26 de março de 2016

nota_215: As músicas dele que eu mais gostei

Duas coisas que faço quando acordo: bebo água e ligo o som. Água e música, duas coisas essenciais. Fazem a vida acontecer. 

Enquanto água é indispensável à vida, música é essencial à minha vida. Escolher o CD pela manhã, montar a playlist do iPod, pesquisar um novo artista, tudo isso tem significado. Também é uma maneira de me conectar a outras pessoas. Se alguém ouviu Chet Baker cantando e sentiu alguma coisa, eu e esse alguém temos algo em comum, uma experiência sentimental em comum, que cria um elo indissolúvel entre nós. "Você sentiu aquilo que eu senti quando ouviu tal música?", um pergunta. "Senti, sim", o outro responde -- e não precisam mais de quaisquer palavras. Naquele momento, o elo criado ignora identidades, histórias, ideias, julgamentos e um ser humano se liga ao outro no que há de mais verdadeiro na nossa espécie: o que a gente sente.

Há um grupo no Facebook dedicado à musica. É o grupo no qual eu mais participo e do qual mais gosto. Aproximadamente cem pessoas, de vários estados, postando músicas. Nas palavras dos fundadores, é um "garimpo musical compartilhado", para a troca de referências e experiências musicais. A postagem é livre: qualquer estilo, qualquer época, qualquer gosto. Nada importa, apenas a música. Conheci coisas boas por lá, redescobri outras, ofereci algumas. Os maiores encantos do grupo são a diversidade e, é claro, a paixão pela música. Pelo gosto eclético e pela apetite curioso dos membros, a empatia é quase que imediata. É um grupo lindo. Fui convidado pra o grupo por um dos meus melhores amigos, convidei outros poucos.

Recentemente, o grupo sofreu uma perda. Um dos membros mais ativos morreu. Não eramos amigos. Não eramos amigos nem de rede social. Nunca o vi. Nunca tomamos um café juntos. Temos apenas uma amizade em comum, diz o Facebook. Pelos depoimentos dos membros que o conheciam, era um homem excelente. Eu acredito.

A má notícia mexeu comigo. A foto de perfil dele na minha timeline não eram apenas pixels. Do outro lado da tela, havia uma pessoa dedicada ao cuidado do próprio mundo interior e da vida sentimental, da mesma forma que eu e todos os outros membros do grupo, toda vez que escolhia uma música para compartilhar conosco. Quando o cara ouviu uma música e teve a necessidade de compartilhá-la conosco ("Essa mina é sensacional!"), nós a ouvimos e, gostando, sentimos o mesmo, ou algo semelhante, ao que ele sentiu -- e pronto, taí uma conexão. Música é comunhão.

Ele se chamava Rodrigo Sposito. Agora ele é onipresente. Troquei poucas palavras com ele no grupo, mas gostava das músicas que ele compartilhava. Menciono o nome dele, mesmo sem tê-lo conhecido, porque não quero deixar esta morte anônima para mim mesmo. Triste ele ter ido.

Estas são as músicas dele de que eu mais gostei:









Obrigado, cara.

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