18 de julho de 2016

nota_217: Hall da Fama do UFC, turma de 2016

Publiquei primeiro no MMA Brasil.

Se você tem uma foto, ou um busto, num hall da fama, isso quer dizer que você deixou um legado. Isso vale tanto para aquelas fotos em preto e branco, retratando senhores sisudos e de costeletas fartas, mofando em paredes decadentes de Rotary Clubs, quanto para toda aquela galeria de laureados na Academia Sueca. Todo legado é reconhecido, seja de forma não-oficial – Nabokov não ganhou o Nobel, mas foi um dos melhores do século passado; seja de forma oficial – Chewbacca teve vida e obra reconhecidas já em 1997, com o prestigiado Lifetime Achievement Award do MTV Movie Awards. Legado é legado.

Ainda vivendo as reverberações causadas pelo frenesi do UFC 200, um evento longamente programado e involuntariamente improvisado até o último momento, quando até seu combate principal foi definido pouco antes dos fãs colocarem a cerveja na geladeira, uma ocasião se destaca como ponto perene em meio a esse turbilhão de emoções regado a lutas malcasadas, escândalos de doping, retornos triunfais, vendas bilionárias e conquistas memoráveis. A ocasião é a celebração dos recém-acolhidos, ou melhor, recém-eternizados no Hall da Fama do UFC, turma de 2016.

Pioneiros, colaboradores, lutas, há mais de uma categoria para a turma de 2016, assim como já aconteceu em 2015. Até agora, o Hall da Fama do UFC tem os torsos óbvios, figuras conhecidas nossas desde a época do VHS. Randy Couture, Mark Coleman, Royce Gracie, Matt Hughes, Chuck Liddell, Dan Severn, Ken Shamrock (e Charles Lewis, fundador da grife Tapout). Não dá para imaginar o UFC sem esses nomes, dá para imaginar muito pouco do esporte-espetáculo do MMA sem eles também. Esses homens deixaram um legado e garantiram seus nomes neste simbólico hall.

Contudo, ainda era um hall próprio do UFC. O que a turma de 2016 sinaliza, que a de 2015 não fez, é que os futuros eternizados poderão representar legados mais abrangentes, que vão além do UFC. Aliás, não podia ser diferente, considerando que a turma de 2016 foi oficializada na semana do próprio evento UFC 200, do qual a luta principal consagrou uma lutadora gay sul-americana e o que foi o último antes da venda do UFC para a agência chinesa WME-ING. Não há como negar a mudança dos tempos.

O precedente que indica esta possível mudança atende pelo nome de Don Frye e o argumento é simples: ele fez mais fora do que dentro do UFC. Claro, Frye foi do UFC, esteve lá no início, naquela época abençoada de peso livre, mãos na grade, sapatilha dewrestling e bigodes de Tom Selleck. Frye inclusive ganhou dois torneios, embora o bigode leve mais a fama que ele. No UFC, Frye fez uma luta inesquecível contra Amaury Bitteti. Mas não é por nada disso que ele é lembrado de imediato para quem o conhece, tampouco é por estes feitos que ele é visto por quem não o conhece. O clipe de Frye que ficou na nossa mente, o clipe veiculado em qualquer reportagem sobre os primórdios do MMA, o clipe que millennials repassam via WhatsApp com as legendas “olha só q loki kkk” é o de Don Frye versus Yoshiriro Takayma, no PRIDE 21, no longínquo ano de 2002. Sim, sim, aquele quebra-pau insano mesmo. Uma obra de arte.

Será que essa indicação de Frye ao Hall da Fama do UFC pode indicar que a partir de agora os escolhidos podem ser quem contribuiu ao esporte e não apenas ao UFC? Somando esta especulação à compra do UFC pela WME-ING, será que um dia Fedor Emelianenko eKazushi Sakuraba, que lutou no UFC em apenas um evento, poderão estar no elenco deste hall pela contribuição de ambos ao esporte? Sendo o UFC o maior evento de MMA hoje, as escolhas que a instituição faz para compor seu hall da fama têm um certo peso histórico, o tal reconhecimento do legado que mencionamos antes. Com isto em mente, a primeira mulher a figurar entre os eternizados seria Gina Carano, que fez muito pelo esporte antes da presença midiática de Ronda Rousey, Cris Cyborg, idem, ou a própria Ronda? Perguntas precoces, talvez.

Voltando à turma de 2016, além de Don Frye, como pioneiro, a luta escolhida para o hall foi Mark Coleman versus Pete Williams, que acabou com Williams metendo a sapatilha dewrestling no rosto de Coleman. Lendário. O colaborador foi Bob Meyrowitz. Este homem é um pioneiro de fato: um dos fundadores do UFC e seu dono à época em que a marca foi vendida para a Zuffa. Duas escolhas interessantes. Escolher lutas para o hall da fama promete ser uma grande dor de cabeça. Stephan Bonnar versus Forrest Griffin I, qual outra luta além desta poderia figurar nas paredes do UFC? Várias, sem contar com as lutas do PRIDE, do Strikeforce e do WEC, todas elas organizações compradas pelo UFC. Já a indicação de Meyrowitz parece salutar, visto que ele está na genética do evento.

Por fim, o último eternizado nas paredes do UFC é Rodrigo Minotauro, que incorre em todo lugar comum e clichê de legado que um lutador pode deixar – e isso é maravilhoso. As vitórias sofridas, as derrotas catastróficas, as dores intra e extraoctógono, as escolhas erradas, as vitórias inesperadas. Taí um lutador sobre quem é possível falar muita coisa. Lutou nas maiores organizações de MMA da sua época, lutou contra os maiores pesos-pesados da sua época (cite um grade contra quem ele não tenha lutado), lutou contra as piores consequências de um estilo de luta baseado na resistência à dor, um comportamento próprio dos seus contemporâneos. Inquestionavelmente, Minotauro deixou um legado.

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