17 de março de 2016

nota_213: O Imaginário dos Cadáveres Canibais

Publiquei primeiro no Medium.

Sem um sopro de vida mental sequer, todos mortos-vivos. Caminham, agridem, dilaceram, mastigam, consomem, urram, defecam e se esvaem em dejetos por todos os orifícios. Não há humanidade.

O álbum Kill, do mítico grupo de death metal Cannibal Corpse, fará dez anos daqui a alguns dias. É meu álbum predileto deles. Ainda não consigo definir o porquê, já que toda a discografia da banda é boa. Não é por que o belíssimo trabalho vocal de George “Corpsegrinder” Fisher esteja mais assim ou assado. Não é por que a bateria de Paul Mazurkiewicz esteja mais isso ou aquilo. Tampouco é por que Alex Webster, baixista e principal compositor, tenha inserido mais ou menos influências nas canções— que são lindas e fiéis ao estilo da banda e à cultura do death metal. Não sei por quê, mas Kill é meu álbum predileto. É o álbum deles que mais ouvi, logo depois vêm Bloodthirst (1999) e The Bleeding (1994), deste último eu comprei o CD à época do lançamento, quando ainda vivíamos a transição do long play para o compact disc, e quando tínhamos de ir à loja de discos toda semana fazer a mesma pergunta a quem quer que estivesse atrás do balcão: “Já chegou o novo do Cannibal?!”

Dez anos depois, ainda ouço o Kill. É uma obra-prima do gênero, como têm sido todos os álbuns da banda desde há muito tempo, ou pelo menos desde o Tomb of the Mutilated (1992). Morbid Angel não manteve essa consistência. Nem o Deicide. Nem o Obituary, embora este tenha feito álbuns mais ecléticos. Nem o glorioso Napalm Death tem sido tão consistente quanto Cannibal Corpse. Talvez o Slayer, mas aí já é outro departamento.


Uma das coisas mais legais em Kill e em toda a obra do Cannibal Corpse são as letras das músicas. São contos de horror, amedrontadoras se levadas a sério (quem levaria?) ou hilárias (risos). O próprio Corpsegrinder diz isso. Vejamos alguns exemplos destas narrativas extraídas do Kill. Esta parece uma boa semana para fazer estes comentários.

A música de abertura do álbum, “Time To Kill Is Now”, é uma história de vingança e barbárie entre clãs. Ou entre tribos. Ou, seilá, entre feudos. Também é uma história trágica da prepotência. Por alguma treta imemorial, há uma guerra, que se perpetuará em mais uma batalha. A uma milha de distância, os inimigos são vistos se aproximando, desprotegidos numa planície desolada. São aguardados em silêncio, com ódio no coração, por cabeças livres de quaisquer medos. O clã que espera é subestimado pelos inimigos: estes, por serem orgulhosos, não calcularam corretamente a força de quem os espera. “Sem misericórdia para a húbris”, diz a letra.

Os inimigos avançam mais rápido, ferozes, em direção ao clã, que, estático, os aguarda. “Eles mordem a isca”, diz a letra, enquanto os pulsos do clã se aceleram. Então os inimigos chegam pertíssimo, levantam suas armas, preparam o ataque; o clã não consegue mais esperar, “eles morderam a isca” — o clã engata sua emboscada. A matança começa:

Eles achavam que seria fácil, agora são eles que estão sendo destruídos
A arrogância do poder os deixou morrendo sobre o próprio sangue
Não haverá misericórdia para estes nojentos miseráveis
As entranhas dos meus inimigos empaladas na minha espada
Por muitos anos esperamos por este derradeiro dia de massacre
Nossas vítimas estão decapitadas, seus membros, em pedaços
Uma preparação meticulosa foi o que derrubou nossas vítimas prepotentes
Nossas forças estão em plena capacidade e o tempo de matar é agora

Uau.

O clã venceu, nenhum inimigo permaneceu vivo. “Não duvide de nossa convicção assassina”, diz a letra, que completa: “O ódio está do nosso lado, jamais perderemos”.

Outra letra interessante é “Make Them Suffer”. Não conta uma história, é apenas um desejar profundo maléfico. Uma entrega consciente à prática da tortura e do horror. Veja:

Faça-os sofrer
Enquanto eles imploram para parar
Totalmente desmoralizados e perto da extinção em massa
Condenados a servir à supremacia
A razão para o martírio deles eles jamais saberão
Faça-os sofrer
Enquanto eles sangram por toda a danação
[Enquanto eles] pedem por retribuição antes de encontrar o próprio fim
Amaldiçoados pela animosidade
Não há escapatória, quando escolhidos por esta louca provação
A dominação reina suprema, não há fim para o mal
Gastaram toda sua energia, agora inútil e decadente
Morte lenta é a única coisa que resta a eles
Fisica e mentalmente sem dignidade
Imortalidade definhante

O Eu-Lírico aqui (a palavra “lírico” neste contexto ganha cores inéditas) sente o mais profundo ódio por “eles” e deseja a “eles” todo o mal que há neste e em quaisquer mundos. É um ódio realmente muito profundo, porque mesmo quando ele fala do “fim” dos seus adversários, fica implícito que esse fim é de fato uma “imortalidade” em sofrimento incomensurável. Além disso, o Eu-Lírico, ou Eu-Agressor, impõe ou quer impor tamanha dor a “eles” mesmo que eles jamais saibam o porquê de tanto martírio. É mesmo um ódio unilateral, inato, involuntário, incriado, intenso e ininterrupto.

Imagens de cadáveres canibais desarrazoados, destruindo, pela própria existência de mortos-vivos antropofágicos, quaisquer formas de esperança e bom senso, ilustrando em cores vivas o desespero coletivo e o ódio ao próximo, personificando o egoísmo ilimitado dos instintos primitivos, ilustrando exageradamente a falta de humanidade… Às vezes a gente até acha que isso tudo seria impossível, que são só letras de death metal.

A primeira letra foi escrita por Alex Webster. A segunda, por Paul Mazurkiewicz.

Há outras letras interessantes em Kill, como “Death Walking Terror”, escrita por Alex Webster, que tem todo um lance byroniano gótico, ou “Barbaric Bludgeonings”, escrita pela guitarrista Rob Barrett, um aceno criativo a Edgar Allan Poe.

Como só Augusto dos Anjos faria melhor que os compositores do Cannibal Corpse, termino com um trecho de “Necrosadistic Warning”, escrita por Alex Webster:

Gratificação conseguida por desmembramento
Legiões artificiais atacam as carcaças
Feridas abertas, alvos para corruptores do mal
Sementes de iniquidades cobrem pedaços de corpos
Aviso necrossádico
Você não descansará em paz

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