imagem ao registrar um evento, evento este que muitas vezes envolve outro ser humano. Acredito que essa eternidade conferida ao evento fotografado se deve ao fato de que o agora foi agarrado pelos cabelos e fixado em imagem.
Nos últimos dez anos, quando vez ou outra eu relia este texto sobre a foto do Capa, eu via este parágrafo como uma boçalidade só. Eu nunca fui o maior entendedor de fotografia, apenas apreciava alguns fotógrafos, como Capa, Mapplethorpe e Sebastião Salgado. Ainda hoje eu não entendo e o uso de aplicativos de fotografia turvou minha visão dessa arte. Mas releio este parágrafo, agora, e vejo o quão Guilherme Montana estava apaixonado pela fotografia e fico orgulhoso. 

Há, novamente, um Leiris nas entrelinhas, em "aquele momento de paroxismo". Todo o texto sobre a fotografia do Capa é fruto da leitura de O espelho da tauromaquia, que é uma ode ao paroxismo. Guilherme Montana sempre teve uma vida muito insensata e cheia de acidentes, paroxismos não faltaram, mas não do tipo do qual se orgulhar. Paroxismos deste tipo, só muito depois, quando Pontes Coelho conheceu o amor. 

Achei que quando chegasse a esse parágrafo, eu seria a Heliodora de mim mesmo, Pontes Coelho destruindo Montana. Mas não. O parágrafo em questão é lindo em toda sua falta de conhecimento técnico, em toda sua boçalidade e, sobretudo, em toda a sua paixão. Montana estava apaixonado pela arte e que se foda. 

Daí o texto continua num parágrafo confuso:
No caso aqui apreciado, a foto "Morte de um Soldado Legalista", esse agora representa o exato instante em que o mesmo agora não existe mais. Não existe mais pelo menos pelo que posso imaginar. O agora de Federico Borrel, o soldado fotografado, é a morte, é o cessar de viver. A imagem apreendeu precisamente a ocorrência da vida que deixou de ser, do pico-segundo que separa nossa existência de outra coisa, que p’ra mim seria o nada.
Quando Guilherme Montana diz que "A imagem apreendeu precisamente a ocorrência da vida que deixou de ser, do pico-segundo que separa nossa existência de outra coisa, que p’ra mim seria o nada" ele está muito, mas muito troncho. Antes ele disse que não fazia ideia do que aconteceria depois da morte, agora ele diz que o que vem depois da vida é o nada. Não sei que ponto de vista ele adotou para escrever este parágrafo. Não pode ser o do soldado, pois este é do soldado. Não pode ser o dele, ou melhor, é o dele, mas é um contraditório. Muito confuso, esse Guilherme Montana. Talvez deixou-se levar pelo ímpeto sobre a teclas. Ou fosse uma resposta que, no fundo, quisesse dar. Pontes Coelho, no entanto, continua sem fazer muita ideia do que vem depois.

Pontes Coelho tem poucos comentário ao microparágrafo que veio logo após:
Também é curioso ver como o Belo nesta obra de arte é a morte. A máxima de que o Belo independe do Bom ou do Mal me é verdadeira
Como se vê, uma leitura equivocada de Hegel na primeira sentença, uma leitura de Hegel mais ou menos sensata e rebuscada na segunda.

Daí vem o sétimo parágrafo: 
Olhe a foto. Federico Borrel é o nome deste soldado. Ele teve uma vida da qual não fazemos a menor idéia, assim como a maior parte da humanidade que nasceu, viveu e morreu e nem fazemos idéia disso, uma imensa população de anônimos, tanto quanto somos anônimos a intermináveis outros. Saramago já expôs isso melhor que eu, claro está.
É um lindo parágrafo porque homenageia Federico Borrel, reforça sua personalidade perante a História, como se, depois dessa foto, ele precisasse disso. Mas é bonito ver que Guilherme Montana se importou com o soldado e universalizou o desconhecimento de sua vida como equivalente à nossa própria anonimidade perante os outros. Mas me sinto um pouco estranho quanto à citação a José Saramago. 

Eu tive minha "saramaguite". Li vários deles seguidos madrugada adentro, fazia propaganda adoidado para todo mundo sobre ele e até chorei quando terminei de ler Ensaio sobre a cegueira. Hoje, o único livro dele que tenho em minha biblioteca é justamente o meu predileto, O Evangelho Segundo Jesus Cristo. É, já foi meu autor predileto, como já foi Gabriel Garcia Marquez. O posto hoje é dividido entre Jonathan Franzen e Liev Tolstoi

Os últimos dois parágrafos:
Federico Borrel. Soldado legalista espanhol que morreu lutando por algo, em 1936, com uma arma na mão e um tiro na cabeça. No entanto, ei-lo aqui, neste sítio, visualizado por nós. Robert Capa, o grande fotojornalista do século XX, eternizou o pico-segundo do limiar entre a vida e a morte na vida de Federico Borrel. Robert Capa sabia que a vida é tão intensa que é preciso chegar perto, mais e mais perto para senti-la, capturá-la, eternizá-la.
Robert Capa morreu durante a Guerra do Vietnã, fotografando soldados durante o combate. Robert Capa, fotografando soldados, pisou numa mina terrestre e deixou de existir. Ele estava perto demais e se imortalizou por isso.
Obrigado pelo recado, Guilherme Montana. Aconteceu muita coisa nesses últimos dez anos. Para os próximos dez, o recado está dado: chegar mais perto.

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