26 de março de 2016

nota_214: O mundo assombrado por entidades



Cain Velasquez teria perdido no nível do mar? Anderson Silva teria caído se lutasse sério? BJ Penn ainda seria campeão se estivesse motivado? E se Junior Cigano estivesse sob os laços do matrimônio?

Eu acho que a luta entre Fabricio Werdum e Cain Velasquez ainda deve estar na memória de todos nós. Foi uma luta incrível. Werdum, campeão interino, disputava o cinturão oficial com o melhor candidato a substituto de Fedor Emelianenko no rol dos grandes do MMA – e no epíteto de “melhor peso pesado da história”: o campeão regular Velasquez. Velasquez, o milagre da metalurgia, às vésperas da luta contra Werdum, no UFC 188, era o favorito à unificação. Se considerássemos todas as probabilidades, esta história seria escrita sem sobressaltos. Mas a História é feita de sobressaltos, logo…

O que aconteceu, no entanto, foi Werdum ter vencido bonito, numa mudança de narrativaantológica, para usar o termo favorito dos comentaristas esportivos. Lá estava Fabricio Werdum, ex-campeão de jiu-jítsu e do ADCC, dando trabalho em pé ao wrestler que viroukickboxer Velasquez. Lá estava Werdum, um peso pesado de 38 anos, demonstrando o melhor dos condicionamentos físicos contra um atleta famoso justamente por isso. Lá foi Werdum, com um sorriso no rosto, guilhotinando Cain Velasquez. A decapitação mais famosa desde Robespierre.

Aquela vitória de Werdum merece vários ensaios de cunho tanto motivacional quanto literário, porque é incrível ver um atleta se reinventar, ainda mais estando “velho” (aspas de acordo com alguns padrões esportivos). Mas não é sobre a vitória de Werdum que escrevo. É sobre uma consideração que várias pessoas fizeram acerca da performance de Cain Velasquez.

A consideração é: “…mas se Cain estivesse [lutando] a nível do mar [sic], rapaz, Werdum não ia dar conta.” Isso não é estranho? Não lhe soa estranho nem por um segundo?!

É, sim, estranho, e a galeria de desculpas sistematizadas e supersticiosas é looonga. Já criamos várias entidades para preencher este quesito. “Entidade” é realmente o termo apropriado, porque estes, digamos, argumentos falaciosos, que são projeções dos torcedores em geral, acabam se tornando criações coletivas que só existem num plano simbólico. Vou explicar melhor, usando um herói particular como exemplo para expiar um mea culpa.

Maurício Shogun. Pode não parecer, mas houve uma época em que Shogun era o melhor lutador de MMA do planeta. Um dos melhores, quero dizer, porque ele foi contemporâneo de Fedor Emelianenko. Quando existia o PRIDE e Shogun era um dos seus atletas, era simplesmente impossível ficar indiferente às performances do curitibano. Como já disse noutro lugar, o homem era uma força da natureza: incansável, imbatível, implacável, invulnerável, destruidor. Era como se ele personificasse nossos instintos mais primitivos a cada tiro de meta que ele cobrava sobre o ringue. A cada vez que ele chutava a cabeça de outro ser humano estirado sobre o ringue, nós atingíamos níveis estratosféricos de neurotransmissores. Era uma coisa linda de ver.

O PRIDE acabou. Shogun foi para o UFC. Começou mal, perdendo para Forrest Griffin. Shogun começou mal e nunca chegou a estar realmente bem. Seu retrospecto no UFC é mais de derrotas que de vitórias. Conseguiu dois feitos marcantes: foi o primeiro a nocautear Lyoto Machida, quando disputou o cinturão dos meios-pesados no remoto UFC 113, e protagonizou uma das melhores lutas na História do esporte, uma facilmente elencada entre as cinco melhores, contra Dan Henderson, no UFC 139 (Shogun perdeu a luta). O restante do currículo de Shogun sob a Zuffa não é bom.

A questão é que, em algum momento desta timeline, entre alguma derrota e uma ocasional vitória, nós criamos a entidade “Shogun do PRIDE”.

Enquanto Shogun lutava no PRIDE, ele era apenas Shogun. Quando Shogun passou a lutar no UFC e a apresentar resultados inconsistentes, nós, os fãs, na ânsia de rever o Shogun ao qual nos acostumamos, começamos a evocar o “Shogun do PRIDE”, um chamado que se disseminou em todas as esferas do esporte. Treinadores, comentaristas, parceiros de treino, fãs – todos torciam para rever o “Shogun do PRIDE”, aquele lutador que só existiu mesmo na extinta organização japonesa. O “Shogun do PRIDE” faz uma falta do caralho.

Para aceitar os maus resultados dos ídolos, criamos essas fantasias supersticiosas. No caso do Shogun, todo o problema é que é impossível ser o “Shogun do PRIDE” por muito tempo. Todo aquele heroísmo selvagem que víamos nele dependia do vigor físico da mais tenra juventude e da saúde ortopédica de ambos os joelhos. Maurício Rua não dispõe mais nem de um nem de outro. O que não nos impede de continuar torcendo…

Voltando ao ponto central desta coluna, as fantasias supersticiosas são várias. Todas elas resultam na criação de entidades – entidades estas que todos nós, em algum momento, já convocamos, usando ou não tabuleiros ouija. Meus colegas de MMA Brasil já catalogaram algumas destes espíritos:

Shogun do PRIDE. Já falamos sobre ela, mas a deixo aqui no início desta breve lista porque ela tem variações, que são: “Shogun 100%” e “Shogun de Sunga Branca”.

Anderson Sério. É a fantasia que críamos no momento em que Anderson Silva, outrora um gênio, começou a perder o juízo dentro do octógono. O “Anderson Sério” já se manifestava há algum tempo, mas foi só na “Batalha das Arábias”, o UFC 112, quando o Spider recebeuDemian Maia para uma sessão de constrangimento global, que a entidade passou a ser usada com mais frequência pelo mundo esportivo. A entidade “Anderson Sério” nasceu na mente coletiva para desculpar a falta de ética, de dedicação e de saúde psicológica do atleta em questão. A seriedade é parte da motivação, da missão do atleta. A partir do momento em que ela, seja lá por quê, se descolou do atleta, ela se transformou nesta entidade. Enquanto o Spider não resolver seus demônios pessoais, a entidade “Anderson Sério” jamais se reincorporará novamente.

Cigano Casado. Uma entidade delicadíssima. Divórcios são a coisa mais extenuante que possa existir. Se você sobreviver a um divórcio, você é um titã. “O amor é a coisa mais triste quando se desfaz”, disse o Tom. Mas a vida segue, ama-se novamente. Treina-se novamente, também. Daí que quando Junior Cigano apresenta bons resultados, são bons resultados. Quando apresenta maus resultados, a entidade “Cigano Casado” é convocada. Deixem o homem em paz.

BJ Motivado. Era o espírito convocado quando o histórico BJ Penn sofria reveses. Era uma entidade curiosa, porque tentava expiar a própria falta de motivação do atleta. Supõe-se que se o atleta estivesse motivado, ele seria imbatível, mesmo que subisse ao octógno contra, sei lá, o Batman. Não precisou do Cavaleiro das Trevas para provar que esta entidade é chula:Georges St. Pierre mostrou. “BJ Motivado” é uma variação da “Anderson Sério”, como se motivação e seriedade não fossem traços básicos da conduta esportiva (e da vida, se você não confundir seriedade com circunspecção e/ou chatice).

Aldo de Metrô. Parece que esta entidade foi convocada quando da luta de José Aldo contra Frankie Edgar. Eles lutariam no UFC Rio 3, daí Aldo machucou o pé andando de moto e a luta foi cancelada. Como a moto era todo o problema, ele a vendeu e comprou um carro. Por algum motivo carioca, a entidade foi batizada de “Aldo de Metrô”. Não sei que meio de transporte o brasileiro usou em Dublin.

Cain no Nível do Mar. A entidade com o nome mais poético deste Olimpo esportivo nasceu da derrota de Cain Velasquez para Fabricio Werdum, como já sabemos. Parece que acenderam mais velas para a entidade “Werdum Reinventado”.

Estas entidades continuam nascendo todos os dias, é o “mundo esportivo assombrado pelos demônios”. São estes os demônios que fazem nossos atletas prediletos perderem.

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