21 de abril de 2016

nota_216: Antes que seque

Publiquei primeiro no Digestivo Cultural.

O primeiro amor é perfeito. Tudo nele é bom e se enraíza futuro afora na vida do amante. Tudo nele é perfeito, aliás, porque o primeiro amor é uma conquista do amante, não do amado – mesmo quando a loteria da reciprocidade funciona e amantes e amados se encontram no espelho arranhado das projeções, é o amar, e não o estar amado, que é transformador e que encoraja. O primeiro amor é perfeito, como tudo que criamos no nosso mundo interior.

Depois do primeiro amor, vêm a vida e outros primeiros amores. Mas aquele objeto inicial permanece, como a epítome da pessoa que o amante era capaz de ser e nada do que o então amado faça, nada do que a vida faça a ele, será capaz de transformar isso.

Tudo isto sobre primeiros amores, e outras considerações que ficarão para outra hora, estão comigo desde que li o livro Antes que seque, de Marta Barcellos (editora Record, 2015, 190 páginas). É um livro de contos, vencedor do Prêmio SESC Literatura de 2015, de uma escritora experiente que estreia na ficção. Um dos seus contos se chama justamente “Primeiro amor”, um conto curto e poderoso que narra o poder de permanência do encanto da primeira paixão na nossa vida amorosa. Mais que isso, não posso falar. Mas posso falar que um traço marcante deste conto, que é compartilhado pelas demais histórias do livro, é a ambiguidade agridoce da vida cotidiana. A beleza das coisas pequenas, que acobertam atrocidades; o incômodo dos gestos mesquinhos, que infectam nobrezas.

Se a ambiguidade é um traço comum às narrativas, três temas são abordados com frequência no livro: identidade, estigma e sexo. “Quase ela”, por exemplo, é um conto sobre identidade e, como consequência, a passagem do tempo. “Somos feitos mais de acasos ou de escolhas?”, a protagonista se pergunta, enquanto prepara um Nescau. Um questionamento shakespeareano que sempre acontece nesses momentos triviais do dia a dia. (Sou breve em relação à trama dos contos porque quero preservar as surpresas.) Perceba que o questionamento é sobre se somos mais de um que de outro, sem binarismos, mantendo a ambivalência que nos faz.

Eu conheci a autora pessoalmente, anos atrás (escrevemos para esta mesma revista virtual). Conversamos muito sobre literatura e sobre por que escrever ficção. Passando pela conclusão óbvia do porquê literário (enriquece a vida e deve ser feito, ponto), ela já tinha uma visão muito clara do como fazer literatura. “O texto tem de ser claro”, dizia. Antes que seque o comprova, pois tecnicamente o livro é impecável. Barcellos é jornalista, experiente em entrevistar pessoas, observar personagens reais, reconstruir histórias através de vários pontos de vida. A autora já era familiarizada com escrever textos antes de publicar suas primeiras ficções, e esta sentença não é a redundância que parece. Primeira pessoa, terceira pessoa, protagonista mulher, protagonista homem, Antes que seque tem de tudo e tudo mantém a qualidade, embora o forte criativo sejam as personagens femininas.

Sobre as quais, aliás, os temas que mencionei incidem com mais força. Identidade, estigma e sexo. “À moda antiga”, outro conto arrebatador, contém os três temas, num aceno a Nelson Rodrigues, mas narrado de forma que só alguém experiente na interseção entre viver, escrever e ser mulher saberia. Mais: narrado de forma penetrante, soberbo em cada detalhe. Como diz outra personagem de Barcellos, “A vida é uma sucessão de detalhes bem planejados, qualquer mulher sabe disso. São eles, os detalhes, que vão formar um todo harmônico, início, meio e fim, ordenar e imprimir o efeito estético que se busca ao final.” Toda esta perícia está em um dos meus contos prediletos, “À revelia”.

Uma variada galeria de personagens, e não de impressões de personagens. Narrativas estruturadas, e não flutuações sobre temas. Prosa elegante. Tudo que eu espero de um livro de contos está em Antes que seque.

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